Boletim Arte na Escola

Arte como forma de pensar

(...) os professores devem lutar contra os obstáculos que lhes impõe o sistema escolar. Supõe-se que é mais importante saber ler e escrever do que fazer arte. É hora de convencer as autoridades de que essa percepção é antiquada. A arte é uma forma de conhecer, de especular, de propor e de resolver problemas. Ainda que escrever e ler sejam exemplos de codificar e decodificar, a arte também é uma forma de criar códigos. Portanto, ler e escrever deveria aparecer como uma subcategoria artística.

Luis Camnitzer

Nos últimos anos vivemos um acirramento dos debates políticos no Brasil e, não é de todo surpreendente que essa disputa tenha encontrado na Arte e na educação campos particularmente estratégicos. Por um lado, questiona-se os limites morais da Arte e de seus espaços institucionais; por outro, questiona-se a elaboração das diretrizes curriculares do ensino formal, a influência de referências pedagógicas e as próprias práticas e abordagens de docentes. A Arte passa a ser acusada de ser hostil a determinados valores morais estruturantes da sociedade e a educação de ser ideologicamente comprometida com um projeto “doutrinário”. Em meio a esses discursos, revela-se o papel estruturante da Arte e da educação e se estabelece um contexto particularmente oportuno para determo-nos brevemente sobre algumas das reflexões de Luis Camnitzer.

O artista e educador Luis Camnitzer nasceu na Alemanha em 1937, foi criado no Uruguai e, desde 1964, reside em Nova York, onde lecionou em diversas instituições de ensino e firmou-se como uma importante referência da arte contemporânea latino-americana. Camnitzer propõe que Arte e educação seriam, acima de tudo, gestos políticos inseparáveis das dinâmicas de poder nas sociedades nas quais elas estão inseridas. Essa cumplicidade não se restringiria apenas aos processos poéticos e educativos, mas também às similaridades em suas institucionalizações burocráticas, disciplinares e mercadológicas. Para ele, uma prática educativa emancipatória deveria não apenas contemplar o ensino de Arte, mas, constituir-se, ela mesma, como uma prática artística.

É preciso, aqui, compreender que Camnitzer propõe a Arte como um caminho específico de expansão do conhecimento, por isso sua relevância nos currículos da Educação Básica. A Arte abarca modos particulares de compreensão e ação no mundo que, como a lógica, por exemplo, não estaria restrita a um campo disciplinar específico, podendo, de fato, fazer conexões com diversas áreas do saber. Uma prática educativa artística implicaria em uma pedagogia que lança mão da especulação, da imaginação, da visão crítica e questionadora das convenções sociais. Essa prática não poderia, portanto, estar comprometida com o acúmulo e apresentação de informações, mas em nutrir espaços para a poética e fantasia frente ao desconhecido.

Para o educador, é preciso compreender a Arte para além da fatura e apreciação de objetos artísticos: a Arte como um meio de formular e estruturar o pensamento. Aqui, a compreensão do indissociável vínculo entre Arte e educação contribuiria para práticas educativas emancipatórias, que almejam a formação de sujeitos capazes de questionar o senso comum e de propor, de forma inventiva e criativa, novos conhecimentos não apenas para sua própria realização pessoal, mas para o benefício coletivo.

Em modelos mais antiquados, a educação para as Artes estaria restrita ao projeto de formar massas de apreciadores e poucos produtores, na noção de que a Arte deveria ser acessível a todos, mas sua prática permaneceria restrita a poucos. De modo análogo, a ambição de erradicação do analfabetismo, tão cara ao projeto escolar, almejava o acesso às habilidades de ler e escrever, mas, não se detinha no questionamento do que se ler e o que se escrever, para que se ler ou para que se escrever; em outras palavras, quais seriam nossas expectativas em relação a essas habilidades?

O pensamento de Camnitzer, ao atestar que a Arte é um campo do conhecimento em si, propõe a conciliação das habilidades ensinadas com as possibilidades do autoconhecimento e de novas percepções do mundo. Nesse sentido, Camnitzer destaca que o ensino deve encorajar uma consciência individual e social, a capacidade de decodificar uma situação do coletivo. Isso implica em não estipular diretrizes morais de forma autoritária, mas em promover o esclarecimento ético da subjetividade como um fenômeno social.

Camnitzer propõe que o pensamento artístico, para além de uma suposta gratificação pessoal, implica em uma postura intrinsicamente questionadora dos sistemas de ordenação estabelecidos, uma vez que propõe ordens alternativas. O pensamento artístico convidaria ao desconhecido, ao jogo especulativo que faz conexões e relações contestadoras do conhecimento disciplinar. Arte e educação estariam, então, comprometidas com o pensamento crítico potencialmente subversivo, ou, antes, na qualidade subversiva inerente ao pensamento crítico.

A Arte, como uma forma de pensar, e não como um meio produtivo, não se restringe a um conjunto de faculdades pessoais. Todos podem engajar-se no pensamento artístico, e o professor que lança mão dele em sua prática abdica de seu suposto monopólio do conhecimento, incentivando a criatividade e a imaginação. Supõe-se que um professor é uma autoridade na matéria ou conteúdo que leciona e, no entanto, ao subverter essas expectativas, o professor reconhece e compreende os limites de seu conhecimento, convidando o estudante a especular e, juntos, transcenderem esses limites. Isso exige um grande poder de escuta e a capacidade de adaptar-se frente a essa escuta. Essa prática estará sempre assediada pela imprevisibilidade, o que representa o risco constante da atividade subversiva (o que é desafiador para as instituições e poderes estabelecidos e, simultaneamente, representa a base da expansão do conhecimento, conforme o pensamento de Camnitzer).

Se o educador é capaz de estimular o estudante a ativamente buscar o conhecimento, ele o encoraja a ser autônomo em seu processo de aprendizado. É por isso que Camnitzer sugere que evitemos empregar a palavra “ensinar”, priorizando, quando possível, a palavra “aprender”. O professor e o estudante aprendem juntos e compartilham as dificuldades e os benefícios deste processo. Essa prática subverte as noções autoritárias associadas à Arte e à educação como processos de consumo passivo de informações. De fato, esses campos de disputa são espaços privilegiados para a transformação social e, portanto, implicam em gestos artísticos e educativos que se complementam e se potencializam.

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  • ana helena grimaldi, 18:32 - 23/07/2019
    muito oportuno! ideias imprescindíveis! vou compartilhar com tod@s na escola. obrigada abaços, Ana Helena

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