Boletim Arte na Escola

Conversa: mediação em Artes no Ensino a Distância

Cada vez mais o Ensino a Distância torna-se uma opção acessível e popular, inclusive na formação de professores. Entre os prós e os contras, fica a certeza de que é um formato que merece atenção.

Quando se trata do ensino de Artes, a abordagem tem que estar de acordo com a subjetividade e liberdade intrínsecas deste campo do conhecimento. Mas como construir com sensibilidade um processo educativo, sem o contato direto do aluno com seu professor e com seus pares? Qual é o perfil de um mediador em EaDs de arte-educação?

Para investigar quais são as especificidades da arte-educação em cursos EaD, o Instituto Arte na Escola procurou duas educadoras experientes na área:

Luciana Nobre e Valeria Alencar são mediadoras no curso Aprendendo com Arte, um curso livre a distância que visa a formação continuada de professores de Artes da Educação Básica. Em 2017, a equipe do curso decidiu coletivamente que ao invés de serem tutoras - o que é o usual tratando-se de EaD - passariam a ser denominadas mediadoras. Não se trata apenas de uma questão semântica. Esta opção carrega consigo um posicionamento da equipe em relação às propostas de mediação cultural e suas definições, e o quanto isso interfere nas atuações no ambiente virtual de aprendizagem (AVA).

Da mesma forma como acontece nos fóruns virtuais do Aprendendo com Arte, Valeria e Luciana propuseram uma conversa sobre como é ser mediadora em um EaD de arte-educação.

Valeria: Considerando que temos bastante experiência com mediação cultural em espaços não-formais, como museus e exposições, queria começar com uma provocação para você: é possível falar em mediação a distância? Que aspectos do seu trabalho como mediadora “ao vivo”, digamos assim, são utilizados no ambiente virtual, no ensino de Artes, e quais precisam se adaptar a essa tecnologia?

Luciana: De início, não pensava que minha experiência com mediação em espaços não-formais fosse ser valiosa para o trabalho com educação a distância. Imaginava que os cursos e os projetos que desenvolvo com escolas e professores fossem me oferecer muito mais subsídios, assim como minha experiência como professora atelierista. Logo que comecei a atuar no EaD, eu já estava curiosa (e cheia de preconceitos) sobre como se dava o processo educativo a distância, considerando que não haveria olho no olho, eu nem poderia ouvir o tom de voz dos meus alunos e nem eles o meu. A linguagem escrita seria o único caminho para estabelecer contato. Foi aí que, naturalmente, a experiência em mediar veio à tona, foi a minha saída para este desafio. O curso de EaD é todo realizado com fóruns de discussão, que têm como estopim textos e vídeos com os conteúdos e proposições criadas pelos mediadores. E então, do mesmo modo que medeio ao vivo, vou articulando as ideias, posicionamentos e reflexões apresentadas. Também busco criar um clima em que todos se sintam à vontade em compartilhar e expor seus pensamentos, mesmo que sejam conflitantes entre si. Diferente de um bate-papo ao vivo, onde cada um vai construindo a conversa com sua reação imediata à participação do outro, na plataforma as discussões se dão de forma assíncrona, então alguém pode comentar na segunda-feira e somente na quinta-feira outro alguém lhe responder… por isso o papel de mediadora no AVA precisa ser mais marcado, mais visível, para manter a discussão sempre ativa, alimentando o estado de presença (mesmo que virtual) do cursista. Em uma mediação presencial este papel pode se dissolver, deixando o próprio grupo articular as discussões. Isso é algo que busco no trabalho de mediação e que acho bastante difícil quando se está à distância. Outra adaptação é na forma de me expressar, acabo não fazendo provocações ou deixando coisas no ar na proposta inicial, porque percebi a necessidade de ser objetiva, com proposições bem claras, pois como eu e os cursistas estamos lendo e escrevendo em tempos e espaços diferentes, procuro reduzir as chances de que hajam mal-entendidos. Recorro a uma linguagem informal, com traços de oralidade para aproximar a conversa escrita do clima de uma roda de conversa.

Descobri, com muita surpresa, que é possível mediar a distância sim. Agora, te pergunto: quando foi convidada a trabalhar com educação a distância, que desafios imaginou enfrentar?

Valeria: Eu não sou artista e minha formação inicial é História e não Artes. Na Educação Básica sou professora de História, minhas pesquisas de mestrado e doutorado são em arte-educação e mediação cultural. Como em qualquer outro trabalho em que me envolvo com Artes, imaginei que seria muito desafiador lidar com produções de arte dos professores e, ainda mais, no ambiente virtual. Então, encarei o trabalho mais como um processo de mediação, da mesma forma que fiz quando lecionei num curso de licenciatura em Artes, que era presencial. Fiz o “mestre ignorante”, citando o Jacques Rancière, e aprendi muito. Acreditei que era possível trabalhar na perspectiva da mediação cultural num ambiente virtual de aprendizagem, a questão passou a ser como trabalhar assim.

Luciana: E após vivenciar o papel de mediadora a distância, que entendimento tem hoje deste trabalho? Que reflexões esta vivência contribuiu para o seu trabalho com mediação de modo geral?

Valeria: Algo que este trabalho agregou às minhas reflexões foi entender a mediação como estratégia para os processos colaborativos de trabalho em educação, pois esta é uma preocupação não só no que se refere ao nosso processo de construção coletiva do curso, como também ao abordar os temas com nossos cursistas. E, por isso, vou discordar quando você diz que para a mediação a distância optou por “não fazer provocações ou deixar coisas no ar”, “porque percebeu a necessidade de ser clara e objetiva”. Eu procuro ser clara e objetiva nas proposições iniciais, mas cada resposta que escrevo a um ou uma cursista é uma provocação, deixo coisas no ar, mas também indico possíveis caminhos. Entendo o tempo que pode passar entre uma resposta e um comentário, como você assinalou, mas percebo que as provocações afetam outros, que nem estavam presentes em uma determinada conversa.

Mas agora fiquei pensando, o “mal-entendido” é necessariamente ruim?

Luciana: Você me fez pensar… Eu quero ser entendida pelo meu interlocutor sim, mas ele pode ter uma leitura mais aberta da minha fala. Minha questão é como equilibrar a disponibilidade e a presença do cursista para conseguirmos estabelecer uma conversa com o grupo como um todo, então a proposta precisa ser clara e objetiva mesmo, deixo para trazer questionamentos, que podem ser entendidos como provocações, para os posts em que comento e articulo as participações dos cursistas. Na verdade, são estas provocações posteriores que de fato viabilizam as trocas e as reflexões. Esta é mais uma diferença entre o estar ao vivo ou totalmente a distância, pois gosto de criar proposições-disparadoras menos objetivas, assim podemos partir exatamente das diferenças entre os entendimentos, e nesse caso não haveriam mal-entendidos… mas diferentes entendimentos... Aliás, não provocar os cursistas a olharem para a diversidade que compõe a turma seria abrir mão de uma grande potência dos cursos EaD, já que os grupos são formados por cursistas de todo o Brasil.

Referências:

RANCIÈRE, Jacques. O mestre ignorante. Cinco lições sobre a emancipação intelectual. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica editora, 2011.

______. O espectador emancipado São Paulo: Martins Fontes, 2014.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Rose Mary Anndrade Rodrigues, 20:26 - 12/02/2018
    Minha graduação em Artes foii EAD e achei muito instiiigante para mim. Na verdade quando iniciei o curso não sabia sequer ligar o computador. Hoje estou iniciando minha segunda pós-graduação em Artes , pela EAD e acho que não deixa nada a desejar de uma presencial, pelo contrário faz com que busquemos mais pesquisas e maior conhecimento.

Deixe o seu comentário

Os campos assinalados com (*) são de preenchimento obrigatório.




Ainda nesta edição