Boletim Arte na Escola

Não é preciso ir longe para encontrar inspiração e realizar um projeto de Artes escola. Pelo contrário. A Arte está entrelaçada na vida, não é preciso recorrer a um museu ou a grandes artistas consagrados para encontrá-la. A constatação pode parecer simples, até evidente. Mas perceber os elementos do dia-a-dia como pontos de partida para a aula de Artes pode desdobrar mil possibilidades para o professor, além de engajar os alunos ativamente.

As paisagens que compõem a Amazônia, as cores, as formas, a riqueza da diversidade... serviram de inspiração para a professora Elsamar Emerique. O projeto “Cores do Açaí”, desenvolvido pela professora na EMEF Maria da Glória Rodrigues Paixão, foi premiado em 2019 no Prêmio Arte na Escola Cidadã, na categoria Ensino Fundamental 2. O projeto aconteceu na cidade de Jacundá, no Pará. E o ponto de partida não poderia ser um elemento mais familiar para a cultura nortista: o Açaí.

A professora Elsamar trabalhou junto aos alunos a materialidade e os tons do Açaí como matéria-prima, como memória, como identidade e como descoberta... Do começo ao fim, o projeto dialogava com a realidade e rotina da turma. Dialogava tanto, que a ideia de usar o Açaí partiu de um aluno, inclusive. Foi um estudante do oitavo ano que colocou a questão: “E se nós pintássemos com o Açaí?”. O restante da turma achou a provocação instigante e desafiadora. E a professora Elsamar foi sábia o bastante para embarcar na curiosidade dos alunos e nutrir a ideia, propondo novos desdobramentos para o uso do Açaí.

Peixe frito, peixe assado, carne de sol, farinha de puba, banana, leite condensado... A intimidade dos alunos com o Açaí já era grande. Mas a relação mudou quando eles perceberam que o fruto também podia ser matéria para a Arte. “Eu quis incentivar eles a valorizarem, descobrirem, a experimentarem a Amazônia enquanto Arte e valorizar a nossa cultura nortista” conta a professora Elsamar.

Apesar de terem proposto o tema, no início do projeto, os próprios alunos questionaram a ideia de pintar com Açaí. Será que daria certo? Como eles poderiam fazer variações de cores com o fruto? A turma também foi atenta em perceber que o Açaí é perecível. Como eles poderiam usá-lo nas telas desta forma? E como fixá-lo?

Os alunos perceberam que o Açaí não iria fixar na tela, então experimentaram colocar cola. Também notaram que quando esfregavam limão para retirar o Açaí das mãos, escorria uma cor avermelhada. Estava feito o vermelho! A partir desta descoberta, novas cores foram sendo testadas, combinando o Açaí com uma diversidade de outros materiais. Até mesmo a palha do Açaí, batida no liquidificador, foi matéria-prima para criar a tinta verde.

“Tudo no Açaí foi aproveitado, de uma maneira sustentável, que trouxe fruição.” enfatiza a professora. Cada aluno fez seu trabalho final, usando as tintas de Açaí nas telas que eles mesmos construíram. “Eu quis que os alunos participassem de toda a produção artística, desde o plano, a superfície onde eles iriam pintar”.

Ao final, os trabalhos foram apresentados para toda a comunidade jacudaense, na praça municipal. Mas a sensação que ficou do projeto é de que a Arte não foi só pintar, o processo criativo foi muito além dos trabalhos finais. “A Arte precisa ter interpretação, conhecimento, investigação e uma leitura”, conclui a aluna Eilany Almeida da Silva.

O fato dos próprios alunos pensarem sobre as etapas, planejarem e apresentarem indagações sobre o processo os torna os grandes protagonistas deste projeto. Além do interesse pelo tema ter partido dos alunos, também foram eles que trouxeram questões (e soluções!) para o projeto.

Sair da zona de conforto da escola e explorar novos espaços, que estavam tão próximos e ao mesmo tempo tão despercebidos, despertou na turma curiosidade e senso de pertencimento com a própria cultura do Norte. A professora Elsamar embarcou na curiosidade dos alunos e instigou a experimentação. Ela percebeu a potência do Açaí como patrimônio imaterial, com o qual os alunos já tinham um laço afetivo. O fato de ser um elemento tão familiar ajudou a dar asas para a imaginação dos jovens. O Açaí foi ressignificado, ganhou novos tons e dimensões. Não foi preciso ir longe para encontrar o tema do projeto. A Arte estava logo ali, no Açaizeiro.

“Amo ser professora de Arte e sou apaixonada também por esta identidade paraense. Hoje eu percebo que os alunos também estão apaixonados pelo projeto.”

 

Assista aqui ao documentário do projeto Cores do Açaí

Comentários Deixe o seu comentário

  • Nenhum comentário foi encontrado para o conteúdo acima.

Deixe o seu comentário

Os campos assinalados com (*) são de preenchimento obrigatório.




Ainda nesta edição