Boletim Arte na Escola

“Nós, quando chegamos na EJA, somos desacreditados. Nós viemos de um processo de exclusão e de preconceito gigantes.” A fala é de Jailson Valentim dos Santos, que foi aluno de EJA – Educação de Jovens e Adultos e hoje é professor nesta etapa tão particular da educação básica. Um professor notável, diga-se de passagem. Ele foi o vencedor do XX Prêmio Arte na Escola Cidadã, na categoria EJA.

Jailson desenvolveu com seus alunos o projeto Reinvenção de Si, no CEJA Senador Guerra, na cidade de Caicó/RN. O professor se preocupava com uma questão que ronda as angústias de alunos adultos, aqueles que chegaram no EJA porque queriam voltar (ou começar) a estudar. “Será que eu não sou bom o suficiente apenas porque eu não atendo uma conveniência da escola formal?”

É uma angústia que deve ser recebida com atenção e sensibilidade. Para elaborar seu projeto, Jailson foi colher inspiração e propósito em sua própria experiência escolar. Ele foi uma criança “que não aprendia”, ao menos não aprendia pelos olhos das normas escolares. Repetiu de ano seguidamente. “Quando cheguei na quarta série eu falei: a escola não me serve.”

A vida foi seguindo seu rumo e Jailson, que havia desistido da escola, acabou voltando a ela como professor. Mas foi justamente porque levava consigo uma bagagem que o impelia a repensar o papel da escola, o que é aprender, o que é ensinar. “Para mim, a ideia de perseguir a educação formal veio daí. Eu queria um mergulho. Eu não queria educação de sobrevoo.”

Quando definiu o projeto que desenvolveria com os alunos ao longo do ano, Jailson pensava em movimento: o movimento da vida, os ciclos, as idas e vindas do eu. “Nós não somos estáticos!” Este é o viés que o professor escolheu para conversar sobre identidade com seus alunos, refletindo sobre as mudanças no jeito de cada um e como ninguém é fixo. Cada aluno tem em si, não uma pessoa, mas várias. “A ideia do projeto surgiu para nos reinventarmos, sermos outros, nos ampliarmos”.

Alunos que estavam mais atentos até poderiam procurar esta reinvenção em si. Mas para os que estavam mais distantes, um elemento (ou alguém) de fora poderia provocar a reinvenção neles. O trabalho com Arte é um terreno fértil para esta provocação, para disparar percepções no aluno sobre ele mesmo, sobre seu território, suas amarras. Para expandir as fronteiras.

O professor Jailson montou um material sobre autorretrato, para discutir como alguns artistas se enxergam e como escolhem se apresentar para o público. Outra etapa do projeto foi o reencontro com a cultura local, por meio de expedições que a turma fazia a pé pela cidade de Caicó, para que o projeto extrapolasse as paredes da escola. “Quando eu olho para a cidade, eu estou na verdade olhando para mim mesmo. É uma questão de identidade.” Foi importante fortalecer os laços dos alunos com a sua terra. Em um projeto sobre identidade, as descobertas são fundamentais, e é preciso descobrir-se pelo lado de dentro e pelo lado de fora.

“Eu me reinvento e a partir daí eu me reescrevo”. O encontro com a palavra foi o próximo passo do projeto. O desafio foi lançado para que cada aluno descobrisse o seu verbo, as suas palavras, e escrevesse sobre si. Não era preciso escrever bonito, o mergulho no eu - pela escrita - tinha é que ser profundo, íntimo, verdadeiro. “A palavra tem esse poder. Quando eu me aproprio de uma palavra, eu cresço, eu ganho identidade.”

E então o projeto ganhou mais uma camada – que tradicionalmente causa muitos bloqueios em sala de aula, e o medo é ainda maior entre alunos adultos: “Eu não sei desenhar!”. O caminho que o professor Valentim sugeriu para dissolver o medo foram as novas tecnologias. Recursos do celular e do computador tornaram o processo de construção de imagem mais amigável para os alunos, e aos poucos eles foram se abrindo para desenhar com menos receio e mais liberdade poética. O projeto desaguou em uma construção de cada aluno sobre si mesmo, combinando imagem e palavra. “Eu preciso viver experiências que me transpassem, que me emocionem, que me deixem marcas. Reconstruir-se é um pouco isso. Cada aluno olhou para si mesmo e percebeu: eu posso mais.”

 

Assista aqui ao documentário do projeto A Reinvenção de Si

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