Boletim Arte na Escola

Mariana Guimarães é artista, professora e pesquisadora da bordadura como linguagem, tanto nas artes visuais quanto na educação. Ela foi uma das vencedoras do Prêmio Arte na Escola Cidadã em 2014, com o projeto A bordadura nas artes visuais.

Mariana dirige hoje a licenciatura no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Conversamos com ela sobre o bordado na formação inicial dos professores de artes e também sobre a importância dos Colégios de Aplicação.

A sua relação com o bordado atravessa tanto o seu percurso como artista, quanto como educadora. Da onde nasce sua pesquisa com o bordado?

Desde muito jovem eu tive esse interesse pelo fio. Quando me tornei professora não havia muitas pessoas trabalhando com isso. Sobretudo na educação, era zero.

Assim que entrei no Colégio de Aplicação da UFRJ, achei importante me situar no tempo e no espaço. Na década de 50 havia uma educação em artes que era tecnicista, e eu acho que a gente não pode desqualificar o passado. Então eu quis fazer um diálogo com esse tempo, foi aí que comecei minha investigação do bordado.

E como você enxerga o bordado na multiplicidade de linguagens e suportes que a arte envolve?

Uma pergunta que me persegue é: da onde vem o fio? O fio nasce da semente, ele não é da ordem do manual, nem do digital, é da ordem do biológico. Penso que temos que tentar entender o orgânico na arte.

O bordado é repetição e ritmo. Ele é recursividade. O ritmo precede a linguagem, por isso que ele é tão estruturante. Se pensarmos no mapeamento do genoma, na teoria do Deleuze sobre rizomas, na tecnologia digital, no conceito de rede, nas conexões, na sinapse - vamos perceber que tudo está relacionado ao fio. Tanto na ordem do visível quanto na ordem do invisível.

E ao mesmo tempo em que o bordado tem uma dimensão histórica de opressão, também tem uma dimensão de resistência. Ele não é nem uma coisa nem outra. É uma forma de contar histórias, de trapacear o tempo... É por aí que eu tenho caminhado.

Como a sua investigação do fio se intersecciona com a sua atuação no Colégio de Aplicação? Qual a abordagem para trabalhar o bordado com os alunos, em especial os licenciandos em formação para serem professores?

Atualmente eu estou como Diretora de Pesquisa, Licenciatura e Extensão do Colégio de Aplicação da UFRJ. Quando a diretora me convidou, a chapa foi batizada de Tecer o Coletivo, porque seria interessante que eu entrasse com uma conceituação política sobre o tecer. Então, de algum modo, hoje o tecer está permeando também as discussões políticas do Colégio de Aplicação.

Na formação de professores, os estudantes estão no último ano da licenciatura em Artes Visuais. Muitas vezes é o primeiro contato deles com o bordado, mas eu acho bacana esse interesse em tentar entender o que é o fio.

Minha abordagem é de compreender o fio como linguagem, isso já muda completamente o panorama, porque eu vou entender o fio sob a perspectiva de um campo ampliado. Coloco uma lupa e amplio desde aquele paninho que minha avó fazia. Muitos alunos chegam com essa referência. É muito interessante, porque o fio guarda uma memória do fazer.

O bordado carrega essa referência do cotidiano doméstico... O que você discute com os alunos para argumentar que bordado é linguagem?

Conversamos sobre pensamento em Rede, que é um pensamento sistêmico, contemporâneo. A Rede é formada do que? De fios e de nós. Esse pensamento acende uma luz na cabeça dos alunos. E também o desenho. O desenho é fio, é formado por linhas. Por isso, compreendo o bordado como desenho.

Tem duas coisas que eu tenho achado muito importante reforçar com os licenciandos: tirar qualquer pretensão de ensino técnico de bordado, porque eu tenho uma concepção de que assim como não se ensina a desenhar, também não se ensina a bordar. O bordado nasce no educando, como o desenho. Minha metodologia como professora é criar dinâmicas, caminhos.

Outra questão que é muito importante: desnaturalizar essa construção de gênero em que o bordado foi colocado ao longo do século. Na minha hipótese, o bordado foi um instrumento de domesticação das mulheres. Porque uma mulher bordando é mulher que está controlada, de cabeça baixa, concentrada. Então, temos que tirar essa naturalização de que bordado é coisa de mulher.

A partir do momento em que você diz que é linguagem, o bordado passa a ser percebido nas aulas mais como processo do que como produto?

Sim. Porque, veja bem, o bordado é o produto final, mas eu não estou falando de bordado, estou falando de bordadura, que é modo.

Modo é a metodologia, a fenomenologia, os processos... a linguagem, enfim. Se não a gente cai num lugar de dizer que bordado tem jeito de fazer. Bordado não tem jeito de fazer... Por exemplo, quando pequeno, o Leonilson já misturava cetim com organza e sua mãe falava: “mas esses panos não combinam...”. O artista estava instaurando ali uma linguagem, porque Leonilson não aprendeu a bordar de forma tradicional e, no entanto, o trabalho dele é têxtil, ele borda. Acho isso muito importante, não tem certo e errado.

O “avesso” é outro exemplo. O bordado não tem só lado direito, o avesso também constitui o trabalho. Então, o bordado não é direito, nem avesso, ele acontece no entre. Temos que compreender o bordado nem pelo início, nem pelo fim, mas pelo meio.

Você usa o bordado para discutir metodologia com os licenciandos?

Claro. E a metodologia é focada na própria narrativa do aluno. Eu entendo que a construção metodológica de cada um se dá a partir da sua vivência e é isso que eu tento fazer como educadora: partir da vivência de cada licenciando para que cada um construa sua própria metodologia. O aluno avança quando escuta o seu próprio contexto social, suas narrativas, seu foco.

No bordado também é assim, você dá um ponto atrás e vem pra frente. Existe uma atualização do gesto, uma atualização da memória. E uma característica importante do fio é que ele é uma matéria ensimesmada, que é feita de si mesma. Nós precisamos ser feitos de nós mesmos.

Os seus alunos serão os próximos professores de artes. Como você percebe essa geração?

Tenho percebido hoje um grupo de professores de artes mais engajados, mais críticos, essa geração mais jovem. Um grupo que está eliminando as fronteiras. Eu fui de uma geração que ainda estava muito dentro das fronteiras no campo da arte-educação.

Digo para meus alunos que para desenvolver uma metodologia, temos que ler e estudar os teóricos, claro, mas o melhor da arte-educação está fora do campo teórico. É o seu próprio repertório.

O Walter Benjamin diz isso: não nos reconhecemos se não contamos histórias. A partir do momento que a gente começa a se narrar, a gente começa a achar nossa história importante. Por isso, na licenciatura, eu parto das narrativas dos alunos para tecer as metodologias e planos de aula.

Eu começo a falar sobre metodologia perguntando: “como você faz arroz?” Peço para cada aluno me contar seu passo-a-passo. Assim eles começam a observar o método que adotam pra fazer arroz. Cada um tem um processo diferente, isso é metodologia, é construção de pensamento.

Precisamos promover essa construção de pensamento, os professores precisam ser mais autorais. E esses jovens têm muita coisa pra dizer. Eles estão vivendo uma contemporaneidade muito diferente da minha, eu já estou enquadrada por muitas outras coisas.

Além de ser professora no ensino básico e na formação de professores de artes visuais, você coordena grupos de pesquisa, ensino e extensão no Colégio de Aplicação da UFRJ. Quais são esses projetos?

Eu coordeno três projetos de extensão no Colégio de Aplicação. Um deles se chama Arte do Fio. O grupo tem artistas, professores, licenciandos... Nesse projeto nós investigamos os sentidos do fio a partir de uma ótica orgânica e a partir da ótica da educação. O projeto terá um desdobramento na Serra da Mantiqueira, com as mulheres agricultoras. Em 2017, vamos receber artistas e também um professor de matemática, para explicar sobre a recursividade, já que é um conceito matemático.

O outro projeto se chama Objetos de Afeto. Foi desenvolvido em parceria com outros pesquisadores, que investigam a tecnologia da rede, no âmbito digital. Nós trabalhamos com laboratórios abertos. O grupo investigou a tecnologia do tecer na esfera digital e na esfera manual. Chegamos à compreensão de que era a mesma coisa.

Esse projeto aconteceu em etapas, cada encontro tinha um nome. O primeiro foi “Desenrolar” - nós colocamos em uma sala a máquina de costura, computador, impressora, linhas – pra entender essa tecnologia, pra desenrolar fio. O segundo encontro foi o “Fio” e o terceiro foi a “Beatitude”, sobre o processo de se conectar com o que você faz, com o espaço onde você está.

O outro curso de extensão era o Projeto Tecer – Produção textual e têxtil. Foi um trabalho continuado, por 2 anos, com professores da rede municipal do Rio de Janeiro. Fazíamos um encontro por mês e discutíamos as relações entre o texto e o têxtil.

Também escrevi um projeto chamado Artista e Curador na Escola, em que levamos artistas e curadores para dialogar com os alunos. Esse ano, vamos juntar o projeto Arte do Fio e o projeto Artista e Curador para investigar o que é um tecido. Partimos de um conceito expandido. Já entendo que o tecido é uma paisagem, mas até ai, uma paisagem pode ser muita coisa...

Para você, que está envolta na formação de professores de artes, qual a importância dos colégios de aplicação?

Como diretora de licenciatura, trabalho com a formação de professores a partir de um campo ampliado. É daí que percebo a importância dos colégios de aplicação, em que o professor é um pesquisador, ele está comprometido em investigar junto com o licenciando. O estagiário não está na sala de aula só para cortar papel, ou para observar...

O reitor da UFRJ, professor Roberto Leher, tem proposto que façamos da UFRJ um complexo de formação de professores, no qual o Colégio de Aplicação, a Faculdade de Educação e as unidades de origem atuem em todo estágio de licenciatura, não só os do CAp.

A escola que receber o estagiário trabalharia junto com esse triângulo – professor de prática de ensino do CAp, professor da Faculdade de Educação e professor da Faculdade de Belas Artes, por exemplo.

Essa é uma proposta audaciosa, porque não é a universidade trazendo de cima para baixo, é horizontal. A intenção é criar uma rede maior de diálogo entre a universidade e as escolas de rede pública. Os Colégios de Aplicação têm esse papel.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Cíntia, 07:07 - 19/08/2017
    Lindo e importante seu trabalho!
  • IVANI SABINO DA SILVA ALMEIDA , 19:22 - 24/08/2017
    É um meio de descobrir os artistas, e ocupar as mentes dos jovens e adolescentes.

Deixe o seu comentário

Os campos assinalados com (*) são de preenchimento obrigatório.




Ainda nesta edição