Boletim Arte na Escola

Visitas culturais como extensão da sala de aula

O que pode surgir de uma aula que acontece fora do espaço escolar? Fazer com que uma visita cultural reverbere em sala, fazendo conexões com o currículo de Arte, nem sempre é tarefa fácil. Mas uma expedição com os alunos – seja para uma mostra de arte ou nos entornos da escola – certamente ganha corpo e significado quando diaolga com os temas trabalhados nas aulas.

Uma visita significativa é aquela não começa e nem se encerra no espaço cultural. São várias as etapas, que já partem do planejamento: pensando no currículo de Arte, por que escolher uma exposição em detrimento de outra? Visita cultural precisa ser só no museu?

Tanto antes quanto depois da saída, professores e alunos precisam estar afinados sobre os conteúdos que vêm trabalhando, para que o percurso da aula externa vá muito além de um “passeio”, para que seja um prolongamento da sala de aula.

Conhecer a estrutura do espaço a ser visitado, estabelecer conexões com outras disciplinas e apresentar repertório aos alunos são algumas das estratégias de preparação da educadora Ana Helena Grimaldi. Professora de Artes Visuais no Ensino Fundamental II da Escola Comunitária de Campinas, Ana Helena costuma levar seus alunos à instituições culturais pelo menos uma vez ao ano. Com destaque para a Bienal de Artes de São Paulo, na qual já trabalhou como educadora, e onde marca presença com os alunos em todas as edições.

Para ela, a saída é um dos pontos altos do período letivo. “É o dia mais feliz do ano, quando consigo levar meus alunos para uma visita. Para quem trabalha com Artes, por mais que tenhamos os materiais educativos mais completos, a experiência de estar frente a uma obra de arte é insubstituível.”

Trabalhar o currículo com uma abordagem de projetos é sempre um terreno fértil e Ana Helena ressalta a importância da parceria com outros professores. Há um projeto na Escola Comunitária com o tema Construção e Reconstrução da América Latina, que envolve as aulas de Geografia, Artes Visuais, Fotografia, Espanhol e História. Nesse projeto, a professora foca o conteúdo em artistas latino-americanos, contemporâneos, que levantam questões sociais e políticas. Sempre se articulando com os colegas para que o engajamento, na hora da escolha do local a ser visitado, seja maior e possa também inspirar os alunos.

A professora enfatiza que a arte contemporânea tem conexões com muitas áreas do conhecimento, pois “os artistas não necessariamente falam sobre arte em suas obras, eles falam de coisas do mundo. E falando de coisas do mundo, existem milhares de assuntos que estão conectados”. Exposições maiores, como a Bienal, facilitam a integração com o currículo de Arte - e de outras disciplinas - pela diversidade de produções, obras e temas, acrescenta a professora.

Com os alunos, a preparação começa em sala, nas aulas que precedem a visita: “Preparo um panorama de qual é o tema, quem é o curador e quais os principais artistas. Nesse dia, geralmente, convido um dos professores parceiros para me acompanhar”. Para Ana Helena, essa etapa ajuda a estimular a curiosidade dos alunos e levantar questionamentos, mas ela pondera que não se pode atravessar a experiência dos alunos. “As informações passadas não podem ser excessivas, senão há o risco de esvaziar o espanto que queremos causar neles”.

Escutar os alunos e conhecer suas trajetórias é a estratégia da professora Ana Paula de Lima, de São Francisco do Itabapoana/RJ, na hora de articular as visitas culturais com o currículo de Arte. Participante do Polo Arte na Escola na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), a professora desenvolve o projeto Poéticas do meu lugar: o ensino de Arte na construção da noção de pertencimento, com alunos do 2° ano do Ensino Médio.

O disparador do projeto foi o mangue, presente diariamente na vida dos estudantes de Ana Paula. “Os alunos reclamavam muito que não tinham nada pra fazer na cidade. Então, questionei o que eles gostavam aqui e eles me trouxeram a questão da exuberância da paisagem”. O local abriga o segundo maior mangue do Estado do Rio de Janeiro.

Projeto Poéticas do meu lugar: o ensino de Arte na construção da noção de pertencimento

Visitar o manguezal se tornou parte rotineira das aulas. A observação, a colheita de materiais e as experimentações com lama foram ponto de partida para as propostas que se estenderam durante todo o ano letivo. Em sala, a professora conectou as atividades externas com referências à arte contemporânea. “Conversamos muito sobre artistas que tratam da questão ambiental, como Vick Muniz e Frans Krajcberg, por exemplo. Também fizemos atividades com a lama do mangue e pudemos falar sobre o uso dos diferentes materiais na arte”.

Repensar os processos de produção, a poética dos materiais e sua relação com a natureza, foram alguns dos pontos trabalhado pela professora em sala. Ela conta que a cada saída, a aula posterior tratava de refletir sobre as escolhas dos alunos.

Como forma de envolvê-los, ela pediu que os estudantes trouxessem obras que poderiam ser usadas como referências para as atividades externas, além de imagens de locais históricos da cidade que poderiam ser visitados, sempre justificando suas escolhas. A partir daí, o grupo fez duas outras expedições: exploraram uma antiga fazenda, local que abriga um museu, e conheceram as instalações de uma das primeiras fábricas de farinha de trigo da região. “Eles recolheram imagens antigas do local, e também de outros pontos da cidade, para refletir sobre as mudanças no espaço. Na aula anterior à saída, falamos sobre patrimônio histórico, discutimos o que é memória, lugar e pertencimento”. O ano letivo se encerrou com a exposição O mangue e eu, organizada pela turma.

Projeto Poéticas do meu lugar: o ensino de Arte na construção da noção de pertencimento

Assim como Ana Paula, a professora Ana Helena Grimaldi também ressalta a importância da escuta e da valorização da cidade. Em aula, ela apresenta aos alunos do nono ano artistas que fazem intervenções urbanas, trabalham temas como mobilidade, questões sociais e memória. A partir disso, a turma passa a explorar a cidade de Campinas, e a própria escola, como espaços de investigação. “Vamos às ruas uma vez ao ano e sempre fazemos intervenções diferentes. A última foi Um doce por uma memória, em que oferecemos um doce para os passantes da cidade e eles nos contavam uma memória que tinham naquele local. Depois, fizemos o mesmo dentro da escola, com outros alunos e funcionários”.

Deixar o olhar livre para observar e investigar é uma das maneiras de enriquecer uma visita cultural, garante Carlos Barmak, coordenador do núcleo educativo do Museu da Casa Brasileira (MCB), em São Paulo/SP. “Aqui no museu, o objetivo não é prender a atenção do aluno, mas sim fazer com que ele solte o olhar, questione e investigue por si só”. Para isso, Barmak destaca que os educadores do MCB mantém uma distância dos estudantes, assumindo uma postura muito mais propositiva do que explicativa.

Na recepção das escolas, Barmak explica que o espaço mantém canais de comunicação abertos e oferece ao professor uma cartografia do museu, para que os docentes possam planejar a visita e os possíveis percursos educativos, de acordo com os conteúdos que queiram abordar. O espaço mantém uma parceria com a Escola Municipal de Educação Infantil Dona Leopoldina, também na capital paulista. O projeto Escola e Museu – uma experiência possível e necessária, busca estreitar a relação entre escola e museu a partir de visitas quinzenais, incentivando trocas constantes entre professores, alunos e educadores do museu.

Como sugestão para que uma saída possa reverberar por mais tempo, Barmak aconselha que os professores tentem uma aproximação com a instituição, mesmo após o final da visita. “Uma outra possibilidade, é convidar o educador do espaço para ir até a escola, como maneira de estender a repercussão da experiência.”

Ainda no ônibus de volta para casa, Ana Helena conta que costuma estimular a reflexão sobre os acontecimentos da visita. “Costumo fazer uma conversa com eles e propor palavras, para que se coloquem a respeito do que viram”. Sua principal inquietação é evitar expressões como “gostei”, “não gostei”, “é bonito” e “não é bonito”, que podem categorizar a obra e não refletir sobre ela. Trocando por perguntas que façam os alunos se posicionarem sobre “uma surpresa”, “um espanto”, “um incômodo” e algo “para não esquecer” que viram no local, seja um museu ou outro espaço na cidade. Por fim, ela enfatiza que “uma boa visita não acaba na volta para casa, assim com uma boa exposição não acaba quando é desmontada”.

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