Boletim Arte na Escola

por Ana Angélica Albano

 

Palavra de um artista tem que escorrer substantivo escuro dele. 

Tem que chegar enferma de suas dores, de seus limites, de suas derrotas. 

Ele terá que envesgar seu idioma ao ponto de enxergar no olho de uma garça os perfumes do sol. 

Manoel de Barros 1

 

 

Entre tantas propostas de ensino da arte que vimos acompanhando ao longo dos anos, nenhuma chegou de forma tão inesperada e radical quanto as aulas remotas impostas pela pandemia.

Com o isolamento social veio a urgência do ensino à distancia e todas nossas certezas entraram em estado de suspensão. Professores tiveram que reinventar suas práticas sem aviso prévio ou treinamento especializado, tendo como único recurso a internet. A ferramenta que muitos professores de arte encaravam com suspeita na sala de aula, tornou-se seu principal, senão único, instrumento de trabalho.

Escrevi minha tese de doutorado em 1994 à mão e o computador ainda me era estranho em 1997, quando assumi as aulas de Didática do Ensino da Arte e Estágio Supervisionado de Educação Artística na Faculdade de Educação da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas.

Não demorou muito para que percebesse que não tinha escolha: ou aceitava a vida acadêmica com computador ou simplesmente não teria vida na academia. O acesso à internet estava começando a se popularizar e logo tornou-se via de comunicação imprescindível na Universidade. Hoje soa pré-histórico meu analfabetismo digital. Não imagino como teria produzido, o que produzi em 20 anos de Unicamp, sem acesso à internet.

Estou aposentada e, como não tenho nenhum compromisso institucional, não fui obrigada a reinventar minhas aulas na pandemia. Porém, como a docência não termina com a aposentadoria, nem necessita de instituição que a legitime, continuo ensinando, sem lugar fixo, nem tempo de aula definido por uma grade curricular, seja no interior do Brasil, seja no Exterior. Minha sala de aula é o mundo, que, neste momento, está em suspensão por tempo indefinido. É deste lugar não institucional que sigo, com atenção, os movimentos de reinvenção de professores e compartilho aqui minhas observações.

Necessário destacar que reflito a partir de um recorte muito particular de experiências realizadas, principalmente, no sul e sudeste do Brasil, apesar de estar trocando informações com professores de outras partes do mundo.

No início da quarentena percebi que a necessidade de interlocução havia aumentado, consideravelmente, quando comecei a receber mensagens de ex-alunos de diferentes turmas da graduação e pós-graduação da Unicamp, assim como de cursos de formação continuada fora da Universidade, dizendo que estavam relendo meus textos, relembrando nossas discussões e relatando-me experiências de suas aulas à distância. Percebia um reconhecimento da importância do que havíamos construído juntos mas, também, o desejo de partilhar o terreno desconhecido que estavam adentrando. Este movimento espontâneo tem me possibilitado observar e comentar aulas em vídeos, em fotos, em relatos escritos de atividades online na educação formal e não formal, desde a educação infantil até o ensino superior, em espaços privados e/ou públicos. Algumas aulas são descobertas entusiasmadas e inspiradoras, mas também tenho ouvido dores, dificuldades, frustrações.

Sempre desconfiei dos artigos luminosos, que apresentam apenas acertos, como se toda pesquisa tivesse obrigação de ser, invariavelmente, bem sucedida. Como se o fracasso não produzisse, também, conhecimento. Como Manoel de Barros, acredito que palavra de um artista tem que escorrer substantivo escuro dele. Tem que chegar enferma de suas dores, de seus limites, de suas derrotas.

Conforme ia recebendo as mensagens, percebia a importância de vivências tão singulares e a necessidade de conectá-las em rede para ampliar a discussão e aliviar a solidão imposta pelo isolamento social.

Com a devida licença dos autores, comecei a partilhar suas experiências com o grupo de estudo e pesquisa independente que criei com ex-orientandos, de- pois que saí da Unicamp: o Grupo do Jardim 2. Alguns se interessaram em se unir ao grupo e assim criamos uma rede de discussão e suporte a um tipo de ensino remoto, que se fez obrigatório na pandemia e não veio com manual de instruções.

Escrevo este texto no final do terceiro mês de quarentena e algumas reflexões se impõem.

O primeiro movimento que me chama atenção é diluição dos limites entre o espaço escolar e o familiar, entre o público e o privado. As aulas acontecem dentro da casa dos professores e os alunos abrem suas casas para recebê-las. Os alunos entram na casa dos professores, convivem com sua família, compartilham sons do seu cotidiano e vice-versa. Os pais são chamados a participar não apenas como alguém que, ocasionalmente, supre uma informação. Alguns dividem o espaço de trabalho com os filhos, outros o computador, tablet, e/ou celular, outros ainda precisam ajudar a decodificar as instruções ou fazer a tarefa junto, especialmente pais de crianças pequenas e/ou suportar a ansiedade dos filhos maiores. O saber da escola e o saber da família se interpenetram e se fazem igualmente presentes em tempo real.

Ouvi de uma economista que estava se divertindo com as aulas do filho e se descobrindo professora…Imagino que ela deva ser uma exceção, mas, como professora, não deixei de me deliciar com seu comentário.

Apesar das aulas estarem acontecendo através de mídia digital, o vínculo professor/aluno, ao contrário do que poderíamos supor, tornou-se ainda mais imprescindível. A informação disponível online precisa, mais do que nunca, da interlocução com o professor para ganhar sentido, para tornar-se conhecimento incorporado. O olhar do professor, seus comentários para cada estudante, pode ser a diferença entre a atenção ao WhatsApp ou ao conteúdo da aula.

Não que a divisão da atenção não acontecesse na escola, apenas se tornou mais fácil de manejar. Acima de tudo e de toda argumentação pedagógica é de extrema importância considerar que estamos vivendo uma situação inédita no mundo e, portanto, escutar as angústias dos alunos pode ser tão ou mais importante, em alguns momentos, do que ensinar o conteúdo programado antes da pandemia.

Outra questão que merece nossa atenção, é que muitos professores estão se familiarizando com ferramentas que os alunos, sejam crianças ou adolescentes, tem total intimidade, uma vez que nasceram praticamente alfabetizados no código digital.

Estariam os professores preparados para aprender com os alunos? Estariam prontos para expor suas fragilidades? O professor que aprende com o aluno, constela o mestre no aprendiz que, por sua vez, pode, também, mostrar suas inseguranças sem culpa ou vergonha do não saber. Quem poderá dizer, se aceitar ser um mestre/aprendiz, não possa ser a oportunidade para a renovação tão esperada da docência?

O que ensinamos quando ensinamos arte? Esta é uma pergunta que me persegue há anos e tem voltado constantemente durante a pandemia.

Ensinamos desenho, pintura, modelagem, movimento corporal, canto, interpretação teatral…? Ou colocamos em movimento a expressão do desejo, a necessidade de transgredir os limites, de colocar no mundo a própria voz?

Quanto mais confinados em nossos pequenos mundos, mais urgente se faz a comunicação com o outro, mais premente a necessidade de escutar outras vozes, outros sonhos, outras esperanças…

Sei que nada será como está, amanhã ou depois de amanhã                                                                 Resistindo na boca da noite um gosto de sol 3

Ouço Milton Nascimento e me pergunto como serão as aulas pós pandemia? Que professores seremos depois do isolamento, que alunos encontraremos? O que aprenderemos ensinando à distância?

Nada será como antes, amanhã…

Serão nossas práticas transformadas com as lições aprendidas na quarentena? Tenho recebido diariamente poemas, músicas, pinturas, fotos, sugestões de leituras ou de filmes. Povoar o mundo com arte parece estar sendo a maneira de afirmar a vida, de dizer que seguimos em frente…mesmo sem saber o que virá.

Penso, então, em Florentino Ariza, personagem de Gabriel García Marquez, com seu amor impávido e, como ele, me assusto com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites 4

 

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1 Barros, Manoel- Retrato do artista quando coisa, In Poesia Completa, São Paulo: Leya, 20

2 Grupo de estudo, pesquisa e criação que reúne artistas/professores, pedagogos, psicólogos compro- metidos com a arte, a educação e a gestão cultural. Em 2 anos e meio de existência publicamos 2 dossiês em revistas acadêmicas indexadas e participamos de 2 congressos internacionais (30ºAPECV/2018-Coim- bra e INSEA/2019-Vancouver).

3 Nascimento, Milton,Bastos, Ronaldo - Nada será como antes, In Clube da Esquina,Rio de Janeiro, EMI- Odeon, 1972

4 Garcia Marquez, Gabriel, O amor nos tempos do cólera,Rio de Janeiro, Editora Record,1986

 

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Ana Angélica Albano é professora livre docente da Faculdade de Educação da UNICAMP. Licenciada em Desenho e Plástica pela FAAP, doutora e mestre em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP. Foi diretora do Museu de Artes Visuais da UNICAMP (2014 a 2017) e diretora associada (2012 a 2014). Professora convidada da Facultad de Educación da Universidad de Cantábria, Santander, Espanha (2012 a 2018) e fellow do Centro Botín, Santander, Espanha.

 

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