Boletim Arte na Escola

Professor Whebert Walace

O projeto Era uma Casa foi desenvolvido na Escola Municipal Manoel Afonso, localizada na cidade de Palmeiras, Chapada Diamantina, Bahia. A partir de um tema aparentemente simples – a Casa – o projeto partiu da história de cada aluno, para incentivar a construção de diferentes olhares para a cidade e o Patrimônio Arquitetônico de Palmeiras.

O projeto, que foi um dos vencedores do XVIII Prêmio Arte na Escola Cidadã, teve duração de nove meses e foi realizado com quatro turmas de 4º Ano, que tinham uma hora de aula por semana. É interessante frisar que a escola fica no centro da cidade. E trata-se de um Centro Histórico, onde estão exemplares de casarões nos estilos eclético, vernacular, neo-gótico e arte déco, compondo assim o Patrimônio Arquitetônico de Palmeiras.

A motivação para a elaboração do projeto surgiu a partir de uma atividade de “desenho ditado”, na qual os alunos deveriam fazer um desenho de acordo com a seguinte descrição: Era uma linda manhã de sol, que iluminava a Rua dos Artistas, com casas coloridas, árvores grande, com folhas verdes e de frutas maduras. [...] Era a rua dos meus sonhos!

Ao observar o resultado da atividade, não pude fugir da constatação de que todos os alunos representaram a Casa da forma mais convencional: quadrado, triângulo, porta e janela. A partir daí, nasceu em mim a urgência de pensar atividades nas quais as crianças percebessem a variedade de formas, detalhes e possibilidades de criação que uma Casa oferece, no desenho e em outras linguagens.

O projeto procurou também incitar reflexões sobre o que significa a moradia em nossas vidas. Além da valorização do Patrimônio Arquitetônico da cidade de Palmeiras e a inspiração que o tema Casa traz para artistas de diferentes linguagens.

As paredes

Logo de início, a ideia era estimular a utilização de novas formas, outras possibilidades de criação no desenho de uma casa, fugindo dos padrões convencionais representados pelos alunos.

Procurei incentivar debates partindo de questionamentos como: “As casas de Palmeiras são todas iguais?”. Fizemos rodas de conversa sobre as diferenças e semelhanças nas fachadas das residências de Palmeiras e sobre os diferentes tipos de material: palha, madeira, tijolos, adobo, casas altas, casas baixas, várias janelas, um único andar, paredes coloridas etc.

Na etapa a estes debates, distribuí bloquinhos de madeira para que os alunos montassem uma casa e em seguida fizessem um desenho de observação da mesma. Nessa atividade, os alunos já logo perceberam as inúmeras possibilidades de criação na hora de desenhar uma casa.

Para ampliação do repertório visual da turma, foram apresentadas obras de alguns artistas, entre eles o pintor Alfredo Volpi e o arquiteto e ilustrador Federico Babina. A forma de dividir uma casa e organizar seus espaços foi um dos pontos que chamou a atenção da turma nesse momento de ampliação do repertório, talvez pela relação com questões culturais da região. A conexão afetiva que criamos com nossas casas também foi motivo de reflexões.

Pensando além da bidimensionalidade do desenho, foi realizada uma atividade com casinhas de papelão construídas por grupos de alunos, como exemplos de possibilidades para representação tridimensional.

As platibandas

A arquiteta Lígia Larcher, do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC, realizou um trabalho sobre os estilos arquitetônicos específicos de Palmeiras. Segundo Larcher, “as edificações são como livros que contam histórias”. Eu tentei passar essa ideia para os alunos, de que os materiais, as formas, as características que definem cada estilo arquitetônico ajudam a contar a história da cidade, que acolheu a casa de cada um deles.

O ensaio fotográfico Pinturas e Platibandas, da fotógrafa carioca Anna Mariani, serviu de inspiração para as aulas de fotografia, que tiveram como foco o enquadramento. O objetivo das experimentações com fotografia foi sensibilizar os olhares para a beleza e a valor do patrimônio arquitetônico de Palmeiras. Esse foi sempre o tema principal das saídas fotográficas.

Durante as aulas com fotografia, o enquadramento foi o recurso mais explorado e a área externa da escola foi utilizada para as experimentações. Um buraco recortado em um pedaço papel, em formato retangular, foi o instrumento utilizado pelos alunos para a prática de enquadramento.

As saídas fotográficas aconteceram no centro histórico da cidade, nas ruas e praças sugeridas pelos próprios alunos.

O telhado

A culminância do Projeto Era uma Casa aconteceu em novembro de 2016, na IV Exposição do Festival Candinho Portinari. Foi organizada uma exposição em um dos casarões mais bonitos de Palmeiras, em estilo eclético, conhecido como Casarão das Dez Janelas. A sugestão de fazer a exposição nesse espaço partiu de um aluno.

Perceber o olhar atento dos alunos aos detalhes dos casarões foi para mim uma grande transformação. Nas saídas fotográficas, depois de todo trabalho em sala de aula, era como se os alunos notassem de fato as construções históricas da cidade, com um olhar mais sensível e mais atento, ora procurando casas com platibanda, ora contemplando detalhes antes despercebidos.

A avaliação aconteceu de forma processual durante as saídas fotográficas, que eram momentos para a turma aplicar reflexões e conhecimentos compartilhados em sala. Quando retornávamos, fazíamos uma roda de conversa para que eles contassem suas observações e as conexões entre a teoria e a prática. O portfólio construído durante o projeto foi mais um instrumento avaliativo utilizado, com o qual foi possível acompanhar a evolução dos alunos.

A valorização do patrimônio de Palmeiras, uma cidade que luta pela preservação de sua cultura, foi sem dúvida o maior ganho para o município. No decorrer do projeto, houve a necessidade de trazer reflexões acerca de questões sociais, no que diz respeito à falta de moradia e sobre a importância de ter uma residência harmônica, como um lar que acolhe e protege a família.

Inicialmente, o projeto Era uma Casa tinha a simples preocupação de desconstruir a forma convencional de representação da casa. Mas me inquietava a forma como essa desconstrução aconteceria, se seria ou não espontânea. O projeto cresceu e tomou uma proporção que eu não esperava. Começou com o desenho, passou pela tridimensionalidade, recorte e colagem, filmes, fotografia, até compor umas das salas mais lindas da IV Exposição de Arte Candinho Portinari, num dos casarões mais significativos para a cidade.

Em 2017, consegui inserir a dança no projeto, a partir do espetáculo A Casa (1999), da dançarina e coreógrafa Deborah Colker. A partir do questionamento “O que fazemos em casa?” os alunos criaram gestos e movimentos baseados em suas ações cotidianas, como escovar os dentes, almoçar, estudar, jogar no celular e também trouxeram em suas vivências situações mais conflituosas, como brigar com o irmão, ficar de castigo e apanhar. Todos esses movimentos foram inseridos em uma coreografia, que foi apresentada na 5ª edição do Festival de Arte da escola.

O projeto Era uma Casa reforçou minha convicção de que os alunos são bem mais participativos nas atividades práticas e que a realização dessas atividades fora dos muros da escola tornam a aprendizagem mais significativa e contextualizada com a realidade vivida pelo grupo.

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