Boletim Arte na Escola

Uma fotografia pode ter muitos desdobramentos. Pode remeter a um momento, a uma pessoa, a um objeto. Tem o poder de transportar, de evocar sentimentos, sensações, cheiros. Um potência com a qual a professora da Educação Infantil, Grécia Rocha de Oliveira, já estava familiarizada. “A imagem abre um leque muito grande de possibilidades para desenvolver pensamento crítico, afetos, criatividade. E sempre vi nas fotos um potencial muito grande, o que uma foto tem de significado pra mim ela não vai ter pra você e assim por diante. Então pensei em como levar isso para meus alunos”, conta a professora.

Vencedora do Prêmio Arte na Escola Cidadã, na categoria Educação Infantil, Grécia trabalhou a poética do olhar das crianças no projeto “Universo Fotográfico Infantil” - desenvolvido na Creche de Ensino Infantil Brayan Biguinat Jardim, em São Paulo/SP. A educadora provocou seus alunos a investigar o entorno da escola, observar a natureza, sempre tendo o brincar como ponto de partida e utilizando a linguagem da fotografia como meio.

As crianças, então, se tornaram fotógrafas do seu brincar, do seu descobrir e do seu experimentar. “A poética do olhar das crianças pode revelar coisas que passam despercebidas aos olhos do adulto. E acho que a Arte pode ser a base para ela desenvolver esse olhar, essas percepções, principalmente na Educação Infantil. Porque a criança não vê certo e errado, não vê feio e bonito, ela quer mexer, quer experimentar, aprender, ela quer conhecer as coisas do mundo que está ao redor dela.” ressalta a educadora.

Os pequenos exploraram a fotografia utilizando um aparelho muito presente em seu cotidiano, o celular. A ideia de utilizar o celular como ferramenta surgiu pensando em quais recursos tecnológicos estavam disponíveis tanto para a escola, quanto para os pais dos alunos, explica a professora. “Senti que usar o celular trouxe um novo significado pra essa ferramenta”, Grécia conta que o uso do telefone não era permitido dentro da escola. Então, passar a usar o aparelho como instrumento para envolver outros professores, alunos e pais nas atividades da escola foi muito surpreendente.

“E por que não utilizar essas novas tecnologias como forma de criação, de invenção, de pesquisa, para buscar aquilo que se quer registrar?” A partir desse questionamento surgiram outras surpresas, durante o projeto. A educadora conta que se surpreendeu ao ver que as crianças já tinham familiaridade com o celular, “Na hora que pegavam na mão o telefone, eles pediam para ver desenhos, vídeos de música”. Mas que, ao sair para fotografar, as crianças foram protagonistas daquela ação, utilizando o celular como ferramenta, experimentando formas de manuseio, fazendo do celular um instrumento de ação. Saindo do lugar em que são apenas espectadores da tela do celular, para se tornarem criadores de suas próprias narrativas.

Para provocar o olhar sensível dos pequenos, além de fotografar o entorno da escola, as crianças também fizeram fotos de objetos que tinham significado para elas, demonstrando suas preferências ao escolher um brinquedo, um sapato, uma roupa, um calçado. “Na hora de propor para ela a escolha de um objeto, ela vai pegar aquele que ela gosta e não o que o outro está impondo. Então ali entra a escolha dela, é como se ela estivesse tomando posse do mundo ao seu redor”.

Após as experimentações com a câmera do celular, chegou o momento de expor as criações de cada um. A imagem que eles haviam visto pequena, na tela do celular, tomou proporções muito maiores, em projeções feitas na sala de aula. As descobertas que cada um fez enquanto fotógrafo foram traduzidas em expressões, em movimentos, em afetos que eles puderam compartilhar com os colegas de sala, reconhecendo lugares e objetos pelo próprio olhar, mas também pelo olhar do outro. As crianças não são estáticas, são expansivas, correm, brincam, riem, conversam, e durante a exposição, a interação delas mostrou isso, explica Grécia.

“As imagens das crianças são a pura sensibilidade delas, então nós buscamos valorizar essas imagens com molduras, com material que eles mesmos coletavam, aqui no parque”. O resultado foi uma série de registros e lembranças, que os pequenos poderiam levar para casa, e continuar a investigar, descobrir e compartilhar com seus familiares as impressões das suas experiências enquanto fotógrafos. “A proposta era o desenvolvimento integral deles tanto na linguagem, na socialização, no compartilhamento. E, claro, valorizar a expressão deles próprios como seres criativos” comenta a professora. Grécia finaliza dizendo que “nós não podemos perder esse olhar da criança, um olhar curioso, de estar sempre buscando”.

 

Assista aqui ao documentário do projeto Universo Fotográfico Infantil

Comentários Deixe o seu comentário

  • Junior Coelho, 16:32 - 23/09/2020
    A sensibilidade que a professora teve em manifestar sua paixão através das crianças foi simplesmente, SURREAL. Afinal, a imaginação da criança é um universo que ganha vida a cada descoberta, e marcar essas com fotografias que eternizaram aqueles momentos foi perfeito. Meus parabéns Professora Grécia.

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