Boletim Arte na Escola

por Catarina Ferreira

 

 

“Quando começamos a trabalhar educação antirracista na escola, havia também um outro movimento interno acontecendo. Além das crianças, começava uma transformação das professoras.”

A educação antirracista é uma pauta potente que pode trazer transformações para toda a comunidade escolar. A professora Fátima Santana Santos é um exemplo notável deste movimento de transformação. Ela foi vencedora do Prêmio Arte na Escola Cidadã em 2015, na categoria Educação Infantil, com o projeto “Dr. Djalma Ramos e o seu amor por Riachão”. Fátima hoje é coordenadora pedagógica do CMEI Dr. Djalma Ramos, em Lauro de Freitas, na Bahia. O projeto pelo qual foi premiada foi construído coletivamente - junto a outras professoras negras da escola – e alia arte-educação à luta antirracista, trazendo uma mensagem poderosa que repercute ainda hoje.

Foi com a música e a figura do sambista Riachão que as professoras do CMEI Dr. Djalma Ramos buscaram um elo para trabalhar a autoestima das crianças e resgatar o contato com sua ancestralidade. O projeto, e também seus desdobramentos, surgiram do incômodo em não ver a cultura afro brasileira no currículo e nos projetos da escola, que está inserida em uma comunidade composta por maioria negra. Surgiu, então, a necessidade de estudar com mais atenção este contexto e trazer a realidade para dentro da sala de aula - fortalecendo a construção subjetiva e identitária das crianças. Toda a comunidade escolar foi se desenvolvendo junto.

“Quando nós vimos a figura tão potente, iluminada, do Riachão, o apresentamos a esse coletivo de professoras, que teve o trabalho de levar a musicalidade e a cultura que Riachão representava até as crianças. A partir daí, começou um trabalho de construção identitária nos pequenos com autorretratos, trabalhamos materiais como a tinta preta, o lápis preto, giz de cera. Tudo isso para eles começarem a ressignificar a própria imagem e também para aproximá-los dessa vivência com a ancestralidade e com a musicalidade de Riachão. Em paralelo a isso, a construção identitária dos professores também foi sendo fortalecida.”

                                                                                                                                                                     Professora Fátima Santana

Trazer para sala de aula estratégias para combater o racismo é necessário e urgente, conta a professora. Isso porque mesmo as crianças mais novas presenciam situações racistas em seu cotidiano, elas podem não comunicar, ou não saber como verbalizar aquele sofrimento, mas vivenciam o preconceito que acontece com seus familiares e até com elas mesmas. “As crianças quando estão na rua, quando estão na escola, vivem o racismo de perto. As questões raciais estão postas na sociedade, elas sabem que quando o colega chama de feio, fala do nariz, do cabelo, da cor da pele, aquilo aconteceu por uma razão. E nós, professoras e professores, que estamos ouvindo, não podemos deixar passar qualquer atitude de inferiorização, sobretudo com as crianças negras”.

Em todas as ações a serem adotadas dentro da escola, a professora Fátima chama atenção para a importância da formação dos professores e do envolvimento de toda a comunidade escolar, ainda mais quando os projetos envolvem a temática antirracista. “Isso porque a escola precisa trabalhar na desconstrução de um currículo que vem de uma cultura de embranquecimento e de apagamento de figuras e referências negras. Isso demanda esforço, estudo, planejamento e necessita do envolvimento de toda a escola para selecionar quais os saberes que devem chegar até as crianças”.

Para que a escola possa acolher o estudante negro, a formação dos professores é fundamental e deve ser feita com abordagem muito cuidadosa. Fátima chama atenção para o caso da Educação Infantil. “Com uma criança de três ou quatro anos, você não precisa trabalhar a brutalidade do racismo, você pode trazer alternativas outras para essa criança. Para que elas vejam beleza na negritude delas, da família, para fortalecer aquela criança, é isso que procuramos fazer aqui, proporcionar a essa criança a experiência da felicidade com quem ela é”.

“Quando trabalhamos com Riachão, durante a visita dele à escola, uma das crianças disse ‘Riachão, quando crescer quero ser igual a você’. Isso é muito forte, porque ela olha para aquele homem negro e vê beleza, vê afeto, vê a riqueza da musicalidade dele, do samba, da maneira que ele canta. Essa conexão é poderosa, porque as referências à cultura negra, aos artistas negros brasileiros, foram apagadas por muito tempo. Então você olhava para um homem como Riachão, e não via beleza, não via uma manifestação cultural, uma manifestação artística que iria para dentro de uma escola, e isso é a violência do racismo.”

Desde 2015, o projeto “Dr. Djalma Ramos e o seu amor por Riachão” continuou a reverberar. Um dos seus frutos foi o projeto “Ruim pra quê? Ruim pra quem?” em que a professora trabalha a construção da identidade das crianças a partir de sua relação com o cabelo e com o corpo. Uma das referências citadas por Fátima é a antropóloga Nilma Lino Gomes, que estuda o cabelo e o corpo negro como linguagem, que carrega símbolos de uma herança ancestral a ser ressignificada.

“Deixamos que ela mexa com seu próprio cabelo, cuide do cabelo do colega. Nós usamos também a música e o movimento, a experiência do toque no próprio corpo, experimentações com materiais orgânicos como a argila e o urucum para que aquela criança se perceba, crie afetos e desenvolva uma relação positiva consigo, com a sua pele, com seu cabelo. Então, na escola, esse é nosso objetivo hoje: que a criança vivencie a experiência da felicidade, é esse nosso convite pedagógico”.

É por isso que, no CMEI Dr. Djalma Ramos, a formação com os professores acontece de forma constante e em encontros frequentes. “Fizemos saraus, apresentamos os materiais que seriam usados, procuramos referências. Além da formação com os professores, também promovemos um encontro com os funcionários dos outros setores da escola, da secretaria, da cozinha, serviços gerais. Como estamos tratando de negritude, de identidade, os servidores da escola também precisam fazer parte disso. Sobretudo porque as atividades de arte demandam a atenção de todo mundo, mexem com o espaço da escola, as crianças saem da sala de aula e isso muda a rotina escolar. Acontece também um encontro com os familiares logo no início do projeto para convidá-los a participar de uma das atividades que será desenvolvida. Envolver toda a escola faz parte do processo pedagógico.”

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LIVE IAE: Qual o papel da Arte e da Escola na luta antirracista?

Em julho de 2020, o IAE covidou a professora Fátima Santa para uma conversa ao vivo, para discutir a importância da Arte e da Escola no combate ao racismo. Também participaram da conversa a jornalista Adriana Couto e a artista e cientista da educação, Danielle Almeida.

 

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