Arte flamenga

Arte que floresceu entre os séculos XV e XVII, na região que compreende o norte da Bélgica e Países Baixos. Suas características principais são a cultura visual fundamentada em tradições que privilegiam a observação atenta do mundo natural e a valorização da superfície material da imagem.

Ecossistemas

Conjunto formado por todas as comunidades que vivem e interagem em determinada região.

Figurativa

Que nos remete à semelhança de objetos existentes no mundo.

Pinturas de gênero

Desenvolveu-se em meio ao florescimento do barroco na Europa católica (século XVII) nos Países Baixos, sobretudo nos Países Baixos do Norte (a porção que hoje corresponde à Holanda). Trata-se de um estilo sóbrio, realista, comprometido com a descrição de cenas rotineiras, temas da vida diária, como homens dedicados ao seu ofício, mulheres cuidando dos afazeres domésticos, ou até mesmo paisagens.

Tridimensionalidade

Que diz respeito ao que é tridimensional, ou seja, que tem ou dá a ilusão de largura, altura e profundidade.

Volume

Nos desenhos, gravura e pinturas são efeitos obtidos com materiais que dão a ilusão de tridimensionalidade.

De olho no artista, no Brasil e no mundo

Voltemos novamente o nosso olhar para a obra Pastoral, de Reynaldo Fonseca. Observe como o homem está representado. Seus olhos parecem ao mesmo tempo fitar o espectador e olhar para o vazio.

Embora reconheçamos todas as coisas representadas, notamos que, pelo tratamento dado pelo artista, nem o homem, nem o cachorro, nem mesmo o ambiente são cópias do real – ao contrário, tudo parece fazer parte de um estado imaginário ou de um sonho.

Sob o título Pastoral, essa obra de Reynaldo Fonseca já pode nos revelar, por meio dos elementos representados, seu interesse por temas envolvendo pessoas e animais. Não obstante, quando opta por representar figuras humanas e animais, o artista o faz de modo a provocar o olhar do espectador para algo que está além da aparência das coisas retratadas. Isso se deve, principalmente, à forma como representa as pessoas e animais e à atmosfera criada para acomodar esses elementos, como já foi dito.

Ele mesmo revela isso em entrevista em vídeo, concedida ao Diário de Pernambuco. Acesse o link abaixo e assista ao vídeo.

Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=oFoTSlPlkhs >. Acesso em: 9 maio 2011.


O título Pastoral conduz-nos a um tema pelo qual o artista direciona o nosso olhar, presente em pinturas renascentistas dos séculos XV, XVI e XVII, sobretudo nas pinturas de gênero da arte flamenga do século XVII. Entretanto, embora se constituindo por uma temática que dialoga com temas explorados nas histórias da arte, a obra de Reynaldo Fonseca se distingue destas por trazer para o campo discursivo da obra elementos que põem em dúvida a suposta clareza temática das coisas representadas.

Como aponta o crítico Roberto Pontual:"Reynaldo Fonseca concentra-se na armação de enigmas, a meio caminho entre o metafísico e o fantástico. A retomada da história da arte é realizada de forma paciente, e por vezes com uma parcela de ironia”.

(ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de artes visuais. Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_biografia&cd_verbete=3139&cd_item=2&cd_idioma=28555 >. Acesso em: 9 maio 2011)

Tanto na obra Pastoral como em outras, devido ao tratamento visual dado às imagens, o artista parece fazer questão de confundir o olhar do espectador, afastando-o e ao mesmo tempo aproximando-o do real, convidando-o à reflexão. Observe o olhar das figuras pintadas nas obras abaixo. Observe também como a construção dessas pinturas revela um estilo que fortalece a percepção desse clima enigmático do qual Roberto Pontual nos fala.

Observe outras obras do artista clicando no link abaixo.


Menina e pássaro, 1979, óleo sobre tela
http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_obras&acao=mais&inicio=1&cont_acao=1&cd_verbete=3139
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De acordo com o crítico Weydson Barros Leal:

"A percepção de sua pintura figurativa como abstração tem o seu fundamento no clima de sonho e mistério em que as ‘cenas familiares’, como ele chama seus quadros, parecem estar envolvidas. Por outro lado, um sentido de estranhamento, como resultado de figuras e animais improváveis, encontra respaldo na opinião de diversos críticos, para quem os personagens de Reynaldo Fonseca ‘são de porcelana, já morreram há muito’ (Walmir Ayala), ou, assim como seus objetos, têm ‘alguma coisa de inefável’ (José Roberto Teixeira Leite)”.

(A força da forma. In: Continente Multicultural. Recife: Cepe – Cia. Ed. de Pernambuco, n. 24, dez. 2002. Disponível em: <http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia_ic/index.cfm?fuseaction=artistas_criticas&cd_verbete=3139&cd_item=15&cd_idioma=28555>. Acesso em: 9 maio 2011).

Reynaldo Fonseca. Pastoral

Reynaldo Fonseca nasceu no Recife em 1925. Estudou na Escola de Belas Artes de Pernambuco e no Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro. Viveu entre Pernambuco, Rio de Janeiro e Europa. Desde o início da década de 1960, vive no Recife. Sua pintura Pastoral representa um jovem pastor e é uma obra aparentemente ingênua, mas pode suscitar um debate da relação histórica entre arte e natureza.

Na Grécia clássica, os poemas pastorais se situavam em paisagens rurais de rara beleza, como o lugar chamado Arcadia, que era uma espécie de Éden dos poetas e a terra de Pan, o jovem representado com uma flauta pelo pintor Reynaldo Fonseca. De Arcadia surge o nome Arcadismo. Pan é associado à música, à fertilidade e à primavera. A literatura pastoral, povoada de donzelas e figuras mitológicas femininas, tem, com certa frequência, uma delicada conotação erótica. Também as cenas de erotismo discreto são comuns na obra de Reynaldo Fonseca, que é marcado pelo pintor Balthasar Klossowski (vulgo Balthus). Na Roma antiga, Virgílio, filho de um agricultor, escreveu poemas pastorais que tratam da vida bucólica, da agricultura, dos valores de seu tempo e alguns são uma tentativa de recuperar, ainda que só no campo poético, as terras perdidas por sua família.

Na literatura e na pintura, como no caso de Reynaldo Fonseca, as paisagens pastorais apresentavam, para as populações urbanas, uma visão bucólica e idealizada do campo.No Brasil colonial foi diferente. O Arcadismo no século XVIII está associado à mineração em Minas Gerais e à transferência da capital do Vice-Reino para o Rio de Janeiro. O Arcadismo defendeu o nacionalismo e a independência. O poeta inconfidente Cláudio Manuel da Costa faz o elogio da vida bucólica nos campos nos versos: “Quem deixa o trato pastoril, amado, / Pela ingrata civil correspondência, / Ou desconhece o rosto da violência, / Ou do retiro da paz não tem provado.” A figura do pastor abandonado pela amada ou dela distante ecoa no poema Marília de Dirceu, de Tomás Antonio Gonzaga, outro poeta inconfidente. Embora seja apresentado um ambiente tranquilo representado por uma paisagem pastoral, a figura do pastor aproximava-se mais das lutas políticas do Brasil. A Conjuração Carioca ou Fluminense de 1794, que parece ter sido a mais filosófica, inaugurou uma série de revoltas pela emancipação de nosso país. A Conjuração Baiana – ou Revolta dos Alfaiates – tinha caráter popular, distinto da formação de elite na Vila Rica. A Conjuração ou Inconfiência Mineira foi a mais radical, com resultados dramáticos como o exílio de seus membros e o enforcamento de Tiradentes, o mártir de nossa independência.

No cristianismo, a palavra “pastoral” está vinculada às “epístolas pastorais” do apóstolo Paulo de Tarso. São livros do Novo Testamento que fornecem instrução para o cuidado das almas tal como pastores cuidam de suas ovelhas. Pastoral, de Reynaldo Fonseca, representa um jovem pastor com seu cajado, sua flauta e seu cachorro: os três auxiliam a cuidar das ovelhas. Os bispos levam um cajado como símbolo do compromisso pastoral. No Brasil atual, a Comissão Pastoral da Terra é uma ação cristã em favor da dignidade de posseiros, peões, índios, migrantes e todos aqueles que buscam a emancipação por meio do trabalho no campo. A Pastoral da Criança é a ação que promove o desenvolvimento integral de crianças entre zero e seis anos de idade em seu ambiente familiar e comunitário. Sua atuação é de caráter ecumênico, pois atende pessoas de todos os credos e etnias. Fundada pela médica Zilda Arns, a Pastoral da Criança baixou a mortalidade infantil no Brasil. Ela morreu em 2010 no terremoto do Haiti quando trabalhava para levar as ideias e os programas da Pastoral da Criança para aquele pobre país. Casos como o da morte de Dona Zilda indicam que terremotos não são castigos divinos. Eles são apenas fatalidades naturais, um movimento decorrente do assentamento de camadas profundas do interior da Terra. A Comissão Pastoral da Terra e a Pastoral da Criança trabalham com o princípio de que não existe equilíbrio ecológico sem justiça social na sociedade.