Boletim Arte na Escola

Professor Rodrigo Neris

Opto por começar esse texto com uma confissão. Imagino que assim como eu, você também já tenha ouvido recomendações sobre a importância de nós, professores de Arte, registrarmos e refletirmos sobre nossa prática a partir de nossos registros. Pois bem, não sei quanto a você, mas a cada vez que isso se dava, eu pensava: “com qual tempo, em meio a tantas aulas e afazeres? ”

Felizmente, a descoberta da resposta para essa pergunta vem sendo possibilitada por minhas recentes experiências formativas e desdobramentos de meu trabalho como professor de Arte. Dentre eles destaco a produção de relatos para a participação no Prêmio Arte na Escola Cidadã, no qual o projeto Migrações, Memória e Pertencimento foi vencedor em 2017, na categoria EJA.

Afirmo com segurança que a produção de registros sobre nossas práticas é possível e cabe perfeitamente dentro da rotina. Trata-se da aquisição de um novo hábito; e há, de fato, um potencial [trans]formador de nossa docência nesse processo de reflexão, que se inicia na elaboração do registro e prossegue a cada revisita. Neste texto, partilho as reflexões resultantes da revisita que fiz ao projeto Migrações, Memória e Pertencimento.

O projeto aconteceu no CEMEFEJA Pierre Bonhomme, em Campinas/SP. A escola de EJA atende adolescentes, jovens, adultos, idosos e pessoas com necessidades especiais nas diferentes faixas etárias, em grande parte habitantes dos bairros periféricos da cidade. Essa forte heterogeneidade das turmas é também marcada pela presença de estudantes negros e de migrantes provenientes das várias regiões do país.

Sensibilizado e provocado pela constatação da forma como se manifesta o racismo em nosso país, fui reconhecendo a importância de incorporar em minhas aulas projetos que valorizem a relevância das culturas e da arte africana e afro-brasileira, que constituem uma das três matrizes fundantes de nossa cultura, silenciada pelo processo de colonização e de educação eurocêntricos, que ainda imperam na cultura brasileira e em nossas escolas.

A temática promoveu um impacto positivo entre os estudantes negros, e, impulsionado por minha participação no curso O desenvolvimento de pesquisa com alunos do ensino fundamental, junto do professor de História, José Antonio Borghi, nasce o projeto Migrações, memórias e pertencimento.

O projeto buscou investigar com os estudantes a contribuição das culturas afro-brasileiras que marcaram a formação e o desenvolvimento da cidade de Campinas, resgatando, valorizando e dando visibilidade às marcas simbólicas e aos locais representativos da cultura afro-brasileira na cidade. A história da cidade foi, então, aprendida em integração com as histórias dos estudantes; provocando investigações sobre a imagem do negro e sobre a imagem de cada um, estimulando o sentimento de pertencimento à cidade entre os estudantes.

Iniciamos o projeto por meio de conversas para mapear os conhecimentos dos estudantes sobre pesquisa, sobre arte, culturas africanas e afro-brasileiras e sobre a presença destes elementos em Campinas. Eram temáticas desconhecidas pelos alunos, o olhar era distanciado e de estranhamento, pautado no senso comum. Passei a apresentar episódios da série A cor da cultura – Mojubá feita pelo Canal Futura e disponível no Youtube.

Paralelamente, fui também apresentando aos estudantes alguns conceitos e marcos da história da fotografia. Iniciamos um processo de leitura de fotografias de Sebastião Salgado, para discutir elementos como enquadramento, a orientação da foto, o distanciamento e a altura da câmera em relação ao objeto fotografado.

Em diálogo com a proposta de aprofundamento sobre a cultura africana e afro-brasileira em Campinas, eu e o professor de História iniciamos uma série de estudos do meio, com a caminhada exploratória por alguns pontos do Roteiro Afro produzido pela Secretaria Municipal de Cultura de Campinas. Nossas paradas foram: Estação Cultura (ferroviária), Rua 13 de Maio, Catedral Metropolitana de Campinas, Largo do Rosário, Beco do Inferno (travessa São Vicente de Paula), Praça e Igreja São Benedito e Escultura à Mãe Preta.

A partir das conversas na caminhada pelo Roteiro Afro, foi possível constatar que aquele percurso valorizava locais onde a presença do negro ainda acontecia na condição de escravo, ao invés de locais em que a cultura negra atualmente se manifesta. As primeiras reflexões sobre o Roteiro, desenvolvidas nas aulas de História, foram as referências para investigarmos as produções culturais que aconteceram naqueles espaços, durante os séculos XIX e início do XX.

Penso que a ênfase dos currículos escolares na escravidão, como opção para o atendimento a Lei 10639/2003 - que tornou obrigatório o ensino da história e das culturas africanas e afro-brasileiras - contribui para a valorização desse aspecto negativo (que também precisa ser estudado e problematizado) em detrimento dos mais de 5 mil anos da história e das culturas africanas. Por esse motivo, e pelo objetivo da lei que visa apresentar e promover a relevância dessa matriz da cultura brasileira, entendo que mais do que falar da escravidão, devemos falar da África milenar.

Dispostos a conhecer outros espaços indicados pelo Roteiro Afro, decidimos visitar o Instituto Cultural Babá Toloji, pela qualidade e diversidade do acervo em exposição, quase 3,5 mil peças originárias de várias culturas e povos africanos – é o espaço de presença da arte e cultura africanas em Campinas. O Sr. Babá Toloji, dono do acervo e responsável pelo espaço, nos acompanhou durante a visita, apresentando histórias e explicações sobre as peças e seus povos e respondendo às perguntas dos estudantes.

Ao retornarmos para a escola, tivemos uma partilha de impressões, essa conversa possibilitou retomar descobertas anteriores integrando os estudos de meios e os conhecimentos construídos em sala de aula. Ao final daquela aula, estava surpreso com a receptividade e compreensão dos estudantes.

Nas socializações sobre o desenvolvimento do projeto, nas reuniões pedagógicas da escola e nas conversas com o outro professor participante do projeto, ficava cada vez mais evidente que, especialmente os estudantes negros começaram a valorizar o percurso de estudo, dizendo que desconheciam todas as questões e descobertas realizadas, e que gostavam de descobrir a história e cultura de seu povo.

A qualidade da participação e interesse dos estudantes aumentava a cada dia. Os estudantes passaram a partilhar suas descobertas com a família. Uma estudante negra, em especial, contou que nos encontros dominicais de sua família, suas descobertas no projeto passaram a ser objeto de interesse de todos. Paralelamente, as narrativas de situações de discriminação, preconceito e exclusão vividos pelos alunos problematizavam a temática, contextualizando as histórias das pessoas na relação com a história da cidade.

Para a finalizar o processo de pesquisa na aula de Arte, articulei as experiências com a fotografia ao longo do projeto. Perguntei aos estudantes como poderíamos apresentar o resultado de nossas pesquisas por meio de uma criação fotográfica. Dentre as possibilidades pensadas, decidimos fazer retratos, valorizando os estudantes negros de nossa escola. Cada estudante negro (ou que se identificasse com a cultura) poderia ser fotografado, bem como os pesquisadores das turmas inseridas no projeto poderiam convidar estudantes de outras turmas para posarem para o ensaio fotográfico. Houve grande mobilização dos estudantes para a produção das fotos.

Nessa movimentação, parte da discussão que se desenvolvia em nossa pesquisa alcançou as demais turmas e as reações à proposta de fotografarmos os estudantes negros, ou que se identificassem com a cultura, mobilizaram outras conversas pela escola.

Penso que as fotos falam por si. A realização, a elevação da autoestima e a expressão dos estudantes de EJA encontraram nesse projeto a oportunidade de (re)encontro consigo e de (re)construção de sua identidade, por meio de um intenso e altamente mobilizador processo de investigação. Vivi e me encantei com os desdobramentos que o trabalho promoveu entre os estudantes, especialmente no sentido da descoberta, desmistificação e desenvolvimento da empatia e sentimento de pertença.

Há um amplo território a ser explorado no que se refere às culturas africanas e afro-brasileiras, e mais de trezentos anos de destruição da imagem da história, culturas e povos africanos e afro-brasileiros a ser desconstruída e ressignificada. Seguirei explorando e investigando outras possibilidades, afinal racismo e discriminação se combatem com conhecimento e a educação tem como dever essencial a promoção do ser humano, todos eles.

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