Boletim Arte na Escola

por Juliana Carnasciali - JULLIPOP

 

                                                                                                Projeto Coisas que Giram com Luz - experimento da aluna Julia Puppi

Era mês de março. O ano 2020. O momento: pausa. O som, silêncio? O silêncio mais barulhento que poderíamos escutar com força planetária. De repente a indicação era “fiquem em casa”...

De uma vida imersa em encontros com crianças de quatro, cinco e seis anos em duas escolas com as quais trabalho, sendo atelierista em uma e professora de arte em outra (sim, os nomes diferentes indicam que preciso habitar a escola de maneiras diferentes) e uma terceira para qual presto assessorias de arte-educação, a distância física virou premissa da noite para o dia e junto de um imenso frio na barriga a questão era: Como vamos dar sequência em um projeto de pesquisa a distância? Como vamos propor encontros com materialidades tão importantes para a vida na primeira infância de modo remoto? E as ambiências como educadoras, tão parte dos percursos do meu trabalho, como aconteceriam no novo formato que se instaurava ali? Seria preciso reconhecer a presença do invisível, como provoca no pensar Edgar Morin, em Filhos do Céu, para que algo pudesse começar. Um momento de se reinventar.

Para quem trabalha com atmosferas investigativas isso não é um problema, mas um caminho. E de caminhada é feita a educação, dentro e fora da escola.

Para desbravar caminhos, segundo Ingold, a visão é fator fundamental. A visão que sente e pensa, a visão corpo acordado e não a visão filtro, previamente interpretativa. Não a visão que se faz das imagens vistas e sim a visão que constrói camadas de sentido para depois criar imagens a serem observadas. E o que acontece quando andamos, sem andar?

Estamos presos em casa e para o encontro acontecer a posição é “parada frente a uma tela”. Estão chamando de ensino remoto. O termo, Ensino Remoto, faz sentido? Me pergunto todos os dias.

O dicionário diz que remoto é algo que ocorreu há muito tempo, algo antigo, longínquo, distante no espaço. Distanciado. No entanto o desafio é estar perto ainda que distante.

No livro Educar na Curiosidade, de Catherine Lécuyer, o capitulo 15 _ A BELEZA_ p.141, começa com a pergunta “O que causa curiosidade?” e discorre a investigar o que existe no ser das coisas que possa provocar curiosidade. A autora acredita ser a BELEZA uma das respostas. Dessa afirmação nasce outra pergunta, “O que é beleza?”. Diriam os filósofos ser a potencia do Bem e da Verdade, assim, para uma criança o belo pode ter a ver com tudo aquilo que seja uma verdade da sua natureza, seus ritmos e muito dessa relação surge do contato empírico com a natureza. Observar a natureza orienta ritmos internos por exemplo. Sua materialidade – temperatura, fragrâncias, texturas, luminosidades, desenhos, quantidades, agrupamentos, cores, camadas, movimentos - seus ciclos ensinam o tempo. Ela nos ensina a estar presente e a perceber presenças.

                                                                                   Projeto Coisas que Giram e Desenham - experimento da aluna Isadora Caetano

Voltemos a curiosidade que aproxima do belo, harmonia e ritmos internos. Eu precisava observar, escutar meus grupos de trabalho e sentir, perceber quais necessidades existiam ali. Quais eram as potências investigativas? Como estavam suas naturezas agora? Gandhy Piorski fala lindamente sobre a natureza das coisas e das pessoas, sobre perceber e respeitar as naturezas.

Esse movimento não é solitário, principalmente quando visto pelos olhos da atelierista que lida com os tempos e os espaços de maneira diferente da professora de arte. A atelierista também conta com a partilha da professora da turma, aquela que chamam de regente e polivamente. Essas duas, elas e eu, trabalhamos em conjunto no lugar do ateliê e da atelierista vivos em uma escola. Assim, depois de muitas conversas, decidimos que levar a possibilidade do encontro com materialidades e seus desdobramentos seria muito luminoso para as turmas de infantil 4. E, a partir de tudo que contei até aqui, que é o corpo de como me senti no percurso da pandêmia frente ao ensino virtual, a ideia: propor um MANUAL DE COISAS QUE FAZEM COISAS seria nossa viagem sem tempo determinado. Simples assim, como suscita Lécuyer sobre filósofos antigos que enumeravam propriedades que se encontram no ser das coisas.

Aqui, neste possível caminho de pesquisa, as crianças foram convidadas a investigar as possibilidades de ação e as características de coisas do mundo. Naturais ou artificiais. O interessante é que apenas coisas artificiais foram trazidas. Será que para as crianças a palavra coisa está distante de natural? Fica para pensarmos... Fato é que na caminhada de encontrarem em casa coisas que fazem coisas e contarem o que as coisas faziam, como girar, ajudar a perceber o passar do tempo, riscar, iluminar e fazer sons, foi possível desenhar caminhos de pensamentos estéticos usando apenas a disposição e o envolvimento de cada criança e suas famílias, principalmente.

Os encontros ao vivo sempre mais promissores que vídeo aulas ou proposições, deixadas como roteiros nas plataformas digitais, a escola virtual. Grande adesão? Não. Adesão de qualidade. As famílias e crianças que resolvem se lançar a participar do percurso fazem com maestria e a proposta é compartilhada o tempo todo. Um manual de fato está em processo de montagem por mim, com registros das crianças – fotos, falas, vídeos, descobertas – para que possam ser partilhados no final da viagem.

Vale contar que tudo começa, no meu caso, com uma mala das artes, cheia de possibilidades em formas de coisas que contam histórias. Nutrições estéticas de diferentes linguagens dão o tom do trabalho.

Uma das etapas deste projeto foi contada em uma live do Instituto Arte na Escola, em um conversa sobre "O som das coisas: Um olhar para a primeira infância", na qual a ideia de buscar em casa coisas que fazem sons, experimentar estes sons livremente, caracterizar estes sons, experimentar organizar estes sons, montar células rítimicas, aconteceu e sempre brincando. Está bonito ver e registrar os encontros das crianças com as possibilidades visuais que as coisas trazem para elas. Uma cadeira que marca o tempo, um peão que desenha, uma luz que dança. Materialidade e aproximação de linguagens vivas no espaço pedagógico motor. Um motor invisível que de remoto só tem a distancia física porque estas adversidades pelas quais estamos passando acabou por nos aproximar ainda mais. Equipe Pedagógica, crianças e famílias.

É importante lembrarmos que é na 1ª infância que a criança inicia sua alfabetização estética e que essa é fundamental para no futuro o ser poder estar de forma poética, política e ética no mundo. Gerar subjetividades que são puro afeto, este que precisamos em demasia.

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LIVE IAE: O Som das Coisas

Durante a quarentena professores e famílias precisaram se reinventar. Em agosto de 2020, o IAE covidou a professora Julli Pop – artista-educadora e mãe de três filhas – para uma conversa sobre os desafios e possibilidades que processos de criação trazem quando acontecem dentro da casa de cada um. 

 

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