Boletim Arte na Escola

O centro da obra de Leonilson é sua experiência individual. O próprio artista considerava suas produções como páginas de um diário pessoal e íntimo. Observador de pessoas assumido, Leonilson flanava pelo mundo recolhendo imagens e palavras, que reproduzia depois em seus trabalhos. Em um de seus bordados, ele escreve: “Voilà mon coeur” (Eis meu coração). “Meu trabalho é uma questão pessoal”, declara antes de morrer.

José Leonilson Bezerra Dias nasce no Ceará e aos 4 anos muda-se para São Paulo. Criado em uma família católica, o artista traz em sua formação dois elementos importantes para a leitura de sua obra: a cultura nordestina – com a literatura de cordel, o artesanato, as cores vivas, o bordado – e a iconografia religiosa, ancorada nos valores morais.

Mas as influências do artista foram muito além da terra natal. Nômade e cigano, as inúmeras viagens que fez eram para Leonilson uma espécie de metodologia de trabalho. Suas andanças pelo mundo acabavam por reivindicar uma subjetividade em crise. Ao observar o mundo, o artista observava a si mesmo, como um viajante que parte para conciliar-se consigo. Sua assinatura se alterna em iniciais como “José”, “LEO”, “J.L.B.D” ou “J.L.”, ou inscrições que revelam adjetivos como “mentiroso”, “traidor” ou “bonito”. Através das palavras bordadas, desenhadas ou pintadas – marcas gritantes da sua obra – o artista estava em constante exercício de autorretrato.

Ao longo de sua carreira, Leonilson cria um vocabulário iconográfico para exprimir seu estado sentimental. Montanhas, vulcões, escadas, carros, corações. A mitologia poética de Leonilson surpreende pela delicadeza das obras, que misturam bordados, gravuras e poemas em uma colcha de memórias, afetos e anotações de viagem.

Ele desenhava com o fio. O convívio com panos, linhas e agulhas na casa materna e a herança cultural nordestina podem explicar o que levou Leonilson a introduzir o bordado em seu percurso artístico. Apelidado carinhosamente de Leó, a família conta que desde pequeno ele combinava tecidos de forma nada usual. Já instaurava-se ali uma linguagem.

Quando escolhe bordar palavras, a delicadeza da linha faz com que elas ganhem intensidade e força perante o silêncio dos grandes espaços vazios que preenchem suas obras. A palavra bordada ganha significados e dimensão plástica. Em uma aparente despreocupação com a forma, o bordado para Leonilson deixa de ser um adorno para virar personagem. O suporte também tem um papel importante – a textura, caimento, transparência dos tecidos dialogam com as palavras costuradas.

Leó foi uma figura emblemática do contexto artístico conhecido como Geração 80. Sua trajetória com rápida ascensão profissional ilustra um momento singular das artes no Brasil: a volta da materialidade e da subjetividade na pintura. A obra de Leonilson toma impulso justamente a partir do início da década de 80, quando o artista torna-se uma referência por trazer para o centro a questão da identidade, do contador de histórias. As narrativas enviesadas, o corpo, a efemeridade da vida, a sinceridade, o cinismo, são temáticas contemporâneas. E Leonilson escolhe abordar esses temas através de uma caligrafia reveladora, que expõe palavras cujos sentidos são quase indizíveis, labirínticos, confessionais.

O artista falece jovem, com 36 anos, por decorrência de complicações causadas pela Aids. A última fase do seu trabalho, de 1989 até a morte, foi a mais profícua e complexa. Leonilson continua a bordar sua autobiografia, agora atingida pela doença, criando uma nova estética. A Aids surge nos trabalhos de uma forma delicada, difusa e melancólica. Em nenhum momento o nome da doença é mencionado nos títulos ou nas palavras bordadas. Mas a costura e as inscrições no tecido se tornam uma forma de resistência.

De tão intenso e sutil, Leonilson fundou uma linguagem artística própria. Os traços da sua abordagem e autoria são tão marcantes que podem ser imediatamente reconhecidos. Independente do suporte, suas palavras e imagens enunciam uma amplitude de significados misteriosos. Em uma relação umbilical, o artista entrelaçava sua vida e sua arte, forma e conteúdo, sentimento e matéria, frente as incógnitas da vida e da morte.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Cristiane, 23:19 - 14/09/2017
    Um ser extremamente sensível em um tempo de duras realidades brasileiras, como um diamante lapidado.

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