Forum
Luciano Buchmann

Dizem por aí que a escola e as crianças são muito benvindas nos museus, que a arte que está no museu é de todos e para todos conhecerem, que o patrimônio nos pertence...Esta frases muitas vezes mascaram uma realidade.

O museu ainda não sabe fazer parceria com as professoras,. Não sabe como receber a professora que tem objetivos, e não faz com a escola um laço para tornar mais efetivo este trabalho. O que é impressionante é que muitas vezes, escolas e museus são instituições mantidas pelos orgão públicos da educação e cultura, mas nunca sentam para acertar uma parceria. Cada um em seu banquinho, considerando o outro importante, e esperando o convite ou o pedido a ele.

Em meio a este tiroteio estão as professoras de arte. Como a arte nunca está na escola, e sempre no museu, o ideal seria a visita frequente ao museu. Infelizmente é muito difícil. E são muitas dificuldades difíceis. Transporte, horário, autorizações, etc

A outra coisa que me interessa neste assunto é pensar a idéia de museu na escola, práticas que articulem memória e significação como produção artística, e que podem ser vinculadoras das instituições. 

Mirca Izabel Bonano

Caros professores

Boa Noite!

É com muito prazer que abrimos hoje um novo Fórum para discutir questões relacionadas a nossa prática de ensino em artes, dentro e fora da sala de aula.

Neste momento convidamos o Professor Luciano Buchman para mediar este espaço de discussão. Ele é Coordenador da Rede Arte na Escola, no Pólo da Faculdade de Artes do Paraná - FAP, Curitiba.

É bacharel em pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (1991) , especialista em Fundamentos Estéticos da Arte educação pela Faculdade de Artes do Paraná (2000) , mestre em Artes Visuais na linha de pesquisa Ensino da Arte pela Universidade do Estado de Santa Catarina (2007) . Estagiou no Museu da criança do Wilhelm Lembruck Museum Duisburg, Alemanha (1995) . Publicou a coleção Preparação (2001, 2005) livros paradidáticos sobre museus e artistas do paraná. Atua no magistério público do ensino superior da Faculdade de Artes do Paraná. Tem experiência na área de Artes , com ênfase em Educação Artística. Atuando principalmente nos seguintes temas: ensino da arte, educação e patrimônio.

Com uma importante atuação junto á educação patrimonial em museus e instituições culturais ele traz para o Fórum uma interessante proposta de discussão entre estes dois espaços que se "reconhecem" e se "estranham".

A Escola e o Museu, com suas metodologias e experiências podem dialogar com mais freqüência e complementaridade. Como fazer? Onde podemos encontrar as pistas?

Venha você também discutir conosco este assunto, convide seus colegas professores.

Grande Abraço,

Mirca Bonano

Instituto Arte na Escola

Betania Libanio Dantas De Araujo

Olá Luciano e Mirca

Acredito que este espaço seja muito interessante para falarmos das experiências que temos nos diversos museus e como cada um trata a mediação do estudante e professor, não é?

Antes de tudo gostaria de contar um fato curioso e que não podemos esquecer. Trabalho na prefeitura de São Paulo desde 1992 e neste ano com o ingresso de professores do último concurso, observei que um professor usava o seguinte termo para falar das professoras de uma escola estadual em que trabalha: aquelas professoras "são tudo museu", tinham que se aposentar. No mesmo momento lembrei que quando pequenos havia esta frase, que com certeza nasceu na TV, para tratar coisa velha como museu: "aquele homem é um museu". Vocês lembram? Será que pegou no Brasil inteiro?

Esta frase data um tempo em que museu era um espaço sem mediação, era pra ver e todos viam correndo, ou melhor, não viam nada. Um espaço de coisas velhas, em que ninguém sabia decerto o que aquelas madeiras e ferros velhos eram usados...

Em São Paulo passamos pela fase em que qualquer estudante poderia ser monitor. Assim, o estudante de História cansava os alunos com suas delongas de milhares d elivros sobre o momento histórico e a obra ficava lá de segundo plano.

Tivemos um marco em São paulo que foi a Mostra do Redescobrimento, cujo "Mecenas", dono do Banco Santos foi preso pelas irregularidades de movimentação das contas dos clientes. Foi a maior experiência que tivemos em São Paulo, levávamos os nossos alunos diversas vezes, foi uma exposição que reuniu os estudos de Mário Pedrosa, o escultor coordenador do Negro de Corpo e Alma, havia uma ação educativa, tínhamos ônibus, lanche, monitoria, orientação, curso...

Mas como é que os museus conseguem atuar sem políticas de financiamento? Será que precisam captar dinheiro no exterior ou será que o país investe nesta área? Por exemplo, olho a programação de cinema e vejo que hoje há muitos filmes brasileiros em cartaz, o governo federal tem investido no cinema, vemos isso olhando o jornal. E no museu?

Há museus que tem um trabalho voltado à ação educativa, formação de professores, lembrarei de alguns e se lembrarem de outros, por favor, escrevam: Museu Lasar Segall, Masp, MAC...

Betania

Hirlândia Milon Neves

Olá Luciano!

Interessante a questão e intrigante a possbilidade de resposta.

São inúmeras as questões que se sobrepõe em relação ao porque essa relação entre o museu e a escola não dialogam de forma mais contínua, no entanto quero fazer meu comentário a partir de uma perspectiva favorável.

Nesse sentido acredito que nós - integrantes da rede, coordenadores de grupos d eestudo - ainda que como gotas em oceanos temos contribuido significativamente nesse sentido. Digo isso ocnsiderando que um dos fatores em questão está na necessidade de demanda, o museu precisa de demanda, isso fomentará sua revitalização e assim por diante.

quando fomentamos em nossos colegas professores o desejo de conhecer-ver-fazer aumentamos essa rede da demanda e penso que isso possa fortalecer a relação professor-escola-museu.

Será difícil ao professor fomentar no aluno algo que ele mesmo não considere...

Personalizando a fala: colocando pela primeira vez uma pessoa que vive a 18 anos nesta cidade, dentro do Teatro Amazonas em uma visita monitora sinto a vitória de um guerreiro e uma imensa gratificação. Por um lado está o professor que se renova por outro o prédio que conta sua história e no tempo sobrevive.

Abraços!

Valdemir

Luciano Buchmann

 

            Oi Brasil, que delícia essa “conversa da Candinha” SALVE!

 

Puxa, Valdemir e Betânia já fizeram contribuições importantes e antes mesmo de eu semear aqui algumas questões. Obrigado aos dois. Deixa só eu dar essa chamada aqui e iniciamos a conversa.

Puxei esse assunto por adorar levar e ver escolas nos museus, mas sei na pele, por ter feito esta proeza muitas vezes quando professor na escola, que não é tarefa fácil.

Se os visitantes são crianças, tem interesses demais, se são adolescentes, às vezes o interesse é de menos, e nós com o dedo apontando o que nos interessa que lhes interesse, não é! Além disso, o investimento que iniciamos nessa epopéia que é uma aula externa, sempre nos faz pensar, ― será que devo?  

        Minha fada madrinha, a Mirian Celeste, diz que visitar um museu é uma “expedição é instigante”, e está certa. Mas também se trata de uma expedição digna de Indiana Jones.  

        Primeiro temos de convencer diretoras, pedagogas e colegas de que na expedição as crianças vão aprender e que é fundamental levá-los a ver arte, e ainda que para o sucesso não só as aulas deles, mas também as suas companhias são fundamentais. Depois disso, temos de disputar o ônibus com outras ações mais populares na escola tipo parque, circo, zoológico.

Por fim vêm as aulas preparatórias e a sabatinada da saída (até aqui, muitos desistem, é como a piracema, só as mais fortes desovam!). Enfim, saímos mundo afora com o filho dos outros pela mão, que responsa!

Voltamos exaustos e sem voz, tendo confiscado pacotes de chips e outras coisas que se pediu que não levassem, mas na certeza que a expedição foi um sucesso, e estávamos certos: foi importante para as crianças e para nós. Muitos nunca tinham estado lá. Acho a cidadania cultural um ideal nobre.

        Como já disse, há uma ideologia de que somos bem-vindos nos museus, e até aqueles museus que cobram o ingresso, os liberam às escolas públicas. Mas o blábláblá diz que: o museu e o que lá está, é de todos. Infelizmente, as coisas não são bem assim. A estrutura social faz com que sejam bem-vindos ao museu os que sabem o que lá dentro está (BOURDIEU,2003), e nós que estamos levando aqueles que não têm o privilégio de herdar de seus pais, a disposição para ver arte, e que também por isso, muitas vezes não percebem sentido nenhum naquilo tudo e nem motivo para se concentrar, agitam no templo por mais que os tentemos convencer de que podemos pensar outras coisas por aqueles objetos.

 

         Por conta de minha percepção sobre este assunto gostaria que conversássemos nesse dias:

 

- Sentimos segurança em falar sobre o que estamos vendo no museu com as nossas crianças?

 

- Nosso papel nessa viagem é o de educador, acompanhante de um grupo que segue o monitor, ou de censor ?

 

- Quando chegamos ao museu, com a aula preparada, querendo ver isso e não aquilo, qual a recepção que temos do museu ao sermos propositores?

 

- Qual a sensação que temos do olhar do museu sobre o nosso trabalho e nosso “público”?

 

Outras coisas importantes para pensarmos:

O que buscar no museu?

O que se aprende e se ensina no museu?

Só os museus de arte podem nos servir?

 Cidades pequenas, muitas vezes, não têm museus, e se tem, são aqueles museus que lembram loja de 1,99 (dos que eu mais gosto), e aí?

Silvia Sell Duarte Pillotto

Olá luciano e turminha;

é um prazer conversar com vocês, especialmente sobre esse tema. Penso que falta, pelo menos na maioria dos Museus uma política clara e comprometida que compreenda a mediação como forma de compartilhar experiências entre museu e escola. Infelizmente, e concordo com Luciano, ainda estamos longe disso, e, acredito que essa situação se deva a nossa grande dificuldade de trabalhar num âmbito macro, articulado e que escute a voz dos professores, das crianças, dos adolescentes, dos gestores, da comunidade, enfim. Outra questão, é a falta de diálogo entre os museus e as universidades, que poderiam e deveriam estar desenvolvendo o trabalho de mediação (monitoria), interagindo com pesquisa e extensão. Luciano, você por exemplo, poderia estar a frente desse trabalho em Curitiba, pois possui experiência, conhecimento e competência, quem sabe vocês, via FAP ou via Arte na Escola, não desenvolvem um trabalho pioneiro nessa região e posteriormente não o trazem para todos nós como referência?

Grande abraço à você e tbém aos professores, acadêmicos e gestores da FAP;

Silvia Pillotto

Betania Libanio Dantas De Araujo

Oi Luciano

Questões legais estas. Acredito que os museus devem fornecer os catálogos das exposições para todas as escolas. A exposição dos alunos também deve ser pensada com cuidado e gostaria de conhecer o pessoal da universidade que conversa sobre exposição e  curadoria para professores. Certa vez, contaram que na USP há uma turma que trabalha com os professores este princípio, que é preciso pensar na maneira como expor os trabalhos dos alunos.

A escola não está preparada para isso, é preciso usarmos a reunião pedagógica e preparar todos (funcionários e professores) par que pensem na exposição dos trabalhos dos alunos com respeito.

Até hoje, os alunos respeitam o trabalho dos colegas, quem às vezes não respeita são outros participantes da escola.

E você tem toda a razão, às vezes penso que a escola é doente. Veja só: os professores não incentivam os alunos ao ver as suas exposições, apesar de acharem maravilhosa, fiquem quietos. Num certo dia você chega na escola e toda a exposição foi retirada porque precisavam colocar cartazes de horário (às vezes penso que gostariam de saber fazer algo legal como os alunos), mas há pessoas muito legais. Certo dia, ao tirar pinturas em pedras dos meus alunos, uma inspetora sugeriu que decorássemos o jardim da escola com as pedras, que idéia sensacional. Para ir ao museu: nossa! Parece que você está cabulando aula. Não existe uma tradição aqui. Mas eu marco uma saída semestralmente.

Certa vez uma colega contou que os alunos gostaram apenas da novidade da privada que dava descarga com o pé. Não era arte contemporânea, descobriram quando foram ao banheiro (rs). Mas certamente a mnonitoria falhou. Sabemos que não há interlocução sem um trabalho anterior.

O MAC tem boas sugestões para as idas ao museu. Fazem um trabalho antes dos alunos entrarem no museu.

Vixi, museu 1.99 é difícil. Também questiono a exposição de arte contemporânea no Louvre, nesta semana. Acredito que os espaços devem ser pensados com critério. A Bienal está discutindo isso neste ano, será que a exposição contemporânea deve acontecer no espaço do museu (Ibirapuera)?

Betania Libanio Dantas De Araujo

sobre essas questões interessantes que colocou:

Sobre a liberdade de falar com as crianças sobre as obras, sinto sempre a necessidade de não ver o nome do artista e nem o título da obra. Gosto de sentir, sem saber quem foi e conversar com eles sobre essas sensações.

Quando estou numa exposição olho os meus alunos para que não façam a bagunça que fizeram aquelas crianças na Pinacoteca enquanto os ladrões fugiam com as obras (rs). Sempre fica atrás, ouvindo o que comentam e se acaso não falam ao grupo e monitor, peço que falem. Eu só faço perguntas para o monitor e todos, ao final. Quero que falem bastante.

Como disse, tem museu que está com uma monitoria avançada, com um olhar no brincar e conseguem fazer coisa smuito legais. E há museu em que a monitoria ainda é um professor-monólogo, então temos realidades distintas. Acredito que deve existir congressos de museólogos e que a mudança de perspectiva da monitoria seja um debate para eles.

O que busco no museu: outras maneiras de pensar a arte por outras materialidades. Ao ver, meus alunos e eu ativamos as sensações e saímos de lá interessados em experimentar outros maneiras de olhar uma realidade.

Acredito que não só o museu de arte pode ajudar, o Museu de Língua Portuguesa traz interação/experimentação contemporânea, às vezes vejo mais coisas lá do que no museu de arte. São concepções de espaço, sabe? O sesc também trabalha bemcom projetos de arte, gosto muito do gosto deles. Vi cada instalação maravilhosa por lá. Em São Paulo encontramos instalação na rua, então o museu não é o espaço de muitas exposições, ou melhor, instalações.

Jussara Santos Podadera De Chiara

Oi, pessoal!

Programar uma saída da escola ainda é um tabu na escola e muitas vezes o professor que se "atreve" a promovê-las é tratado com represálias; ocultas, é claro, porque o discurso oficial sempre é politicamente correto. Entendam que estou falando da minha realidade, que é na rede municipal de ensino, onde trabalho com crianças das séries iniciais do Ensino Fundamental, em uma escola que está construindo sua identidade.

Acredito que para desenvolver uma verdadeira educação estética, a Educação pede uma atuação mais aberta, com um amplo projeto educativo integrador, envolvendo diversas Secretarias, como as Secretarias Municipal e Estadual de Educação, Secretaria da Cultura, Secretaria de Esportes e Secretarias Municipal e Estadual de Transportes, funcionando em  rede e abrangendo visitas a museus, galerias, espaços culturais, circos-escola, teatros, escolas especializadas e outros espaços utilizados para manifestações culturais ou contra culturais.

Talvez a ação educativa dos museus necessite ser repensada pelos seus mentores; muitas vezes a limitação numérica de visitantes emperra uma saída na rotina escolar, quando não, chega a ser usada como justificativa para não ser autorizada pela equipe administrativa e técnica da unidade escolar. Outras possibilidades precisam existir como opção.

Na maioria das vezes as crianças nos surpreendem nessas saídas, principalmente porque não perderam a capacidade de se maravilhar com o mundo. É importante que os alunos tenham sido sensibilizados e preparados para a visitação que farão, mas concordo quando Betânia diz preferir explorar as sensações no espaço visitado, antes de ter a referência informativa. As discussões são ricas e pontos nem imaginados vêm a tona.

Por enquanto é isso aí, mais tarde falo mais.

Abraços,

Jussara

 

Jairo Larroza
O próprio conceito de "museu", associado a uma visão reducionista do papel do professor de artes ou de música, dificulta esse acesso. Vejamos as expressões "peça de museu", ou "isso deveria ir para o museu". São pejorativas. Junte isso a uma visão colonialista do "ensino de artes e ofícios" e temos uma combinação constrangedora. Em minha opinião, é preciso "reconstruir" o museu na mente do aluno, partindo de ferramentas como 1. visitas virtuais; 2. contar a história pitoresca de alguns museus; 3. convidar ou entrevistar profissionais do museu e de sua vivência. Gostei do tema. Parabéns. O Brasil merece.
Clenio Bolson
Olá Luciano. Que bom revê-lo aqui neste fórum. Você foi meu professor na pós em Cascavel em 2002/3. A questão de museu é muito sério nesse país. Quando se tem um ele está jogado as "moscas". Reforçando a idéia que somente têm coisas ultrapassadas e não muito interessante no seu interior. Então esse debate é pertinente por trazer a tona a discussão para os professores de artes que estão procurando melhor sua maneira de entender e ensinar a artes nas escolas. Deixando de lado todas as dificuldades e barreiras que temos em relação a educação de arte aqui no Brasil. Podemos sim, aproximar as escolas dos museus com uma proposta de parceria ou simplesmente agendar visitas guiadas aos museus. Tomo como exemplo minha situação não temos museus de artes na minha cidade, porém quando tem uma exposição ou salão de artes procuro conhecer as obras e artistas que estão expondo e depois levo os alunos para uma visita a essas exposições. Onde observamos, analisamos e depois conversamos sobre a exposição, obras e artístas. Isso dá trabalho e muito, mas aproveitar esses raros momentos em que os estudantes podem estar em frente de uma obra de artes é algo impar hoje em dia. Sucesso e parabéns pelo tema. Um abraço. Clenio Bolson
P.S. Quero mandar um abraço para pofessora Betânia também que está participando deste fórum.
Denise Bandeira

Ola Luciano

muito boa esta conversa na rede, estive lendo sobre as primeiras praticas de ensino com audiovisuais que surgiram nos estados unidos a partir das necessidades de preservar coleções e acervos dos pequenos museus escolares e começaram com os modelos, as  transparencias, fotomontagens, imagens que funcionavam como meios audiovisuais e, agora, chegamos as tantas midias...a contribuicao do museu para a educacao é inegavel, mas quanta burocracia, sera que ainda teremos uma politica publica que arrume??

Luciano Buchmann

 

Valdemir traz uma luz.

A visita de quem desconhece o Teatro de Manaus e lá entra pela primeira vez. Verdade, amigo. Eu lembro muito bem que menino entrei no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a idéia de um Brasil com corte e imperador fez tanto sentido naquele lugar! Nunca esqueço, era tanta lindeza que eu nunca tinha visto, queria tocar em tudo, subir em tudo. Lembro de ter feito desenhos inclusive. Eu nunca tinha ouvido outras línguas, a não ser o alemão, que lá em Santa Catarina onde cresci, era capim. Tinha gente de outros países e eu queria ouvir. Enfim, aquela tarde ficou marcada em minha infância, não como o Jequinha no Municipal,  mas como o dia que conheci o Rei.

Contei isso porque a gente nunca sabe o que está proporcionando a alguém quando lhe apresenta estas máquinas do tempo. Sempre vou agradecer a minha tia por aquele passeio. Levar crianças a locais históricos é fazê-los pensar o hoje pelo objeto do passado, é fazer dele nosso parceiro na operação de legar o Tempo, tenho certeza.

Gosto tanto deste contato que podemos propiciar que escrevi um texto sobre isso, o título é medonho, mas se quiser, entra na revista Arte&, está lá, dando sopa: BUCHMANN, Luciano. A pertinÊncia do Patrimônio Cultural Brasileiro por meio de CONTEÚDOS SIGNIFICATIVOS no ensino da arte. revista digital Art&, 2004, 02 ISNN 1806-2962. Disponívelhttp://wwwrevista.art.Br.

Como tudo o que a gente faz envelhece, hoje seria mais crítico e colocaria outros autores, mas a idéia central acho legal. Não tem museu, vamos de igreja, de praça, de porto, enfim, com o quê podemos educar para transformar a trágica falta de sentidos ao passado que vivemos?

Arrasou aí nessa canoa, heim! O boto rosa que se cuide, você merecia um Leptop! Eheheh

Um beijo

Puxa , que delícia, quanta participação! Olha a coisa é mais movimentada que achei que seria.

Obrigado a todos que já trouxeram suas idéias, vamos como Jack, por partes. Pensei em escrever um texto , quase respondendo, mas virou uma monografia, eu falo demais...então será em fascículos, tá bem!

Luciano Buchmann

Agora o fascículo da Bethania

Bethania, essa mentalidade de o Museu ser o sótão da velharia, cheirar a mofo, existe e é um M.

Duas coisas muito ricas que você traz ao baile: possibilidades de pensar o museu na escola. Expor é sem dúvida uma dessas formas. O modo como a produção e a exposição é tratada nas escolas é triste!. E isso é sério.

A escola vai à contramão do ensinar a ver. E ver o que for para ser visto e descoberto, pensado, analisado, falado, rido... O problema é como joanete, um osso. Qualquer escola de educação infantil que se visite, por exemplo, na maioria dos casos encontra todos os trabalhos das crianças a 1,70 do chão. Logicamente que é para não ser visto por quem fez, pois quem fez tem os olhinhos a 70 cm do chão. Claro que aquela exposição não é pensada como avaliação...

A escola também não sabe operar com “a memória”, pelo contrário, querendo se vestir de atual, muitas vezes panfletamos pela arte contemporânea, pelo presente, pela atualidade, sem lembrarmos que uma das coisas mais presentes nas poéticas visuais são relações à memória. As tais revisitações, apropriações.

A outra coisa que trouxe ao baile, é a questão da autonomia:  “de ver antes de ler as etiquetas”; comentado pela Jussara também. Com certeza isso é importante, temos pernas na imaginação, as crianças têm pernas e asas. É necessário ver antes de ler, e eu, acredito que a exposição toda teria de ser vista antes do monitor começar a falar. Depois que alguém fala, a gente vê as palavras dele nas coisas, também. Com certeza a fala do profissional expande nosso olhar, mas o nosso teve tempo de agir? Ouviram nossas dúvidas e surpresas, o que descobrimos afinal, se nos foi ditado tudo!

Eu com os meus alunos entrávamos nas salas dos museus, deixava-os ver “daqui até lá”, e depois trabalhava. Sempre mais perto da idéia da mediação que da monitoria. A mim, importava mais que eles falassem que ouvissem, e preferia que saíssem com dúvidas que certezas. Eu trabalhava com primeiras séries.

 Perguntei sobre que papel desempenhamos na aula externa, porque somos nós que sabemos o motivo da visita, em que aquilo que veremos tange nosso currículo, nossas ações. Também somos nós quem sabemos quem são os espetos da turma (sempre existem) e temos de ser vigilantes à ordem sim, como você coloca, mas sempre penso que quando eles estão de fato preparados, o comportamento muda. Eles não confundem pátio com museu se sabem aonde irão. Nos cabe apresentá-los a instituição e a tradição, oras!

Não é todo mundo que faz isso, não! Infelizmente. Saiba que tem escola que manda a merendeira acompanhar as crianças ao museu, e sem professora...

O que acho complicado é nós não termos a voz ativa, no museu. Eu gostava de ter o monitor para me auxiliar, não para me guiar. Eles massacram as crianças às vezes, queriam mostrar tudo, falando de tudo e as pobres almas lá, em pé. Ah, comigo não , violão. Eu é que levava a visita e trabalhava assim: lia três obras com eles, ouvindo e perguntando. Escolhia questões fundamentais na exposição para trabalhar e dar autonomia ao olhar deles. Depois, soltava a tigrada. Oh, saudades!

Valeu e obrigado pela participação!

Luciano Buchmann

Oi SILVIA, adoro esta sua foto. Vou até escrever em Laranja, CRUSH para você! Como foi o evento de avaliação aí em Joinville? Lamentei não ter ido, mas estou cheio de coisas...e atrasadas.

Você está certa, faltam políticas. A ausência das políticas não só na macro estrutura, secretarias etc., mas nos museus. Pouquíssimos museus possuem políticas educativas escritas, o que é uma recomendação da Museologia.

Se as instituições tivessem definidas quais são os seus, ou o seu público em potencial, metade do caos teria ordem. Mas se eles não conseguem definir a quem dirigirão seus esforços, como vão atender a todos? Aparentemente esta questão é só técnica, mas ela é da estrutura, recai no planejamento, nas ações, nos objetivos, nos recursos... Enfim, sobra gato e falta balaio.

 Quando pensamos em ações que envolvem as aulas externas, como visitas a museus, parques, teatros, por exemplo, é obvio que há confluência de objetivos entre as instituições da cultura e da educação e assim, seria evidente que as instituições deveriam atuar em parceria.

O que mais me impressiona nesta falta de visão é que os museus permanecem sem público. Saindo dos grandes centros, o público voluntário, como se chama aqueles que vãosem ser levados por escola ou excursão, são poucos. E estes são sempre os mesmos, aqueles favorecidos.

Creio que são as escolas que dão movimento às catracas, aos livros de visitação e às lindas justificativas dos projetos milionários que fazem. E o que as secretarias e o Estado exige, não são dados qualitativos de público, mas quantitativos, quantos visitantes de agosto a setembro é o que importa a eles. Sem as escolas aqueles números não justificariam o investimento da verba pública, isso por uma ótica administrativa. Mesmo assim, a educação nos Museus continua sendo a pulga do cachorro do bandido. O menor orçamento, a menosr participação nas decisões e nenhuma voz no conselho...

Ma há algumas experiências a trazer luz ao túnel. Aqui em Curitiba, por exemplo, está rolando uma parceria.

 É um projeto da Secretaria Municipal de Educação com a Fundação Cultural de Curitiba, o projeto creio que se chama, Museu Escola. É bem legal.

 A SME chamou algumas pessoas, que definiram obras do acervo da Prefeitura, com elas produziram um material para a escola. São muitas pranchas em cor, tem os dados da obra, inclusive a escala proporção da obra frente a uma criança. Também organizaram uma exposição de algumas destas obras, cursos aos professores, inclusive. Existe até um acerto de que a professora que visite o museu X, tem direito a solicitar que a obra Y seja exposta. Deus ajude que vingue. Vou chamar a moça que idealizou o projeto pra dar um plá pra gente.

Quanto ao projeto que você sugeriu para Curitiba, pelo Arte na Escola e a FAP, vai rolar com o pessoal da UFPR. Não para todos os museus, só para o Oscar Niemeyer (aquele que te levei para visitar na segunda, rs). Até sentamos para conversar, mas eu discordo de algumas coisas, como ter estagiários para a monitoria, por exemplo. Eu acho que tem que ser profissional, e ter o estagiário para aprender.

 Essa história de estagiário para praticar o que não recebe na teoria, é uma máquina fácil ao estado em minha opinião. Ninguém leva o filho no estagiário de médico, só na educação que arranjaram sentido a isso. Aí contratam estagiários de história, que como diz a Bethania, falam muito, disso e daquilo, e vão sempre ficar trocando e trocando, porque afinal, é estágio e temporário, sempre ficarão formando a equipe que quando está quase boa, muda, e se começa a treinar de novo. 

 Bem que eu gostaria de tocar uma experiência destas, aliás, choquei esse ovo um tempão, mas gorou na trovoada da minha boca grande (como nesses comentários, por exemplo...) 

Mas tenho certeza que Marília Diaz e Consuelo farão um bom trabalho e dividirão conosco.

Um beijão, e até Goiânia!

Luciano Buchmann

Jussara, OI!

 

        Você atua com as séries iniciais, que bom! Sabe, acho que são poucos os que se dedicam a crianças no ensino da arte, sempre fico feliz quando encontro uma parceira.

Tabu é uma boa palavra pra aulas externas, você está certa. A noção de que a escola seja o lugar para se aprender é muito curta. Quando as crianças trepam em árvores aprendem coisas da natureza, estar em outra situação, é estar em contato com muitas outras situações de aprendizagem, além das da escola.

Lembro que quando trabalhava na prefeitura, aqui em Curitiba, levava crianças dos bairros a museus, e era uma delícia. Muitas vezes as crianças nunca tinham ido ao centro da cidade, nós estávamos chegando nos bairros intermediários ao centro e eles gritavam , _ Tamo no centro! Isso se tratando de Curitiba que é pequena perto de São Paulo e outras cidades. Sair da escola é ouvir outros sons e vozes, sentir outros aromas, ver muitas coisas além da arte. São tantas coisas que estas visitas podem articular que seria merecedor de um artigo, hum... boa idéia!

Adorei sua colocação sobre as exigências que os museus fazem à escola para uma visita. De fato é de um desconhecimento sem tamanho da realidade da escola brasileira, e até um descaso. A justificativa, segundo os museus, é a qualidade do trabalho.  Mas a impressão que dá, é que estão chamando a escola particular, e daquelas que tem 20 crianças por turma, com um assistente do professor.

Você está certa, eles precisariam receber os números da realidade, 30, 35 crianças por turma. Se criam a demanda, como não tem recurso para sustentá-la? O que isso mostra é que não há planejamento dos museus, e alegarem a falta de estrutura, só comprova a tese que o museu age sempre a quem “traz tudo de casa”.

 Está certo, ponderemos, é difícil atender grupos de 48 crianças, sabemos disso e, de modo algum, queremos que o trabalho não tenha qualidade. Mas essa realidade poderia ser transformada com projetos estruturados de integração entre as instituições. Pobres separados, remediados juntos e buscando soluções.

O que mais me tira do sério é a culpa ser empurrada para a escola pelo insucesso das ações educativas nos museus. Já fui monitor em um museu, aqui no Paraná, e volta e meia, dizíamos que as escolas não procuravam o museu...Tive de sair de lá, e ver a coisa pelo lado da escola, para entender quantas loas tem de ser entoadas à professora que se aventura a ir ao museu.

 A realidade é feia, os museus enviam uma circular desconvidativa às escolas, com um ps: não ofertamos transporte, só faltava dizer:_se virem. Sem dúvida, eles precisavam repensar toda a sua ação. Parecem acreditar que as escolas, principalmente as públicas, sofrem de burocracia, e rigidez administrativa como todo órgão público.

Outra coisa legal que você traz é a surpresa que as crianças nos causam nos museus. Em outras ações externas isso também acontece. Aquelas crianças que, na escola, nos deixam atacados, que perturbam a ordem desejada para o cumprimento da missão dentro do esquematizado, quando estão fora, nos surpreendem de uma forma doida. Lembro disso, já viví. Era Rodrigo o nome do cara, parece que é uma sina do nome... mas ele era um osso duro de roer na escola e eu, como todo mercenário das galáxias que se preze, abusei do meu poder dizendo, _ Se você não se comportar não vai ao museu com a gente!

A gente sempre diz essa infame frase, em algum momento, ela escapa, e nunca com o nome de chantagem! Pois o Rodrigo cedeu aos meus caprichos e acabou indo ao museu com a 1ª B , que se chamava, Turma da Borboleta de pijama. Na entrada do ônibus, na viagem e, na descida eu me arrependi amargamente, mas na visita foi inacreditável, ele se interessava por tudo, perguntava tudo, queria contar coisas que lembrava, ao contrário daqueles bons alunos, os anjinhos, que pareciam uns pés de couve...Foi a maior lição. A minha aula era chata e previsível para ele...Nunca mais o vi do mesmo modo.

Viram professoras e professores, Museus NOS ENSINAM SOBRE NOSSOS ALUNOS. Viva ao Rodrigo que hoje tem uma agência de publicidade pela internet.

Um beijo

 

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