Boletim Arte na Escola

Mapas sonoros e poéticos da cidade

Projeto Tractos propõe a criação de mapas táteis, sonoros e interativos e constrói cartografias afetivas

O barulho da máquina de calibrar pneus. Os pássaros que cantam pela manhã. As vozes que ecoam pelas praças. Tudo isso compõe a paisagem sonora de um bairro, ainda que os ouvidos de seus habitantes estejam desacostumados a encarar esses sons cotidianos como um elemento que pode ser mapeado. Foi justamente para incentivar essa sensibilidade, suscitar discussões e para traçar novas formas de ver a cidade que surgiu o Projeto Tractos.

Desde 2014, os artistas responsáveis pelo projeto, Soraya Braz e Fábio Fon, vêm utilizando a tecnologia para pensar a relação entre o espaço e o percurso das memórias afetivas. Em regiões periféricas das cidades que recebem o projeto, eles propõem que moradores, alunos e professores de escolas do entorno, captem sons do ambiente (muitas vezes com os próprios celulares) e construam um mapa tátil-sonoro-interativo, feito com grafite, papel, material condutivo e uma placa controladora. A proposta, multissensorial e multidisciplinar, envolve paisagem sonora, cartografia, computação e programação.

“O resultado das oficinas, realizadas em cinco encontros, são instalações artísticas produzidas pelos participantes, a partir do contexto em que eles vivem. Depois que eles gravam os sons do ambiente, a gente começa a pensar no mapa e aí entra a computação física. Trabalhamos com uma placa controladora chamada Makey Makey, uma interface que transforma qualquer material que conduza eletricidade em um botão de teclado. Isso inclui desenhos feitos a grafite, porque o grafite é um material condutor”, explica Soraya Braz.

Surge então um mapa que emite sons quando se toca em determinadas partes do desenho. “Nossa intenção com cada obra é que ela transpareça um pouco da subjetividade do grupo. Que as pessoas desenvolvam uma cartografia íntima e coletiva de onde vivem ou trabalham. Depois de pronto, o mapa é exibido para a comunidade e é interessante notar a riqueza que ele evoca por concatenar sons íntimos (muitas vezes de dentro da casa dos participantes) com outros mais característicos do bairro. Em Itaquera, na cidade de São Paulo, por exemplo, os sons mais pessoais misturaram-se aos ruídos do estádio de futebol e do metrô”, conta Fábio Fon.

Nas escolas, o projeto ganha contornos multidisciplinares. “A ideia é que o professor se aproprie não só do software e aprenda um pouco de programação, mas trabalhe, sobretudo, a questão da percepção sonora e também do desenho enquanto observação, memória e registro. Ele pode aplicar o projeto em sala de aula e discutir as referências que os alunos trazem para a construção do mapa”, diz Fábio Fon.

Quando o assunto é percepção sonora, uma das referências do Projeto Tractos é o músico, pesquisador e educador canadense Murray Schafer, que se tornou uma autoridade no assunto por seu projeto “Paisagem Sonora Mundial”, desenvolvido entre os anos 1960 e 1970. No trabalho, que integra diferentes tipos de sons para composição da paisagem, Schafer propõe que tratemos o mundo “como uma vasta composição macrocósmica, composta pelos ‘músicos’, definidos [por ele], como ‘qualquer um ou qualquer coisa que soe’”, conforme nos apresenta a abertura do livro O ouvido pensante, de Schafer.

Tendo o som como o ponto de partida e Schafer como uma de suas inspirações, outro ponto interessante do Projeto Tractos é a reflexão sobre como aliar os sons aos lugares em que eles são dispostos no mapa. “Essa é a fase mais complexa do projeto, pois exige que os participantes exercitem sua capacidade de abstração”, conta Soraya Braz. “De maneira geral, as pessoas tendem a seguir uma lógica que se aproxima de um mapa convencional, mas, em alguns casos, desenhos e sons foram mesclados de forma mais livre. Na verdade, quem escolhe isso é sempre o grupo, exercendo sua autonomia. Coletivamente, eles definem a natureza do mapa – se será mais próximo dos convencionais ou se querem fazer uma obra mais aberta e poética”, completa Fábio Fon.

A liberdade criativa, estimulada pelos artistas, faz com que o projeto trace uma cartografia social nas escolas por onde passa. Fábio Fon problematiza a questão: “Hoje em dia, a gente tem uma desenvoltura com dispositivos móveis, que permitem a mobilidade a partir dos mapas acessados pela internet e aplicativos. Deixo, no entanto, uma reflexão: quais são os critérios para a elaboração desses mapas? Eles revelam pontos de vista políticos, econômicos e sociais. Quando propomos que alunos elaborem seus próprios mapas, inclusive com a apropriação e o uso dos sons, abrimos outras possibilidades interpretativas. E mais importante: abrimos espaço também para a dimensão do afeto e da memória”.

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