Boletim Arte na Escola

Professora Leide Fausta Gomes da Silva

O projeto Deslocamento de experiências artísticas e estéticas: da vida para a escola, da escola para a vida aconteceu na Bahia, mais especificamente na Praia do Forte. O cerne do trabalho era explorar com os alunos uma manifestação cultural popular bem conhecida na região – as Caretas – propondo experiências de interface com a arte urbana.

O projeto foi desenvolvido com uma turma do 8º ano do Ensino Fundamental II. Teve como intuito desenvolver propostas pedagógicas na perspectiva da arte contemporânea, que abarcassem tanto vivências cotidianas dos alunos, quanto manifestações culturais locais. Para a realização desse trabalho, elegemos como fio condutor as Caretas, bloco de tradição cultural da comunidade, que sai durante o carnaval. O tema partiu do interesse dos próprios alunos.

Em resumo, as estratégias metodológicas que conduziram o projeto foram: conversas iniciais, a fim de levantar os conhecimentos prévios da turma; nutrição visual, com leituras, interpretação e análise de imagens; contextualização histórica, sociocultural e/ou artística; ação criadora, com a produção de peças utilizando diferentes possibilidades em artes visuais; intervenção, com as interferências nos espaços e conversações quando compartilhamos impressões, pontos de vista e avaliamos a vivência como um todo.

Assim, o processo inteiro realizou-se por etapas. O trabalho teve a preocupação de abordar o campo da arte de uma forma expandida, o que nos possibilitou pensar novas maneiras de experimentar o ensino da arte, no sentido em que fomos abrindo novos espaços, tanto para executar as atividades práticas, quanto para envolver a cultura dos alunos e suas expressões pessoais.

As ações do projeto foram iniciadas com a sensibilização a partir de uma tempestade de ideias acerca do tema manifestações culturais. Logo de início, discuti com a turma quais seriam as ideias propositoras do nosso projeto, bem como as ações e práticas que iríamos experimentar. Uma das proposições foi entrevistar um dos Mestres Careteiros mais antigos da vila, para que pudéssemos conhecer a origem dessa manifestação. Posteriormente, fizemos um estudo de diferentes lugares que também têm a máscara como característica cultural marcante. Vimos imagens destas outras referências culturais e discutimos sobre as semelhanças e diferenças entre as máscaras dos diversos locais, no que se refere ao significado do seu uso; os elementos estilísticos e os materiais, suportes e ferramentas utilizados na construção.

A fim de que os alunos expressassem suas poéticas pessoais e repertório, apresentei obras na linguagem lambe-lambe, contextualizando-as com os conceitos da street art e intervenção urbana em espaços públicos e privados. Em seguida, partimos para a criação individual de um pôster, no qual estaria representada a máscara que cada um criou. Os pôsteres foram então transformados em lambe-lambes pelos alunos, como forma de interferência artística. Cada aluno escolheu o lugar da cidade onde queria afixar seu pôster-máscara.

Pensamos também sobre a temática arte e interação com o público, a partir de artistas como Ligia Pape, Hélio Oiticica e Lygia Clark. Com base na ideia do artista-propositor, foram produzidas máscaras utilizando como suporte o papelão. A ideia era, em seguida, fragmentar estas máscaras em três partes, tornando-as objetos manipuláveis, que possibilitassem uma mediação entre os alunos e o público circulante na cidade, tendo como mote da discussão a cultura local.

Em outra etapa, refletimos criticamente sobre as Caretas, pensando em conceitos que dão sentido à manifestação, e que podem ser considerados palavras-chave. Atentamos sempre para os saberes pesquisados, aprendidos na entrevista e vivenciados durante o processo. Foram criados estêncis com as palavras-chave e, em seguida, elaborado um painel coletivo com os estêncis-palavras, na mureta da Quadra Esportiva da comunidade. Ao final do projeto, fizemos uma intervenção na escola com uma exposição fotográfica de todo processo, englobando as práticas em sala de aula e as ações no espaço urbano.

Notei que os alunos permaneceram imersos no projeto. Aprendi que é fundamental a escola se conectar com o tempo e o espaço dos alunos. Tempo atual e espaço como ambiente, realidade em que estão inseridos. Aprendi a trabalhar assuntos pertinentes ao ensino da arte a partir dos conhecimentos e interesses dos alunos, trazendo a escola para o presente, onde a vida acontece. Aprendi também que é de grande importância o professor se colocar como propositor, como mediador de saberes e experiências, e aprendiz no processo e não como detentor e transmissor de conhecimentos.

Constatei que o processo criativo como um todo, inclusive as intervenções na rua, teve e tem grande potencial por propiciar vivências de atuação no mundo, colocando os alunos como sujeitos livres e reflexivos, podendo exercitarem sua autonomia e protagonismo.

Ao fim, os alunos ampliaram seu repertório inicial em relação às Caretas, o que os levou a valorizar ainda mais essa manifestação, a fortalecer a ideia de pertencimento coletivo e entender a relevância de preservação de tal cultura. Penso que este projeto contribuiu para que nós, comunidade escolar, percebêssemos que é possível e importante sair dos muros da escola e dialogar com a comunidade que a circunda.

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