Boletim Arte na Escola

Projeções: identidade, natureza e tecnologia

Projeto Symbiosis, da artista visual paraense Roberta Carvalho, vira ponto de partida para alunos da EJA discutirem a relação entre arte contemporânea, tecnologia e saberes tradicionais das populações amazônicas.

Na Ilha do Combú, a quinze minutos de travessia a barco de Belém, no Pará, as copas das árvores viraram alvo de curiosidade da população local. Os passantes olham ensimesmados os vídeos que a artista visual Roberta Carvalho projeta na natureza. São rostos de ribeirinhos, muitos deles conhecidos por quem passa. Entre a folhagem marrom e verde, essas fisionomias evocam questões como memória e identidade dos povos amazônicos e suscitam ainda outro debate interessante: o de que a tecnologia pode aproximar a arte do espaço público.

O projeto, criado por Roberta em 2007, chama-se Symbiosis. “O nome veio do conceito ecológico de simbiose, que nada mais é do que a relação entre dois ou mais organismos vivos, de espécies diferentes, em que ambos saem ganhando. No caso do meu projeto, a natureza é a hospedeira da arte. A árvore não é apenas um anteparo para um vídeo ou uma imagem, mas se constrói também como obra. Quis que as pessoas refletissem sobre a relação entre identidade e natureza e também entre arte e tecnologia”, conta a artista.

Inspirado pelo projeto Symbiosis, o professor Leno Vidal resolveu levar a discussão suscitada pelo trabalho de Roberta para a EMEF José de Alcântara Machado Filho, na capital de São Paulo. Propôs a 25 alunos do período noturno da Educação de Jovens e Adultos um olhar provocativo sobre a arte e a tecnologia. “Comecei perguntando o que era tecnologia para eles. Responderam que era computador, celular e, a partir daí, fui discorrendo sobre o percurso da tecnologia como estrutura. O saber tradicional do trançado indígena, por exemplo, também é tecnologia. Muitos dos alunos se espantaram ao saber”, conta Leno.

O próximo passo foi questionar o que é arte. Ela deve estar apenas em museus? Por meio de textos do poeta e pesquisador da cultura amazônica, João de Jesus Paes de Loureiro, o professor Leno trouxe para a sala de aula o conceito de floresta-galeria, em que a natureza e seus saberes mitológicos e simbólicos formam uma obra a céu aberto, passível de leitura e interação.

“A partir disso, falamos sobre arte contemporânea e sua relação com a tecnologia, pois uma de suas características é justamente a de usar suportes artísticos diferentes dos tradicionais (como pintura ou escultura). O projeto Symbiosis, por exemplo, usa a tecnologia de projeção para aliar arte e espaço público. Eu e os alunos projetamos o material da Roberta em uma das paredes de nossa escola, à noite, a céu aberto”, relata Leno.

Os alunos passaram, então, a interagir com o trabalho. “Um deles se colocou na frente do projetor para testarmos como um dos vídeos do Symbiosis ficaria sobre o corpo humano”, conta o professor. “Além disso, fizemos uma roda de conversa para falarmos de outros temas essenciais à obra da artista: memória, identidade, ancestralidade e a valorização dos saberes tradicionais ribeirinhos”, completa.

Foram cinco aulas dedicadas ao projeto em 2017, e Leno ainda pretende trazer Roberta Carvalho para uma conversa com os alunos. “Precisamos romper barreiras. A arte deve estar nos espaços públicos, sobretudo na escola. Os alunos, por sua vez, devem interagir com os artistas de forma a ampliar suas ideias sobre arte e cultura. É uma forma de incentivá-los a produzir também”, ressalta.

Roberta Carvalho diz que esse é um dos pontos essenciais do seu trabalho: “Para mim, a arte faz sentido quando está disponível, no meio das pessoas, quando se constrói junto com o mundo e a sociedade”. Ganhadora do Prêmio Mulheres nas Artes, da Funarte, em 2014, a artista quer levar cada vez mais cultura e artes visuais para o espaço público das cidades amazônicas. O Festival Amazônia Mapping, idealizado por ela e já na terceira edição, tem justamente essa proposta. É um projeto que traz o encontro entre arte e tecnologia para o primeiro plano e busca descentralizar o circuito das artes no país. O Festival Amazônia Mapping tem também um caráter formativo e oferece uma série de oficinas gratuitas para estudantes e público local, com foco na instrumentalização da prática e do pensamento em arte e tecnologia.

Quando perguntada sobre o que acha de ver o projeto Symbiosis ganhar as salas de aula, Roberta se emociona: “É disso que se trata. Quero que as pessoas construam minhas obras junto comigo. Que as vejam em suas escolas, em suas cidades e que debatam sobre a importância da arte e o potencial da tecnologia para falar do que há de humano: nossas memórias afetivas e nossa identidade em relação ao espaço em que vivemos”.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Teresa de Deus Santiago, 20:40 - 08/02/2018
    Achei incrível o projeto, parabéns pelas excelentes idéias, idéias que farão com o aluno cresça tanto como futuros profissionais quanto pessoas bem sucedidas!

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