Boletim Arte na Escola

Questionar, refletir, provocar, inquietar. A arte pode ser o fio condutor de todas essas ações. Foi com isso em mente que a professora Milene Albani Petró desenvolveu o projeto “Cildo Meireles: Nosso Circuito Ideológico”, vencedor do XX Prêmio Arte na Escola Cidadã na categoria Ensino Médio. A partir das obras do artista Cildo Meireles, os alunos da professora Milene refletiram sobre a sociedade contemporânea e sobre valores: o valor dos afetos, do tempo, do dinheiro. A arte conceitual foi o meio para conduzir esses questionamentos tão presentes no mundo atual.

“Arte não está só no museu, num quadro. A arte pode estar na rua, ela pode estar no pensamento, ela pode estar no corpo, ela pode estar em uma manifestação”. Esse foi um dos disparadores da professora para introduzir a arte conceitual no projeto, que teve como principal referência a série de “Circuitos Ideológicos”, do artista Cildo Meireles. Em suas obras, Cildo usa objetos como garrafas de Coca-Cola e também notas de dinheiro, para levantar questões que pedem a manifestação crítica das pessoas.

A arte tem a potência para desenvolver esse pensamento crítico. Ao observar a turma e perceber suas inquietações, a professora se propôs a criar, junto com eles, um espaço aberto de discussão e reflexão, para expressar opiniões, compartilhar visões de mundo e, principalmente, levantar debates contemporâneos relevantes para a sociedade, mas que também tivessem um caráter afetivo. “Então nós decidimos trabalhar a arte conceitual de uma maneira crítica, e uma maneira que circule, para os alunos desenvolverem a postura de se posicionar com as questões da sociedade”.

As notas de dinheiro foram escolhidas como objeto central dos questionamentos. A cédula do Real foi modificada para conduzir a discussão sobre o valor das coisas. Uma cédula que não compra, mas que fala, que questiona e que exige um posicionamento sobre a organização do mundo. A plasticidade das imagens e a versatilidade das intervenções digitais foram as ferramentas utilizadas pelos estudantes - que optaram pela tecnologia como principal instrumento de seu fazer artístico.

Quanto vale seu tempo? Quanto vale seu dinheiro? Com frases e fotografias, as cédulas traziam composições que os alunos montaram para representar os assuntos que os tocavam. A imagem de Marielle Franco - política, socióloga e ativista dos direitos humanos assassinada em março de 2018 - o pacifista Mahatma Gandhi, conhecido mundialmente pela manifestação que levou à independência da Índia, apareceram nas cédulas produzidas pelos alunos. “Em uma das notas, eles transformaram R$ 2 em R$ 3, lembrando os três anos do incidente de Mariana [em Minas Gerais]. Há uma pessoa nesta nota. Uma pessoa que morreu no incidente de Mariana. Aquela lama na nota faz a gente se arrepiar quando a gente sabe o contexto. Eles buscaram uma referência que tocasse o coração deles. E isso também me tocou muito” explica a professora.

“Meu dinheiro tem valor para você?”

Após a produção das cédulas, os alunos levaram essa e outras questões a seus professores, colegas de outras turmas da escola e saíram às ruas do bairro para questionar os passantes: “Você poderia dar uma olhada nessa nota para mim? O que você vê nela?” pergunta uma das alunas. “Nós aprendemos a trabalhar uma questão, mas também aprendemos a ouvir a questão do outro diante do nosso trabalho, e diante de temas completamente polêmicos” conta Francisco Grasselli Júnior, um dos alunos que participou do projeto.

Além de dominar o fazer técnico para a criação das cédulas, a professora conta que ficou satisfeita em ver que os alunos puderam extrair coisas muito positivas da trajetória que tiveram na escola pública. “O que eles aprenderam nesse projeto não foi mérito apenas das aulas que desenvolvemos em artes, mas sim tudo que eles interligaram com as outras áreas de conhecimento”.

“Esse é um projeto que pode ser desenvolvido em muitas disciplinas, como história, português, até mesmo religião ou matemática”, reflete a professora. E essa transversalidade pode envolver muitos alunos, de outras turmas, e até mesmo os outros professores. Para Milene, o projeto ainda pode repercutir e ter desdobramentos significativos, levantando questões importantes de serem debatidas, na escola e fora dela.

 

Assista aqui ao documentário do projeto Cildo Meireles: Nosso Circuito Ideológico

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