Boletim Arte na Escola

 

Imaginar outras formas de conviver e cogitar outras realidades possíveis são processos importantes que a Arte estimula ao longo da educação de crianças, jovens e adultos. A Arte problematiza as questões contemporâneas, ela cria um deslocamento que nos faz enxergar a nossa história e o nosso mundo com um olhar mais sensível e aguçado. Quando escolas valorizam e integram as linguagens artísticas dentro dos processos educativos - pensadas como uma dimensão própria do saber - muitas competências importantes são acionadas.

Foi justamente para discutir o papel estruturante da Arte dentro do contexto educativo que o Instituto Arte na Escola convidou um dos maiores nomes da cultura popular brasileira para uma conversa ao vivo, no dia 15 de outubro de 2020 – celebrando o dia dos professores com uma discussão emocionante. O músico Gilberto Gil esteve neste encontro, acompanhado ao vivo por milhares de professores do Brasil inteiro, compartilhando pensamentos inspirados (e inspiradores) sobre o por quê da Arte na educação. Já para começo de conversa, as Artes estão associadas ao campo mais amplo da nossa subjetividade. “A Arte é um aspecto inerente da condição humana, no sentido do desejo de aprofundamento, de conhecimento e de envolvimento com a vida. A Arte envolve as pessoas com a vida, com situações amplas de descrição, de narrativa, de esclarecimento sobre o mundo. A Arte trabalha com a realidade, trabalha com o sonho, trabalha com a verdade, trabalha com a mentira, trabalha com todas as coisas da vida. Então há muito ensinamento na Arte”, reflete Gil.

Mas Gil não esteve só. Quem acompanhou a conversa também teve o privilégio de ouvir e conhecer duas professoras notáveis, que realizam um trabalho transformador nas escolas onde lecionam, em Lauro de Freitas/BA: Fátima Santana e Rosângela Accioly. Ambas as professoras já foram premiadas em edições passadas do Prêmio Arte na Escola Cidadã, com projetos que conduziram com muita sabedoria e delicadeza o tema da Educação Antirracista.

Este tema foi também o motor da conversa entre as professoras e Gilberto Gil. Se a Arte é fundamental na escola, o lugar da Educação Antirracista é tão estruturante quanto, ela deve estar conectada com o currículo escolar em todos os momentos. Conta a professora Rosângela que para desenvolver o seu projeto com a turma de Ensino Fundamental 1, ela teve que fazer uma viagem para dentro de si mesma, reconhecer-se enquanto mulher negra. “Foi um mergulho. Esse projeto durou um ano. Foi um ano de trabalho a partir da Lei 10.639, que é a lei que diz que nós educadores precisamos trabalhar o patrimônio civilizatório africano e africano-brasileiro durante o processo curricular. Ele não pode entrar como um tema transversal, como um tema que visita o currículo. Não, ele faz parte do currículo do dia-a-dia da escola. E esse é o desafio dos professores, desde 2003 até agora: transformar os conteúdos que falam dos povos africanos e africano-brasileiros de uma forma cotidiana, e não somente no dia da consciência negra ou em um dia de comemoração.”

Mas no Brasil, a pedagogia e o censo pedagógico é indiscutivelmente eurocentrado. É fato que a construção de uma nova escola brasileira existe e não é um processo que começa agora, ele já vem de longe. A professora Fátima e a professora Rosângela não são senão exemplos incansáveis deste movimento, mas ainda há um longo caminho a se percorrer. Introduzir as crianças desde pequenas em uma perspectiva do autoconhecimento – conhecer a si, à sua família, suas origens, seus corpos – foi a forma que as duas professoras encontraram em seus projetos para desenvolver com os alunos uma percepção positiva (e propositiva) da identidade afro-brasileira.

Gilberto Gil fala da escola brasileira como uma escola fundada basicamente pelo colonizador português e seus arquétipos. “A escola brasileira foi feita para reproduzir a escola europeia. O significado de lustração, de aprimoramento, de desenvolvimento humano, tudo isso estava ligado aos modelos europeus. Não é à toa que eles vieram para cá impor um processo de civilização, com a imposição de uma religiosidade própria, com uma visão de sistema social próprio, com suas divisões de classes, de castas. Então, a escola brasileira tem sido, ao longo de todo o tempo (evidentemente, ressalvados os momentos de novas inflexões) mas ela tem sido feita para reproduzir este sistema. A pedagogia brasileira precisa se ‘brasilificar’, se tornar brasileira, assumir uma nação que nasce de um segundo momento, de um estágio avançado (o mais avançado possível), de uma civilização que teve a sua base na Europa, mas que já não precisa mais ter uma base aqui no Brasil. O Brasil é uma nação do novo mundo, uma nação da nova humanidade. Temos aqui a gestação de novos processos do ponto de vista humano, em todos os sentidos, do ponto de vista físico, mental e espiritual. O Brasil é uma outra nação e a escola brasileira tem que ser uma escola desta nação. O Brasil tem que seguir o seu destino novo. Seu destino de herdeiro. Herdeiro ao mesmo tempo da Europa como herdeiro da África, da Índia, do mundo todo. Dos indígenas, autóctones, daqui, que têm um papel importantíssimo na formação do corpo e da alma do brasileiro. É preciso que as escolas ensinem a verdade sobre o Brasil.”

E nesta nova escola brasileira – que se olha no espelho e vê sua brasilidade plural e inteira – será preciso “nos desvencilharmos da aparente divisão que é imposta entre escola, ensinamentos e Arte” pondera Gil. “A Arte é uma forma de ensinar, obviamente. Assim como o ensino tem que ser uma forma de Arte, como a política tem que ser uma forma de Arte, como a técnica e a ciência têm que ser formas de Arte, elas têm que construir os vasos mais perfeitos possíveis. A Arte tem que fazer a escultura no molde daquilo que é mais humano e daquilo que é mais natural, daquilo que unifica mais inteiramente e intensamente o homem e a natureza que lhe cerca. Essa é a função da Arte e a função da ciência, é a função da técnica, função da palavra, da poesia, é a função do discurso. É a função da oração”.

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