Boletim Arte na Escola

por Alex Rosato

 

                                                                                                                                                                                 Aluna Anita, 13 anos

O que é a fotografia, senão uma paisagem que se forma na medida em que fazemos uma troca com o outro?

Foi assim que eu comecei o projeto de fotografia “O tempo e a abertura de novos espaços”, em que toda materialidade passou a ser virtual. No contexto da pandemia, aquilo que era um problema se tornou uma solução para abordar determinados assuntos que fazem parte da criação artística, principalmente da fotografia, e que são de natureza coerente com a materialidade virtual.

O ano de 2020, que começa atípico, possibilita o brotar de uma paisagem distante e ao mesmo tempo próxima a cada um de nós, professores e alunos, em nossas casas. Uma paisagem ainda sem definição. O diálogo muitas vezes aconteceria além das palavras. A atenção voltada para essa paisagem é que alimenta cada parte do projeto, com o encantamento do florescer que surgiu por meio da imagem fotográfica.

Primeiro, estabelecemos que cada movimento feito no projeto com os alunos seria chamado de “ATO”, como no teatro, com a revelação de imagens que poderiam contar um pouquinho cada vez mais. O primeiro movimento foi documental e depois foi se tornando um caminho poético.

É importante falar que cada ato do projeto foi construído passo a passo pelo grupo; o passo é dado em conjunto. Nesse caso, não estão separados professores e alunos. O que tivemos no projeto foram condutores, estimuladores, poetas, cientistas e cada um, com seu olhar, apresenta o mundo à sua volta criando conexões universais e particulares.

Iniciar os processos de criação no espaço que traz relação com a intimidade, no espaço da casa, no espaço do dia-a-dia, se tornou uma potencialidade para o grupo. O projeto não por acaso recebeu o nome ”O tempo e a abertura de novos espaços”.

O tempo pessoal e o tempo social na sua relação estabeleceram um tempo criativo e a abertura de novos espaços: lugares que em geral ficam escondidos pelo véu do dia-a-dia e não se revelam para construção da aprendizagem do indivíduo e do grupo.

Aqui a fotografia assume o papel de espelho do mundo e o mundo como espelho de você. Formar seres criativos como protagonistas, criar uma relação integrada entre arte e vida na prática, inserir a pesquisa no processo criativo, vivenciar o momento presente, compreender e formar a estética ética através do desejo, valorizar o tempo como um grande recurso, construir o olhar, o desenho, a fotografia, estabelecer a construção coletiva de sentidos – são os elementos que possibilitam no projeto um caminho para esse encontro consigo e com o outro.

ATO 1

No primeiro Ato nós tivemos um movimento de entender o que é o silencio a partir de uma pergunta: “Quando não há nada o que vemos?”

É necessário encontrar o significado do que é silencio nesse momento, para provocar uma reposta que minimamente atinja a necessidade de cada um. Entender o silêncio como uma alta escuta.

Por de trás de uma palavra ou uma imagem existem na verdade muitas outras palavras e imagens, que são resignificadas quando apresentadas ao olhar do outro. Foi preciso criar um ambiente onde nos afastamos do tempo cotidiano e que possibilitou melhor esse mergulho, encontrando, para isso, algumas ferramentas como música, aromas, e a pergunta disparadora: “Quando não há nada o que vemos?”

A pergunta foi trabalhada com os alunos durante uma semana e colocada bem frente aos olhos, na área de trabalho de cada um. O grupo trouxe suas impressões e imagens em forma de partilha:

Respostas dos participantes para as perguntas disparadoras

ATO 2 

Documentar, organizar, observar e refletir. Passo a passo, documentamos o processo durante a semana. Cada resposta para a mesma pergunta - a cada dia colocada em torno da área de trabalho de todos os integrantes. O grupo passou a registrar, e compartilhar seus registros, para que pudéssemos perceber e conhecer melhor o nosso olhar, com mais profundidade e conquistando aos poucos o estado de presença e o estado de segurança dentro do grupo.

                                                                        Referências de documentações do ambiente de trabalho, comas palavras respondidas

ATO 3

O aprofundamento da nossa visão é um caminho possível para que possa existir a percepção do nosso próprio olhar.

É necessário que isso seja gradativo, porque todo processo, se observado com cuidado e percepção criativa, é capaz de se tornar nesse caminho a própria obra, regada de significados estéticos e éticos.

As imagens de documentação do espaço de cada um foram compartilhadas com o grupo, e aos poucos começavam a revelar esses espaços sutis, de um dia-a-dia que muitas vezes esconde o nosso olhar sobre as coisas.

“A fotografia é uma forma de expressão. Aprender a ver beleza no simples do cotidiano é um trabalho importante, a beleza cotidiana nem sempre está em objetos ou plantas, ela pode estar presente muitas vezes em padrões geométricos, como linhas ou cores ...” Léa, 14 anos

São luzes, texturas em um pote de vidro, um carvão no fundo da churrasqueira, no piso de tábua corrida, padrões nas almofadas do sofá, na textura de um dedo, na luz de um abajur no canto da sala, no pelo do cachorro, nos cristais que estão no quarto, a ação do sol por entre as folhas, a projeção de sombras sobre um piso ao lado da piscina.

                                                                                                                                       Ariel, 14 anos | Acauã, 13 anos | Milla, 13 anos

Os ângulos do meu cachorro, das garrafas expostas na janela de casa, nas flores por baixo das copas, no alho sobre as tábuas, no monte de açúcar; são texturas, temas, tratamentos e cores; os planos que se formam.

“...No primeiro plano, folhas que estão próximas. No segundo, o telhado da minha casa. No terceiro, o tronco desta arvore. No quarto plano, folhas que estão um pouco mais longe. Em quinto, a ponta do telhado do vizinho. No sexto plano, o céu que é cortado por todas as fatias, das folhas, da ponta do telhado, do tronco...” Composições que passam do corriqueiro e banal para um olhar sutil e atento conforme relatado por Marcella Flogiano Marini - professora parceira no projeto - observando seu caquizeiro no jardim de sua casa.

“Neste momento de quarentena escolhi a temática do caquizeiro perdendo suas folhas no outono em num dia de céu azul. Acho que reflete que mesmo nesse tempo de isolamento as mudanças estão acontecendo com a natureza, com os animais, conosco também”. Professora Marcela

ATO 4

Neste projeto, a fotografia foi um processo de pesquisa pessoal.

Cada foto, então, nesse ato apresenta um pouco o desvelar de um olhar mais poético, de uma camada mais profunda do dia-a-dia que se conecta com o “Ser”.

Saímos de uma análise formal para um olhar mais poético:

“Observem os raios que traçam varias linhas por entre as folhas, percebam a presença do verde das arvores como se nunca fosse acabar...” Nina, 14 anos

Cada um do grupo começou a construir uma certa sequência ou uma narrativa de ideia, através de sua pesquisa visual com fotografia.

O projeto então vai se revelando um mergulho para dentro de si mesmo. Observa-se na paisagem externa uma possibilidade viável e compreensível do que é o segundo nascimento.

A fotografia nesta fase do projeto deixa explícita a sua importância no nível de construção de diálogo e linguagem poética. Vai além da foto documental e adentra na foto do espaço interno.

A fotografia é como um espaço do dentro e do fora, uma janela do mundo e espelho de si mesma. É como para os Tauístas um “Wabi-sabi: a beleza das coisas imperfeitas, transitórias, incompletas, é a beleza das coisas modestas e simples, é a beleza das coisas não convencionais”, é encontrar dentro do óbvio a verdade do não-óbvio, é olhar para dentro de si, transformar o cotidiano banal num cotidiano sublime.

É da nossa natureza querer descobrir. Descobrir os tempos, para que possamos criar e abrir novos espaços na vida.

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LIVE IAE: Investigações com fotografia

Em setembro de 2020, o Instituto Arte na Escola convidou o professor Alex Rosato para uma Live que discutia o olhar fotográfico - e como ele pode ganhar profundidade na aula de Artes.

 

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