Boletim Arte na Escola

por Tomás Decina

 

“Desenhando com as coisas” e “Desenhando nas coisas” são duas propostas que enviei para as crianças do 2º ano em março de 2020, no início da quarentena. A pandemia do coronavírus chegou de surpresa, com ela veio o distanciamento social e uma série de desafios. Eu como professor de Artes precisei reinventar minhas abordagens. As aulas eram gravadas em casa e enviadas por e-mail. Me empenhei muito nos vídeos... fui descobrindo como fazê-los (justo eu, que nunca fui de entender muito bem os tutoriais. Me empolguei com o novo aprendizado. Fui seduzido pela tecnologia. Improvisei um tripé pro celular, ajeitei o espaço na sala de casa, verifiquei a iluminação, gravei, errei, gravei de novo, e de novo, editei, usei uma música, joguei um efeito ali, outro aqui, coloquei título inicial e mandei. Coração na boca, como quem lança uma mensagem ao mar, dentro de uma garrafa...

Vivi a angústia de esperar que a mensagem chegasse em alguém. Não me refiro ao lugar físico, porque isso estava garantido, os e-mails não paravam de correr entre familiares, professores, coordenação... toda a comunidade escolar. Minha ansiedade era por chegar nas crianças, no brilho do olho, na curiosidade que se manifesta. Em casa, isolado, eu aguardava um retorno de quem talvez recebesse, talvez se interessasse em fazer a atividade, talvez registrasse para me enviar de volta. Nossa!!! Quantos obstáculos.

Mas algo deu certo no meio disso tudo e os trabalhos das crianças começaram a chegar. De dentro de suas casas, também isolados, elas compartilharam comigo o desafio de fazer a atividade em meio ao caos da pandemia. Desenharam com as coisas espalhando seus objetos pela casa, alinhando brinquedos e pecinhas, às vezes formando figuras, às vezes definindo um trajeto livre que começa no chão do quarto e invade a sala. Foi fascinante ver o empenho de cada um, a busca que foi empreendida no espaço de casa para a brincadeira de desenhar. Os trabalhos traziam também uma boa dose de introspecção. Longe da influência dos colegas, do zum zum zum da sala de aula, assustados com a nova rotina que se impôs, fechadas em casa as crianças vivenciaram um grau de concentração especial diante do ato de criação. É emocionante ver o envolvimento delas e das famílias. Soma-se a isso que o trabalho enviado já é registro, portanto, já é nostálgico. A gente fica tão feliz quando vê a autonomia! Mas onde foi que o traço aconteceu? Quando a ideia brilhou? Como foi a escolha das cores? Que conversas surgiram em torno daqueles desenhos? Nos e-mails, apenas os indícios de como tudo aconteceu. Assim demos os primeiros passos, cada criança à sua maneira, cada casa à sua maneira. Caminho eu também nesse processo nebuloso, sem um ponto nítido de chegada.

                                                                                                                                                                           Professor Tomás Decina

Depois dos primeiros trabalhos, a comunicação começou a se instaurar. Povoamos esse oceano pra além das nossas janelas com milhares de garrafas, lançadas todos os dias, por mais revolto que estivesse o mar. Ondas gigantes em dias chuvosos ou ensolarados, todos iguais. A política revirando as marés. A escola semana a semana buscando exaustivamente as novas possibilidades de interação através da tecnologia. Plataformas, aplicativos, drives compartilhados. Todo dia uma novidade. Os trabalhos deixaram de chegar por e-mail e passaram a ser postados pelas próprias crianças em uma plataforma comum de acesso restrito à turma. Era uma forma delas verem também as criações dos colegas, deixarem um comentário, dar likes, acompanharem junto comigo o que estava sendo criado.

Agora temos videoconferências semanais. Todo o esquema mudou, há uma frequência e prontidão das aulas síncronas que me colocam de novo a necessidade de descobrir estratégias, combinando o envio dos vídeos com os momentos juntos diante da tela. As aulas síncronas e assíncronas - uma amiga me explicou no grupo de whatsapp, nunca tinha ouvido falar desse termo.

No momento estou investigando construções em papel. Cada ponto é um universo que se abre: origami, livros pop-up, animações de recortes, exercícios livres de design. Muitas são as possibilidades de estruturar e modelar o papel. A pergunta inicial lançada às crianças do 4º e 5º ano foi: como fazer para o papel parar de pé? Fiz um vídeo, busquei ser objetivo o suficiente para propor a atividade como um experimento. Qualquer demonstração um pouco mais exagerada tiraria a intenção de que os alunos e alunas descobrissem suas próprias formas. Agora penso em como transformar isso em um projeto para o semestre, certamente um encerramento de ano longe da escola. Estamos todos isolados em casa, o papel me parece um material relativamente acessível. Um material interessante de ressignificar, justamente por seu uso tão corriqueiro e tão maravilhoso: folha sulfite, papelão de embalagens, papel colorido, material que pode ser recortado, dobrado, perfurado, remodelado e ainda assim oferece superfície para riscar. Na tarefa de expandir o espaço do desenho, desenharemos no papel que se ergue da mesa e se torna escultura.

As construções de papel me encantam. Mas ideias me custam a chegar. Vejo muita coisa, passo horas na frente do computador. Me interesso e me desinteresso pelas coisas num fluxo confuso. É o isolamento pesando sobre os ombros. Estou mirando na possibilidade do projeto Cidade de Papel. Digo “mirando” porque no momento pra mim, tudo é incerteza. Pensar um projeto é uma aposta. Conheceríamos algumas técnicas, levantaríamos o que tem na cidade, cada criança construiria uma parte. Nas aulas de videoconferência eu acompanharia as produções, ajudaria a execução à distância. Então, recolheríamos os trabalhos enviados à escola dentro de caixas de sapato, que ficariam quinze dias em repouso para que eu e o professor assistente mexêssemos com segurança nas peças para montarmos uma grande maquete. Edifícios e automóveis distribuído por ruas e praças com as árvores da Bia para os pedestres do Gabriel passearem com os cachorros do Pedro na frente da escola da Fernanda com uma quadra e piscina feitas pela Stella. Tudo muito bem colado, bem recortado, bem pintado. Ficou lindo na minha imaginação! Vocês precisavam ver... Pena que foi ontem! Hoje a ideia acorda opaca, com aquela boa camada de realidade que tira o brilho das coisas. Então me pergunto: será que teremos fôlego pra tanto? Será que a pandemia permite um plano tão mirabolante? Será que a pandemia nos permite traçar algum plano? Como prever o andamento das aulas nesse maremoto? Aonde foi parar o espaço da escola no imaginário das crianças? E no meu?

Coordenadoras e colegas de licença médica. Será que as crianças terão autonomia para montar tudo? Temos envolvimento para firmar esse compromisso? As famílias suportarão tanto papel picado e fita crepe pela casa? Teremos saúde física, mental e espiritual para manter a imaginação viva? Não tenho respostas. Recolho os planos e tento manter os olhos atentos ao que se revela aos poucos nos trabalhos das crianças, nas garrafas que chegaram na minha praia. Fazer uma boa conversa a partir do que elas criam me parece o único trabalho plausível. Respirar a cada dia e seguir buscando perceber o que faz sentido neste momento inédito.

Em um relato como este, não posso deixar de falar da importância das amizades (colegas, amigos, comparsas, colocarei todos juntos aqui, afinal já anda difícil demais definir as coisas nessa nova etiqueta social). Foi nas amizades que busquei (e ainda busco) a energia para criar em meio ao medo e ao estado de incertezas. Salas de zoom e grupos de whatsapp se reverteram também em espaço de acolhimento para nós, os adultos. Conversamos o tempo todo, compartilhamos ideias, desabafamos angústias. Tenho aprendido muito. E quando as ideias me fogem e não sei o que fazer, recorro aos amigos. De todos os privilégios que reconheço ter, bom equipamento, espaço em casa, acesso à informação, o maior deles é estar em uma escola que não perdeu de vista a importância do acolhimento e da escuta, inclusive nas relações de trabalho. Tenho a sorte de estar em um lugar onde existe essa parceria entre as pessoas. Movimentar com as crianças esse espaço tão íntimo da criatividade, requer também ser movimentado com carinho, afeto e respeito. Seguimos juntos.

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LIVE IAE: Desenhando com as coisas

A pandemia demandou dos professores grandes reinvenções. Em Julho de 2020, o IAE convidou o professor Tomás Decina – ator e professor de Artes do Fundamental 1 – para uma Live em que ele conversou sobre os projetos que desenvolve a distância com os alunos, usando a linguagem do desenho. 

 

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