Boletim Arte na Escola

Já imaginou uma escola em que aulas de marcenaria, pintura, capoeira e música fazem parte do dia-a-dia dos alunos? Assim acontece na Escola Ateliê Acaia, mantida pelo instituto de mesmo nome. Semanalmente, seus 140 alunos têm cinco horas de práticas artísticas, divididas entre o período de aula regular e o tempo destinado às práticas de ateliê livre. As turmas vão da Educação Infantil ao sexto ano - as demais séries do Ensino Fundamental II serão abertas conforme a progressão dos estudantes matriculados.

Na escola, é possível observar o trabalho dos alunos por todos os lados. As paredes estão repletas de murais, desenhos, gravuras, cartazes e fotos. O ateliê é dividido em linguagens artísticas - marcenaria, tipografia, desenho e gravura são algumas delas. Toda atividade dos alunos é supervisionada e cada área possui um professor responsável, especialista na linguagem que orienta. Ao entrar no espaço, é possível ver a agitação e a curiosidade das crianças que se aproximam da professora de Arte, Ynaiá Barros, com mil questionamentos. As perguntas se multiplicam, assim como o interesse das crianças em terminar seus projetos: uma casa em miniatura, um smartphone de madeira, carrinhos, desenhos em cartolinas e até pintura nas paredes fazem parte das práticas.

Ynaiá leciona na escola-ateliê há dez anos e explica que o espaço não começou como uma escola regular. O projeto foi idealizado pela artista Elisa Bracher - hoje uma das diretoras do Instituto Acaia, que após observar um grupo de capoeira formado por jovens das comunidades próximas, na zona oeste da cidade de São Paulo/SP, a artista buscou uma forma de se aproximar das famílias do local. A maneira que Elisa encontrou de estreitar laços com a comunidade foi a partir de oficinas de arte, abertas diariamente para receber crianças e seus responsáveis. Com o passar dos anos, o número de oficinas aumentou e o espaço passou a receber as crianças no contra turno escolar e os adultos no período noturno, com oficinas de bordado, capoeira, música, desenho, entre outras.

Desenvolver a observação do outro e de si, a escuta e a percepção do seu próprio ritmo de trabalho fazem parte das habilidades que a escola busca desenvolver nas crianças, explica Ynaiá. “Por isso, se tornou muito importante transformar o Acaia em uma escola regular de tempo integral, para que as crianças realmente pudessem desenvolver o que a gente vinha trabalhando, organizar seu tempo e construir uma relação duradoura com a escola ” completa a educadora. A partir disso, foi feito o contato com a Secretaria de Educação do Município, e as adequações no espaço, para que o Acaia pudesse atuar na Educação Básica.

Durante as aulas, a prática em ateliê e as disciplinas convencionais formam um conjunto que contribui para que o aluno possa ser protagonista de boa parte de seu aprendizado, conta a professora. “No ateliê são elas [as crianças] que decidem o que querem fazer. Nós fazemos um trabalho muito apurado de pensar em como alimentar os desejos e as motivações dessas crianças, mas elas têm autonomia para escolher as linguagens que querem trabalhar”.

A educadora ressalta a importância do ateliê como lugar de construção simbólica, em que as crianças podem experimentar, desenhar, projetar os símbolos, se ver em seus desenhos, e esse espaço permite que ela compartilhe isso com os colegas de outras turmas. “É um lugar de ser criança de fato, de aprender brincando, e isso é importante para a formação humana”. Outro ponto que a professora destaca é que o atendimento às dúvidas dos alunos é feito de forma individualizada, tanto no ateliê quanto fora dele, o que se torna possível pelo número reduzido de crianças por turmas - cada sala tem aproximadamente 20 alunos. “Se por um lado essa é uma possibilidade, por outro é uma necessidade. Para desenvolver essa construção simbólica, a criança precisa ser vista individualmente”, pondera Ynaiá.

A docente chama atenção para o fato de que ter um espaço dedicado ao fazer, a realizar ideias e transformar coisas em seu estado bruto, ajuda a transmitir essa imagem de conexão e de construção de sentido nas referências que precisam ser passadas em sala. “Vejo como um dos maiores desafios do currículo de Arte, construir essas relações, com as referências formais, de modo que elas façam sentido para as crianças, e que não se tornem apenas um apêndice de conteúdo”.

“O ateliê é o lugar em que você conhece pela experiência” e, segundo Ynaiá, esse é o diferencial do Acaia. Isso porque, nas aulas convencionais de Arte, o professor adapta o espaço para trabalhar as linguagens da arte, o que no ateliê não é necessário. “Num espaço escolar você tem que criar muitos artifícios para conseguir introduzir questões que são fundamentais para o currículo de Arte. Como, por exemplo, a produção de repertório de linguagens. Se você tem um espaço montado para estes trabalhos o tempo todo, onde as pessoas estão produzindo, você traz a criança para prestar atenção sobre esse fazer artístico”.

A criança, ao ver o processo de produção daquela linguagem, pode investigar e assimilar características que são específicas daquela expressão. “Esse trabalho, nas escolas convencionais, se torna um grande desafio, tanto pela falta de tempo dedicado às aulas de Arte, que geralmente é de uma hora por semana, quanto pela escassez de materiais”. Além disso, a professora conta que o contato com outros materiais contribui para a construção de pontes entre as demais disciplinas de forma natural. Uma vez que os materiais usados na Arte se relacionam com currículos de outras matérias, como as Ciências da Natureza e a Geografia, por exemplo.

Além da escola, o instituto também mantém ações nas comunidades próximas - nos barracos-escola - que promovem aulas de culinária, bordado, saraus, oficina de leitura, entre outros. Há também o Centro de Estudar Acaia Sagarana, um cursinho preparatório para o vestibular destinado a estudantes de escola pública, localizado na escola-ateliê. E o Acaia Pantanal, espaço que promove atividades socioeducativas voltadas à população da região do Pantanal mato-grossense.

Mas o trabalho do Acaia como escola regular é recente. 2019 é o terceiro ano em que a escola atua como instituição de ensino regularizada. Ynaiá explica que o impacto da Arte na aprendizagem das crianças ainda está em fase de pesquisa, mas que suas percepções até o momento são muito boas. “Vejo que, depois de um tempo na rotina da sala de aula, as crianças precisam estabelecer uma relação com outras linguagens para elaborar o conhecimento anterior, ou para se concentrar melhor. Percebo sinais de que uma coisa é determinante para a outra”. E completa dizendo que a relação das crianças com o ateliê é muito próxima, o que as aproxima da escola e cria uma relação afetiva com o espaço e com os docentes, tornando a experiência escolar mais rica.

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