Boletim Arte na Escola

pequenoLAB: inventos com Artes e Tecnologia

O nome já dá uma pista: o pequenoLAB é um laboratório portátil de inventos. Formado pela artista visual Marrytsa Melo e pelo cientista ambiental Filipe Machado, o projeto vai até escolas e espaços de educação não-formal propor experimentos que conectam tecnologia, arte e ciências.

Qual é a proposta por trás do pequenoLAB? Da onde parte essa ideia?

Marrytsa: O pequenoLAB é um laboratório de inventos que não tem espaço físico, é um laboratório móvel, que pode acontecer em qualquer lugar. Ele é pequeno no tamanho justamente porque pode ser transportado, ele vai até os alunos.

Filipe: E o pequeno envolve também a nossa metodologia. O pequenoLAB é um enfrentamento de tudo que tem que ser grande, que tem que ser mega e exagerado. As coisas não precisam ser megalomaníacas para mostrarem seu valor.

É difícil desvincular a ideia de laboratório do aspecto tecnológico. Como vocês trabalham a tecnologia neste laboratório móvel?

Marrytsa: Muita gente hoje em dia tem acesso a um celular, mas não faz a mínima ideia do que há por trás daquilo. Como é um celular por dentro? Nossa ideia é partir dessa tecnologia que é fechada, e abrir, experimentar o que tem por dentro, transformar em outra coisa.

Filipe: A tecnologia, esse objeto dado, impede a gente de interagir com ela de uma forma mais própria. Quando adotamos a metodologia de pegar um objeto do cotidiano, abrir e investigar o que tem por dentro, queremos despertar aquela curiosidade infantil que tem dentro de todo mundo. A gente, quando adulto, tenta abafar essas procuras.

Existe uma tendência de relacionar tecnologia sempre com dispositivos eletrônicos, mas tecnologia é mais do que isso… Como vocês abordam a questão dos materiais?

Marrytsa: Pensamos a tecnologia em uma esfera ampliada. Os experimentos ligam o digital com o analógico. Queremos discutir a forma como tudo está interligado: arte, tecnologia, ciência, meio ambiente. No final das contas, todos os componentes estão na natureza. O fio é feito de cobre, que era uma montanha; o isolamento do fio é feito de petróleo, que há muito tempo atrás eram seres vivos...

Filipe: Quando falamos de materiais, outra questão que trazemos com bastante ênfase é o descarte. Componentes eletrônicos geram um grande lixo, estamos falando do final de uma cadeia de produção. Isso tem que ser levado em conta quanto discutimos tecnologia.

E aonde entra a Arte no trabalho de vocês?

Marrytsa: Trabalhamos a relação da Arte com a vida, a Arte como experiência. A visão do artista e a visão do cientista estão muito próximas, no sentido de quererem investigar o mundo, vasculhar conceitos, desvendar… O artista e o cientista são dois curiosos, eles têm esse papel de provocar e atiçar a curiosidade.

Filipe: O pequenoLAB que explorar a tecnologia como uma estrutura que faz parte da nossa vida, e o mesmo vale para a Arte.

Contem um pouco sobre a dinâmica dos encontros. Que tipo de atividades vocês propõem para os alunos?

Marrytsa: A gente sempre começa olhando para fora da caixa, que é a sala de aula. Olhar para o céu, por exemplo, pode nos revelar muita coisa. Um exercício que fazemos é o de criar constelações. Por que enxergamos algumas estrelas e outras não? Na conversa nós vamos conectando questões poéticas e conceitos científicos. Depois cada aluno desenha sua constelação imaginada e constrói um circuito para ligar com fibra ótica. No fim, com a luz apagada, as constelações de fibra ótica brilham a partir da construção de cada aluno.

Filipe: Nós temos alma de inventor, não gostamos de repetir as atividades entre as turmas. No geral, trabalhamos com materiais diversos, principalmente com funcionamento elétrico. Fazemos, por exemplo, pequenos robôs, desde os com funcionamento mais simples, até os que você precisa programar usando Placa Arduino.

Em alguns experimentos nós tiramos energia das frutas, fazemos esculturas com elas, falamos sobre artistas que transformam elementos usando o poder das figuras geométricas. Também trabalhamos muito com fios, então trazemos uma ideia de “linha invisível que liga tudo”. Vamos ensinando, a partir dessa ligação, como desencapar um fio, o que liga e o que não liga, polo positivo, polo negativo.

Marrytsa: Tem a questão poética, mas também ensinamos a fazer um pequeno circuito. Normalmente ensinamos os primeiros passos e entregamos um kit de componentes que eles vão usar para fazer as experiências. Cada um tem liberdade para interagir do jeito que quiser. Quando os encontros são mais continuados, levamos uma grande caixa de componentes sortidos ou então levamos um equipamento – como a CPU de um computador – damos as ferramentas, eles desmontam e escolhem as partes que querem usar.

Vocês fazem encontros continuados tanto em escolas como em espaços de educação não-formal. Que diferença vocês sentem entre esses dois públicos?

Marrytsa: Hoje em dia nós temos um grupo continuado no Parque Laje, para crianças de 6 a 12 anos. E trabalhamos também com grupos fixos em escolas, no contraturno. Existe sim muita diferença entre esses dois universos.

Primeiro porque o Parque Lage é um local aberto, e as crianças se deslocam até lá já com a ideia de fazer nosso curso. Como nossa metodologia é bem livre, trabalhamos a partir das vontades deles, dos questionamentos que trazem...

Filipe: Já na escola sentimos que a dinâmica muda, a sala de aula tem muito mais regras. E como o ambiente escolar é um território comum para os alunos, quando chega alguém de fora, eles querem se mostrar dominantes naquele espaço. Nosso desafio é buscar que os alunos lidem com a liberdade que damos a eles de uma forma que seja boa para todo mundo.

Essa sensação de aprender a lidar com a liberdade (ou a falta dela) dentro da escola tem uma conexão forte com a aula de Artes, especificamente, não? Partindo do princípio que a aula de Artes é um terreno fértil para a experimentação, não precisa haver o certo e o errado…

Filipe: Essa ansiedade que temos em trabalhar a liberdade com os alunos tem muito a ver com a forma como o conhecimento é passado dentro da escola. Na maior parte das vezes, os alunos não aplicam aqueles entendimentos de forma prática. Parece que o conhecimento fica em um campo separado do fazer.

Nosso movimento é o contrário, queremos testar com os alunos o conhecimento na prática. E surgem frustrações quando eles não conseguem chegar no resultado que esperavam. Isso também é um reflexo do imediatismo de hoje, das coisas que vem prontinhas, basta apertar um botão e tudo funciona. Mas se você liga um circuito, muito provavelmente vai dar errado da primeira vez, e é normal, é bom porque a gente sempre aprende alguma coisa com o nosso erro.

Marrytsa: Quando bate a frustração, nossa conversa com os alunos é contar que nada do que já foi inventado, aconteceu na primeira tentativa. Queremos que a experiência ultrapasse aquele momento em que não está dando certo. Nem tudo é funcional, nós trazemos exemplos disso também.

E tanto na arte quanto na ciência, muitas vezes você tem uma ideia de onde quer chegar, mas no meio do processo acaba ajustando a direção. É muito comum que essa mudança de caminho dê resultados melhores do que você estava esperando no começo. Então aquele “erro”, ou aquele processo que foi por um outro rumo, acabou dando certo.

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