Boletim Arte na Escola

Novembro é um mês do ano que causa certa expectativa no pequeno universo de professores de Arte do Brasil. Universo que, na verdade, nem é tão pequeno assim. Hoje, são mais de 560 mil os que lecionam Arte no país, mas a disciplina continua sendo colocada de escanteio na maior parte dos currículos escolares.

Com a valorização tão ínfima que o professor de Arte normalmente recebe, não é à toa que o mês de Novembro gere expectativas. É o momento de conhecer os projetos vencedores do Prêmio Arte na Escola Cidadã, o único que reconhece e divulga trabalhos exemplares desenvolvidos em Artes, sempre na Educação Básica.

Há 29 anos o Instituto Arte na Escola trabalha junto dos professores, para incentivar e fortalecer o ensino de Arte, tendo como um de seus carros-chefe o Prêmio Arte na Escola Cidadã, que hoje é o maior prêmio de arte-educação do país. Ao longo da sua história, o Prêmio manteve sempre uma vocação em afirmar que a Arte é transformadora. Que a Arte na Educação é uma ferramenta potente, ela forma pessoas que re-inventam o mundo. Os educadores que desenvolvem projetos de Arte em suas salas de aula criam transformações dia-a-dia. Mais do que serem celebrados, esses professores merecem ter suas práticas lançadas aos quatro ventos, para que sirvam de norte e contribuam com a luta diária de outros educadores.

Em 2017, o Prêmio Arte na Escola Cidadã chegou à sua 18ª edição. Todos os anos, o Prêmio Arte na Escola recebe centenas de inscrições e mapeia as práticas que estão sendo desenvolvidas Brasil afora, por professores de Arte. Em 2017, foram 726 inscritos, vindos das cinco regiões do país. Isso não é pouca coisa. É um conjunto grande de pessoas que querem partilhar o seu dia-a-dia na escola. Que semeiam inspiração porque demonstram que é possível. Não é simples, certo. Mas é possível trazer a vida para dentro da escola. A Arte, então, não é senão um canal que aproxima cada aluno das questões que rondam a sua vida e o mundo onde ele está inserido. Mas é um canal poderoso. Disse o artista Robert Filliou que “a Arte serve para que a vida seja mais interessante do que a Arte”.

Observando os cinco projetos vencedores nesta 18ª edição do Prêmio, não restam dúvidas de que todos têm ao menos um ponto em comum: trazem a vida para dentro das suas salas de aula. Ou mesmo para fora! Quando escolhem ocupar outros espaços da cidade e da escola, na trajetória que irão percorrer junto com os alunos.

Começando pela Educação Infantil, a professora Daniela Heckler, de Montenegro, no Rio Grande do Sul, fez um projeto de poesia com seus alunos que ainda nem sabiam ler e escrever. A turma panfletou poesia pelas ruas e ocupou a pracinha do bairro. O projeto mexeu tanto com a comunidade, que hoje a praça se chama Praça das Poesias.

No Ensino Fundamental, o professor Whebert Walace, de Palmeiras/BA, trouxe um tema aparentemente simples – a Casa. Aos poucos, os alunos foram aguçando o olhar frente à cidade e frente às próprias casas, com todos os afetos e símbolos que elas carregam. Também na Bahia, lá na Praia do Forte, a professora Leide Fausta explorou com os alunos uma manifestação popular bem conhecida no carnaval da região – as Caretas – relacionando com a arte urbana, uma linguagem que também é próxima dos estudantes.

O projeto premiado na categoria Ensino Médio foi desenvolvido pela professora Marília, do Macapá/AM. Espelhando questões contemporâneas corajosamente, ela escolheu a performance para trabalhar diversidade, liberdade e corpo com seus alunos. Na categoria EJA – Educação de Jovens e Adultos, quem levou o Prêmio foi o professor Rodrigo Neris, que percorreu com seus alunos um trajeto sobre a história de Campinas/SP, trazendo a consciência da participação dos negros na construção da cidade e promovendo o resgate de memórias apagadas.

No momento histórico em que vivemos, um Prêmio que valoriza as ações poéticas, as reflexões dentro da escola, ganha um valor de resistência e de transformação. É a afirmação de que outros cenários são possíveis. Justamente, a Arte tem o papel de problematizar as questões contemporâneas. A Arte cria um deslocamento que nos faz enxergar com outros olhos a nossa história e o nosso mundo. E os professores - os premiados e os não premiados - esses que querem dialogar pela Arte, são pivôs desse deslocamento.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Nenhum comentário foi encontrado para o conteúdo acima.

Deixe o seu comentário

Os campos assinalados com (*) são de preenchimento obrigatório.




Ainda nesta edição