Boletim Arte na Escola

Professora Andreza Nunes Real da Cruz

Na escola bilíngue, alunos surdos e professores ouvintes estão juntos para construir seus processos de ensino e aprendizagem. Hoje, dentro do bilinguismo, é possível dizer que trabalhamos para a emancipação dos alunos surdos, considerando seu ponto de vista na concepção do currículo? No ensino de arte, como essa relação entre professor ouvinte e alunos surdos influencia os resultados na fruição e produção de arte em sala de aula? Diante destas questões, foi conduzido o projeto “Vibração: percepção de ritmos”.

O projeto teve como objetivo o ensino e aprendizagem do ritmo, pela participação efetiva dos estudantes em processos criativos voltados a experimentação desse elemento através do modo de vibração de um telefone celular.

As atividades foram realizadas durante as aulas de arte com turmas de 7º ano de uma Escola Municipal de Educação Bilíngue para Surdos (EMEBS) da rede paulistana. Todos os alunos presentes na escola são surdos e alguns apresentam deficiências associadas a esta condição. A comunicação dentro da escola, sobretudo durante as aulas, é realizada em Libras – Língua Brasileira de Sinais.

Proposta: percepção de ritmos

Em um sentido amplo, o ritmo está presente no cotidiano do surdo, seja em suas atividades fisiológicas, motoras, na comunicação por língua de sinais, nas tarefas laborais ou nas práticas de estudo, como leitura e escrita. No entanto, sujeitos surdos não aprimoram esta percepção por não captarem o ritmo do ambiente em que estão inseridos.

Propusemos, com os alunos surdos, uma experiência que culminasse na produção de danças e expressões corporais a partir da percepção de ritmos na vibração de um celular.

A atividade buscou contribuir para a aprendizagem de um sentido rítmico, do aprimoramento de nossa coordenação motora, a expressão criativa através do corpo, além de aspectos relacionais do grupo, tais como liderança e cooperação.

As turmas eram compostas por até 11 alunos, todos surdos e fluentes em Libras, idioma utilizado durante todas as aulas. Alguns alunos apresentavam treino fonético, o que lhes permitia oralizar suas falas e compreender melhor as minhas também, através da leitura labial. Vários adolescentes apresentavam comprometimentos como deficiência intelectual, pouca coordenação motora fina ou paralisia cerebral, que refletiam em sua mobilidade ou movimentação de braços e mãos.

Os materiais utilizados para este trabalho foram: um celular, garrafas PET vazias e grãos de trigo. O espaço em que tudo ocorreu foi a própria sala de aula. Para iniciar o trabalho, produzimos uma espécie de chocalho com as garrafas, colocando um punhado de grãos de trigo dentro delas e fechando com suas tampas.

Escrevemos a palavra “ritmo” na lousa e perguntamos aos alunos se eles a conheciam e o que ela poderia significar. Nenhum dos alunos das quatro turmas onde este trabalho foi proposto respondeu afirmativamente e nenhum de nós conhecia um sinal em Libras para este termo.

Perguntamos se eles já perceberam como as pessoas dançam músicas diferentes, como samba, funk ou rock e também como os dançarinos, quando estavam em grupo, sabiam dançar todos juntos, quase da mesma forma. Pedíamos que eles representassem rapidamente para os colegas o que eles conheciam dessas danças.

Quando eles ficavam tímidos demais para demonstrar, nós o fazíamos. Apenas um aluno, filho de pais surdos, se referiu à música tocada, que era diferente em cada um destes estilos e que isso coordenaria o tipo de dança que as pessoas executavam.

A partir daí, explicamos que essas músicas diferentes tinham ritmos diferentes e por isso podíamos saber como responder a elas como corpo. Neste ponto, propúnhamos que eles se juntassem ao redor de uma carteira, onde era colocado um celular, que tem, entre suas funções, a personalização do modo vibratório. De antemão, deixamos algumas vibrações preparadas, que duravam cerca de 15 segundos, e pedíamos que eles as sentissem, tocando na mesa ou no próprio celular.

Alguns percebiam imediatamente que a vibração se colocava com tempos regulares de pausa. Repetíamos a reprodução da vibração selecionada algumas vezes até que o grupo estivesse satisfeito, ajudando-os a perceber os tempos daquele ritmo, indicando-o com um gesto da mão.

Em seguida, pedíamos que cada um pegasse uma garrafa e tentasse reproduzir a vibração, movimentando os chocalhos, enquanto ainda a sentia com uma das mãos no celular. Neste ponto, alguns alunos que tiveram dificuldade para identificar a vibração quando estavam apenas sentindo, ao ver o movimento das garrafas dos colegas, conseguiam incorporar os tempos e presumir o próximo chacoalhar de garrafas. Este passo também era realizado algumas vezes.

O movimento com a garrafa fazia a ponte para a próxima ação, estendendo a vibração para um objeto maior, que permitia uma sensação mais vigorosa e podia ser controlada individualmente.

Nós convidávamos os alunos a responder com o corpo, de memória, àquela vibração que haviam experimentado. Muitos se voluntariavam para esta atividade. Oferecemos novamente o celular para que eles sentissem mais uma vez o ritmo. Individualmente, em pares, trios ou quartetos, eles reproduziam com e sem nossa ajuda, movimentos que combinassem com aqueles pulsos do celular. Trocávamos as vibrações e eles procediam novamente todas as etapas até finalizar com movimentos que mostravam a incorporação do ritmo apresentado.

O projeto reuniu elementos que contribuem para a receptividade entre os alunos. Primeiramente, utilizamos um aparelho celular como disparador, um acessório a que a maioria dos alunos está bastante familiarizada. Eles também puderam construir seu “instrumento”, o que valoriza sua capacidade de autonomia desde o início da proposta.

A expressão corporal é uma linguagem presente em toda a comunicação realizada pelos surdos em seu dia-a-dia e, com certeza, a dança é uma das linguagens artísticas a que mais facilmente podem ter acesso pleno.

Além disso, a dança é uma forma de integração entre ouvintes e surdos, uma oportunidade de socializar dentro da família e diminuir, neste contexto social, a pressão do estigma de inferioridade, muitas vezes imposto a eles. Isso pode explicar o porquê de, convidados a participar, se expressar e desenvolver conhecimentos sobre ritmos a partir do movimento corporal, a grande maioria dos alunos aderiu prontamente.

Percebemos, durante este processo, que o trabalho do professor ouvinte, ensinando para alunos surdos, naturalmente se aproxima de prática híbrida, pois está sempre no limite de duas culturas, duas línguas, duas formas de ver o mundo, tendo suas próprias concepções como ouvinte, porém precisando manter em mente que seus alunos receberão as experiências que lhes são propostas de uma forma particular, correspondente a sua própria cultura surda.

 

Para saber mais:

O movimento surdo tem buscado cada vez mais sua representatividade nos equipamentos educativos e culturais, um bom exemplo é o coletivo Corposinalizante.

Formado por jovens surdos e ouvintes, o grupo propõe uma série de atividades que discutem a comunicação, o acesso e a produção cultural diversificada. Performances, intervenções urbanas e saraus são algumas das atividades realizadas por estes jovens.

Conheça mais deste projeto! Acesse corpo-sinalizante.blogspot.com.br

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