Boletim Arte na Escola

Marília Navegante Pinheiro

O projeto Experimentações em Arte: a Performance como meio de autoinvestigação das identidades para além do corpo aconteceu na Escola Estadual Maria do Carmo Viana dos Anjos, no Macapá/AM. Tangenciando questões contemporâneas urgentes, o projeto usou a linguagem da performance para refletir com os alunos sobre diversidade e sobre modos de habitar o próprio corpo.

Minhas primeiras motivações para este trabalho foram as identidades cambiantes que se apresentavam no espaço escolar e o modo como atuavam. Em suma, eu observava os corpos dos estudantes, seja no seu modo de vestir, de falar, na cor da pele, estereótipos e etc., e notava que estas formas de se apresentar visualmente causavam certo desconforto. Os estudantes que não estavam dentro de um padrão pré-determinado eram facilmente excluídos e transformavam-se nos estranhos daquele ambiente.

Foi notando as variadas formas de exclusão e discriminação contra alguns grupos específicos, principalmente por meio de falas pejorativas, apelidos, xingamentos, que comecei a montar a primeira performance, apresentada por mim mesma. Chamada “Apedrejamento”, nesta performance eu problematizei as falas pejorativas, tão utilizadas por alguns estudantes, e lancei o debate sobre as discriminações, que eram muitas vezes justificadas como apenas “brincadeiras com os colegas” no ambiente escolar.

Organizando os trabalhos a partir da Performance

Depois de ter apresentado a performance “Apedrejamento” no refeitório da escola, passei a observar mais, e a exercitar uma escuta sensível com relação aos estudantes, abrir diálogos com alguns deles. Eu produzia, então, relatórios sobre essas interações e acerca de conflitos que estavam acontecendo na escola naquele período.

Após ter apreendido um pouco das reais motivações da discriminação, a qual resultava em conflitos entre alunos, fui procurada por alguns estudantes que tinham uma proposta de Performance sobre sexualidade e gênero. Eles me pediam que orientasse suas ideias. Foi então que este mesmo grupo deu início a algo maior: estava lançado o interesse pela Performance e pelas discussões de gênero, sexualidade e questões étnicas-raciais na escola.

Com a Performance ganhando espaço entre os estudantes, passei a direcionar os trabalhos sobre corpo e identidade para outros conteúdos em Arte. A preocupação era relacionar conteúdos da grade curricular com as situações trazidas pelos alunos, ou insurgidas no cotidiano escolar. Parti para a organização de outras intervenções no espaço da escola, as quais renderam trabalhos muito relevantes, ao mesmo tempo em que trouxeram censura e críticas de parte da comunidade escolar.

A não aceitação das temáticas de sexualidade, gênero e étnicas-raciais, não impediu que os estudantes se sentissem empoderados pela Performance. Assim, prosseguimos com os trabalhos, mesmo sofrendo sanções, como falas preconceituosas vindas de alguns docentes, funcionários e outros estudantes que não concordavam com os temas. Além de algumas vezes terem seus trabalhos arrancados de onde estavam expostos, e ainda, serem impedidos de apresentar em alguns ambientes abertos da escola.

Afetações na escola, nos estudantes e em mim...

Os estudantes não desistiram de se expressar. Mas é importante citar que alguns alunos preferiram se afastaram dos trabalhos em certos momentos.

Mesmo assim, o trabalho com Performance na escola aos poucos foi crescendo, mais estudantes foram entrando no projeto. As questões que envolvem o corpo, as identidades raciais, étnicas, de sexualidade e gênero, estiveram quase sempre em primeiro plano, levando em consideração que a Performance acabou construindo em cada estudante-performer a sua própria maneira de defini-la e executá-la.

Considero esta perspectiva de reflexão e produção de Performances como um ponto relevante e consistente, pois, (re)conhecer no próprio corpo sua morada e respeitá-la, bem como, conhecer a identidade do outro, o diferente, e respeitá-lo, vem se tornando um meio eficaz no combate ao preconceito e a discriminação no ambiente escolar, e nos mostra que a Arte não está separada da vida, nem a imita, mas sim, se envolve a ela.

Trabalhar o corpo na Performance tem sido desafiante, sem dúvida. Mas tem aberto caminhos para um outro olhar dos alunos sobre a Arte Contemporânea e suas linguagens, bem como, para discutir questões inerentes a qualquer ser humano.

Claramente, o ambiente escolar no qual o projeto foi e continua sendo desenvolvido mudou muito nos últimos anos. Os olhares para a Arte ficaram mais atentos, interessados; os alunos estão mais despertos para a relevância e espaço na sociedade que a educação em Arte tem; a Arte é agora reconhecida como um campo onde as identidades plurais podem ser reconhecidas e valorizadas.

Além disso, os estudantes começaram a atuar na escola de forma mais autônoma e autoral, denotando a partir de seu corpo uma atitude ativa e criativa. Isto se tornou cada vez mais visível, pois, grupos de estudantes se reúnem para montar ações performáticas, no intuito de problematizar coisas que lhes incomodam e compartilhar suas reflexões com o público escolar, sem pressão de notas como em um processo de avaliação regular.

Todas estas mudanças me afetaram também, como professora. Me vi imersa muitas vezes em um caminho difícil, pois uma das identidades provocadas e trabalhadas no projeto também era a minha. Então, como lidar com as nuances de uma problemática que partia também de mim mesma? Qual deveria ser a identidade correta e aceitável para uma professora de Arte?

Performando a ideia de ser professor/a performer para outros docentes

No meio disso tudo, veio a ideia de também trabalhar a Performance com os professores/as da escola, sobre os mesmos temas que eu vinha discutindo com os alunos. Fiz, então, uma oficina para professores, como uma das ações integrantes do projeto. Estava na hora de também conhecer o outro lado, o lado das identidades docentes.

A oficina envolveu onze professores/as das áreas de História, Filosofia, Língua Portuguesa, Literatura e Geografia. Estes professores/as hoje se mostram mais abertos e responsáveis com as questões debatidas e são ativos no combate ao preconceito e discriminação na escola.

A ideia lançada aos docentes foi a de que seus corpos comunicam. Mas o que? De que forma? E quais teriam sido as consequências de sua performance-docente até ali? Tais questionamentos serviram de base para construir um diálogo mais aberto e preocupado com a forma como nós professores/as performatizamos quando estamos na escola.

Discutimos nessa perspectiva tomando como base o termo “Professor-Performer”, utilizado pela Prof.ª Naira Ciotti, e ponderamos sobre como utilizamos nossos corpos docentes em nossa atuação cotidiana no espaço escolar. Passamos também a refletir sobre nosso protagonismo, nos percebendo como seres atuantes, que comunicam uma diversidade de possibilidades através de nossos corpos, para outros corpos que recebem as mensagens.

Compreendendo isto, nossa Performance-docente vem sendo trabalhada deste então e vem deixando marcas expressivas em trabalhos interdisciplinares, que agora vão para além das temáticas problematizadas inicialmente.

Por que fazer Performance na escola?

Por perceber que a Performance vem tomando espaços significativos na construção de saberes e experiências em Arte, ela me leva a pensar que talvez seja uma das linguagens contemporâneas mais ativistas, no sentido de – entre muitas possibilidades – nos levar à noção de que o corpo não só pode ser suporte para uma obra de arte, como pode ser a própria obra.

É no corpo, e a partir dele, que podemos construir uma consciência ativista de nós mesmos, dos outros, da vida. Uma consciência ativista consiste em perceber a si mesmo, suas limitações, contradições, acertos, erros e trabalhá-los, melhorá-los, expandi-los, compartilhá-los com um único intuito: transformar sua própria realidade, antes de desejar transformar outras.

Então, quais sentidos e significados da nossa Performance cotidiana têm sido compartilhados com os outros, os diferentes de nós?

É nesta perspectiva que o projeto Experimentações em Arte: a Performance como meio de autoinvestigação das identidades para além do corpo ainda se desenvolve. Seguimos – eu, os alunos, os docentes – traçando outros contatos, aprendizados, modos de refletir e de produzir individual e coletivamente.

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