Boletim Arte na Escola

Professora Daniela Heckler

Como pode um projeto de poesia, com alunos que ainda nem sabem ler e escrever? O projeto Poesia para colorir... o seu dia extrapolou os muros da escola e panfletou poesia pelas ruas, surpreendendo e emocionando a comunidade de Montenegro/RS.

O projeto nasceu como desdobramento de uma proposta maior, que partiu da própria direção da EMEF do Bairro São Paulo. Como disparador para fomentar o acesso e a leitura de poesias, a equipe diretiva da escola propôs que todas as turmas focassem na poesia durante o ano de 2016, a partir de um livro específico: Parque Di Versos, do escritor montenegrino Carlos Fernando Leser.

Confesso que no início me senti desafiada. Não me imaginava priorizando a poesia com uma turma de Educação Infantil, que ainda não era alfabetizada, durante um ano inteiro. Embora já gostasse de poesia e a utilizasse em sala de aula, a ideia me causava uma certa preocupação, tanto no que diz respeito ao repertório a ser trabalhado, como quanto à maneira de potencializar esta linguagem, pensando em um período tão longo.

Ao elaborar o projeto, tracei como principais objetivos tornar a poesia mais acessível para aquelas crianças, bem como para aquela comunidade que nos rodeava, e pretendi também valorizar o desenho infantil. Esse último enfoque se apresentou para mim como uma oportunidade, na medida em que eu ouvia, constantemente, de muitas crianças ainda pequenas: “eu não sei desenhar”, bem como observava o excesso de desenhos para colorir, de personagens ou moldes prontos. O projeto Poesia para colorir… o seu dia seria, então, uma chance para trabalhar o desenho livre com a turma, associando à poesia.

Da junção destes dois objetivos, surgiu a poesia ilustrada. Inicialmente, trabalhamos a poesia das mais diferentes maneiras: recitamos poesia, criamos juntos, observamos as nuvens como inspiração para criações poéticas, olhamos o mundo através de filtros com celofane colorido… Depois, escolhemos alguns destes poemas e as crianças faziam ilustrações para eles. Selecionava-se, então, uma ilustração para cada poesia, e esta era reproduzida em preto e branco junto com o texto. 

Passamos, em seguida, para uma etapa importantíssima do projeto: nós distribuíamos as poesias ilustradas pelas ruas do bairro São Paulo. Minha proposta inicial era que cada criança levasse duas poesias ilustradas consigo e entregasse para duas pessoas do seu convívio. Com a próxima poesia, ela faria o mesmo, mas sem poder repetir o destinatário. Foi então que por volta da terceira entrega, quando conversávamos em roda, uma criança sugeriu que fôssemos a uma rua movimentada, perto da escola, e entregássemos para os carros que ali passassem. A ideia da interferência no trânsito não me pareceu a ideal, mas comecei a pensar em outras opções de panfletagem. Lembrei-me que em algumas semanas teríamos a Feira do Livro na praça principal da cidade e poderíamos distribuir poesias para as pessoas que estivessem passando pela Feira, aos moldes da proposta do aluno. E assim o fizemos.

Um ponto interessante, que primeiramente mostrou-se como um empecilho, foi a construção do muro da escola na época em que estava acontecendo o projeto. No fim, a construção do muro foi fundamental para os melhores desdobramentos do projeto. Como o pátio da EMEF do Bairro São Paulo estava em obras, o espaço de recreação para as turmas era a pracinha do bairro, distante algumas quadras da escola. Foi então que, depois da panfletagem na praça central da cidade, as próprias crianças se engajaram e propuseram que, em nossas idas à pracinha do bairro, levássemos as poesias para distribuir e assim o fizemos durante todo o ano.

Neste período, trabalhamos inúmeras poesias, conhecemos outros autores e os desdobramentos eram os mais diversos possíveis, desde o estudo de cores e formas, resgate de brincadeiras antigas, visitas a exposições de arte. Com o passar dos meses, o projeto foi tomando um corpo que não estava previsto no início, a interação com a comunidade e a troca que as crianças tinham com aqueles moradores tornou-se parte fundamental do projeto. Quem recebia uma poesia era impactado e aquilo gerava uma reação positiva. 

Começamos então a pensar outras formas de distribuir poesias pelo bairro. Um aluno sugeriu colocarmos dentro das sacolinhas do supermercado, quando os compradores passavam no caixa. E lá fomos nós ao supermercado. Conseguimos também publicar nossa poesia no jornal da cidade.

Como este projeto se estendeu por todo o ano de 2016, eu buscava nos projetos menores uma abordagem que dialogasse com o projeto maior. Foi assim que, na semana em que trabalhamos a questão do trânsito em toda a escola, surgiu a ideia de criarmos placas. Fizemos juntos grandes placas com poesias, ilustradas pelos mesmos desenhos que os alunos haviam feito, para serem fixadas na praça do bairro.

Na medida em que o trabalho ia se desdobrando, a praça do bairro ia se tornando um espaço importante no projeto, pelas pessoas que encontrávamos e reencontrávamos semanalmente em nossos momentos de panfletagem, pelo que estes encontros nos proporcionavam, pelas placas fixadas com nossas poesias e cuidadas pelas crianças, que voltavam sempre com a expectativa de reencontrá-las. Um espaço que, a partir da ação destas crianças, tornou-se mais agradável para elas e para os demais moradores.

O envolvimento das crianças foi significativo e crescente, na medida em que estas se percebiam como responsáveis por “espalhar poesia pelo mundo” (como eles mesmos diziam) e também pela voz que lhes foi dada no decorrer do projeto. Os alunos estavam à vontade para fazer sugestões, propor redirecionamentos e aprimorar o projeto.

Estas crianças tornaram-se poetas. Já pelo meio do projeto, elas ensaiavam suas próprias rimas. Ainda que não soubessem escrever, elas criavam verbalmente e nestas criações faziam uso do repertório até então oferecido, o que foi para mim uma linda surpresa. Como observou uma poeta que os conheceu nesta etapa, “escreviam porque muito haviam lido”, mesmo sem terem nenhuma das duas habilidades. Ainda não liam nem escreviam, mas sim, a esta altura já éramos todos poetas!

Durante todo o ano, estabeleceu-se uma relação de proximidade com o poeta referência - Carlos Fernando Leser - que, desde o primeiro encontro com a turma, se mostrou receptivo, afetivo e parceiro. Semanalmente, mandávamos algum tipo de recado ou pergunta a ele, que respondia prontamente. No final do ano, as crianças já lhe mandavam suas próprias poesias inventadas, invertendo os papéis. E, assim, o poeta encerrou o projeto como um amigo, tão estimado e acessível quanto a sua poesia.

Destaco como um acerto deste projeto permitir que a poesia viajasse em folhas soltas tendo as crianças como seus condutores. O protagonismo dos alunos foi fundamental, eles redirecionaram positivamente a proposta inicial do projeto e, ao perceberem-se ouvidos, tornaram-se ainda mais animados e envolvidos. A direção da escola e o apoio em todas as ações da turma também foi um diferencial. A relação com a rua, com o bairro, que transcendeu os muros da escola, chegando até a comunidade e interagindo com ela, deu ao projeto uma dimensão muito mais profunda e potente. E no caso da praça, viu-se nascer uma identificação com este espaço público, uma apropriação, uma ressignificação.

Hoje a praça do bairro mantém placas com poesias. Recentemente, um projeto aprovado na Câmara dos Vereadores fez com que a praça fosse nomeada Praça das Poesias. Há também um grupo - os Amigos da Praça das Poesias - que promove encontros no local e busca, de diferentes maneiras, que a poesia não se perca desta praça. Tanto a escola como o bairro contam agora com 24 novos poetas cheios de entusiasmo. Crianças que se desenvolveram em diferentes aspectos e melhoraram não só a si, como os espaços ao seu redor. Promoveram não só o acesso a poesia, como o contato, a atenção, ofereceram um bom dia seguido de poesia. Levaram vida e cor a este bairro que, como tantos outros, tendia a ser preto e branco.

Para mim, como professora, presente em todas as etapas do projeto e ciente de todas as suas investidas, senti-me extremamente lisonjeada de testemunhar a beleza das nossas pequenas-grandes ações. Beleza esta, presente tanto nas entregas de poesia, na interação estabelecida, como nas primeiras iniciativas das crianças como poetas cheios de alegria, orgulho e repertório. Ver que a poesia ocupou nossa sala, nossas ruas, nossa praça. Estou certa de que a cor que nos dispusemos a espalhar voltou refletida ainda mais vibrante e bela. Ao final do projeto, a poesia se mostrou não como um fim, mas um meio, promotor de encantamento e transformação.

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