Boletim Arte na Escola

Conhecer o outro, para aprender sobre si mesmo. E porque não usar a Arte como meio para ver o outro e para expressar sua individualidade? Foi esse um dos norteadores do projeto “Ubuntu - Sou porque nós somos” desenvolvido pelo professor Antonio Roberto, no CIEP Prof. Octávio César Borgui, no município de Americana/SP. Premiado no XX Prêmio Arte na Escola Cidadã, na categoria Ensino Fundamental 1, o projeto trabalhou a empatia, a coletividade e a amizade, unindo a arte contemporânea à saberes ancestrais do continente africano, relacionados à filosofia Ubuntu.

“O Ubuntu é uma filosofia africana que fala muito sobre empatia. Essa filosofia vem, mais especificamente, da tribo Zulu. Lá eles têm a consciência de que quando uma pessoa é afetada, isso nos afeta também. E esse foi o fio condutor para as etapas do projeto”. Entre os principais disparadores do projeto estava um incômodo: o ambiente escolar pouco engajado e sem motivação. O professor conta que foi a partir desse incômodo que começou a se questionar e a pesquisar maneiras de transformar a aula de Arte em um espaço de criação e de troca. “Como poderia mudar essa situação? Como engajar a sala para trabalhar enquanto grupo? Como integrar esses alunos que não estavam se dando bem?”

A escuta foi parte fundamental do processo. “Comecei a ouvir os alunos, a perguntar o que eles queriam fazer, qual material queriam usar, a observar em qual atividade mostravam mais interesse, qual atividade causava mais conflito. E, principalmente, comecei a ver os alunos que tinham mais dificuldade em desenvolver alguma atividade com o olhar de entender o que estava acontecendo na vida daquela criança, e conversar com cada um individualmente”, explica o professor. Ele completa afirmando que foi a partir daí que surgiu o espaço para trabalhar a filosofia Ubuntu.

Com as mãos dadas formava-se a roda, um elemento afetivo e uma expressão de igualdade. A produção artística era feita em grupo, com conversas entre os alunos, experimentações fora da sala de aula se juntaram a outros elementos para expressar a coletividade da turma. Cada aluno pôde, então, reconhecer seu espaço dentro de um grupo de amigos, dentro da sala de aula e da escola. Criou-se senso de pertencimento naquele ambiente.

As crianças produziram estandartes, mantos e cartazes com mensagens que dialogavam com a filosofia Ubuntu e que estabeleciam uma ponte entre o individual e o coletivo. “A escolha do estandarte, como suporte para a expressão dos alunos, começa com o significado que ele traz para grupo. É um grupo que coletivamente constrói um objetivo em comum”. A matéria prima para a produção artística dos alunos foram materiais recolhidos por eles, pelos professores e por toda comunidade escolar. “Nas artes visuais, qualquer objeto pode ser base para você se expressar, materializar suas ideias, seus sentimentos, suas emoções” explica o professor. A pintura, a colagem, o estêncil e a palavra foram os meios para traduzir essa expressividade. “No momento em que ele vai produzindo os estandartes, vai surgindo a necessidade das palavras pertencerem, porque elas também são um veículo de expressão, elas também estavam provocando nos próprios alunos a necessidade de uma interferência”.

“Sinto fome de alegria, sinto fome de amizade e sinto fome de ser jogador de futebol” traz o cartaz de uma das alunas. “Cada um se apropriou da própria realidade como elemento para produzir seu trabalho. Se apropriaram do que tinham no entorno, da sucata, do lixo, do estêncil, do grafite” explica o educador.

Como referência para a produção, os alunos trabalharam artistas e escritores negros e descendentes de negros, com o objetivo de aproximar a trajetória desses artistas à realidade vivida pelos alunos. A escritora Maria Carolina de Jesus e o artista visual Bispo do Rosário foram algumas das referências utilizadas no projeto. “O Bispo do Rosário, por exemplo, produziu estandartes, ele produziu o manto. Uma diversidade de objetos artísticos que, para muitos, surgiu do nada. É aí onde entra a palavra Ubuntu. Alguém viu que o Bispo era um artista, alguém juntava sucata e levava para ele produzir.”

Perceber as descobertas espontâneas que os estudantes fizeram durante o projeto - ao utilizarem os materiais, aprenderem novos processos, complementarem a produção dos colegas - foi uma das maiores surpresas do educador. “Dava para perceber no rosto deles a mudança de postura com os colegas de sala, a cumplicidade entre os alunos, o envolvimento deles com o grupo, um aluno acolher o outro que antes era mais afastado do grupo, foram coisas simples, mas que mostraram que a sala estava se engajando e que essas mudanças seriam levadas por eles”.

O trabalho dos alunos culminou em uma exposição na biblioteca municipal. Mas, para o professor, a principal contribuição do projeto foi engajar a escola toda na construção de um ambiente mais saudável, em que as crianças puderam aprender a conviver, a ter empatia e a compartilhar, tendo a Arte no centro dessas interações.

 

Assista aqui ao documentário do projeto Ubuntu - Sou Porque Somos

Comentários Deixe o seu comentário

  • Nenhum comentário foi encontrado para o conteúdo acima.

Deixe o seu comentário

Os campos assinalados com (*) são de preenchimento obrigatório.




Ainda nesta edição