Forum
Ana Cristina

Debates sobre a Lei n. 11.769 são de suma importância neste momento. Cada um de nós, educadores musicais ou não, profissionais envolvidos de forma direta ou indireta com o tema devemos contribuir com discussões, seja opinando ou questionando, enfim, sendo agente ativo nesta realização.

Acredito que existem vários caminhos para que este “retorno” do ensino da música dê-se de maneira favorável. Penso que um dos caminhos, diante da urgência da lei é a formação de professores. Não necessariamente na área específica, com graduação (seria ideal), porém, analisando a nossa realidade, cursos de curta duração para professores que lecionam Arte e que, tenham afinidade com música e o desejo de entenderem esta linguagem.

Este processo pode dar-se em acordo firmado entre secretarias de educação (estaduais e municipais), educadores musicais e os professores a serem capacitados. Acordo este que determine que o professor tenha garantias de dedicação exclusiva na disciplina para que possa, efetivamente, atuar na área com tranqüilidade e executar um trabalho positivo, com bons resultados.

Este conteúdo pode ser desde a percepção do mundo sonoro até a prática musical com voz e/ou instrumentos.

Ana Cristina

Quanto a possibilidade deste ensino dar-se sem instrumentos musicais, garanto, por experiência própria, que é possível, sim. A percepção do mundo sonoro, citada anteriormente nos dá um leque de possibilidades desde criações de “cenas sonoras”, exploração de sons de diversos tipos de materiais, criação de grafias para descrever os sons das “cenas” e dos objetos. Esta “sedução musical” pode e deve acontecer em forma de jogos, desafios com muita criatividade e sempre, aproveitando o potencial de cada aluno para a realização de novas e melhores práticas musicais. Se isto pode acontecer com um simples aparelhinho de som? Com certeza!  Explorar todo o som que pudermos captar no momento da escuta: se for propaganda, tem voz falada, tem voz cantada, tem sons de instrumentos musicais? Sendo música então: quantas vozes ouvimos, quais instrumentos são executados, a que estilo musical pertence esta obra? Enfim, temos, verdadeiramente, material e muito a ser trabalhado. Precisamos organizá-lo e vivenciá-lo efetivamente.

Teresinha Tabajara Baims

Prezados Senhores  e queridos colegas.

Parabenizo em primeiro lugar o desejo de todos em introduzir o Ensino da Arte em nossas Escolas -hoje, mais do que nunca - tão carentes no Brasil e principalmente através da  música.

Dou aula desde os 19 anos de idade e este ano cessarei minhas atividades através da aposentadoria compulsória. Trabalhei sempre pelas artes visuais e sem jamais esquecer de enumerar todas as demais manifestações da arte na sua expressão máxima, aos meu alunos.

Terminarei me despedindo dos meus queridíssimos alunos com uma tristeza imensa no  coração e que transborda  através dos olhos pelas lágrimas que choro sem ver um único sonho realizado no que diz respeito às oficinas de arte tanto para as Artes Visuais quanto para espaços -salas especiais para Música. Temos em alguns casos apenas cinquenta minutos de aula e só acontece quando existem professores capacitados para este exercício.

Esta realidade é cruel demais e fere a dignidade dos professores e dos alunos.

Meus alunos mostraram ao longo dos anos um talento extraordinário pelos trabalhos apresentados e que guardo comigo até hoje muitos destes e um documentário através de muitas fotos.

Não sou apenas uma professora mas também artísta plástiva com muitos trabalhos premiados.

O que fiz foi ensinar tudo o que eu sabia com muito amor, paciência e mostrando para todos da confiança no talento e criatividade que eu sempre depositei em cada um deles.

Mais de setecentos trabalhos foram expostos numa única sala e que ficou a disposição de todos para visitação em apenas um dia: resultante de três meses de trabalho.

Tive que desmontar às pressas porque a sala deveria ser devolvida aos professores para darem prosseguimento às suas aulas.

Que mundo é esse que não existe nem sequer um salão para exibição das obras de arte dos alunos feitas com tanto amor? Alunos pobres em sua maioria e que não tinham acesso aos materiais es pecíficos. Lindas técnicas deixaram de ser colocadas em prática porque nunca existiram oficinas para se trabalhar com a liberdade exigida.

Perdoem a pergunta: Os senhores não estariam sonhando alto demais? A realidade que nos cerca é terrivel e indígna para com os professores de arte e principalmente para com nossos alunos que mostram uma riqueza infindável de talentos.  

Perdoem meu desabafo, mas não quero e não desejo para meus queridos colegas e alunos  tanto abandono e omissão dos  nossos governantes. Muitas coisas precisam urgentemente ser olhadas com o amor  e o respeito que merecemos.

Teresinha Tabajara Baims

Guilherme Romanelli

Caros colegas,

Novamente tive a boa surpresa ao ler tantos textos ótimos, com contribuições relevantes para o ensino da música.

Começarei comentando as palavras da Terezinha que muito nos inspiram. Parabéns por tantos anos dedicados ao ensino da arte! Aproveito para dizer que mesmo com sua tristeza em ter a impressão que seu trabalho não terá continuidade, em virtude de sua aposentadoria, lembre-se na transformação que você provocou nos seus alunos e nos resultados que continuarão a dar frutos por todas as suas vidas. Outro aspecto que eu gostaria de destacar é a prática cotidiana da Terezinha enquanto artista plástica, o que nos dá o belo exemplo de que todo o professor que dá aulas de arte deve experimentar regularmente a vivência em alguma linguagem artística.

O comentário da Edina nos lembrou que para dar aulas de música não é obrigatório dar aulas de instrumentos musicas. Na realidade, se ampliarmos o conceito de instrumentos musicais, incluindo a voz e o corpo, perceberemos que eles estarão presentes em todas as aulas. A multiplicidade de sons com potencial dramático que podem ser emitidos pela voz e pelo corpo é ilimitada.

O Moisés nos alerta sobre a importância do ensino da música na escola, pois esse espaço seria o único lugar onde a criança teria contato com a música. Eu entendo que normalmente as pessoas não têm contato com a música na forma tradicional que a conhecemos, como o que ocorreria em um conservatório. Entretanto, devemos lembrar que a música envolve o ser humano antes mesmo de seu nascimento e conforme diz John Blacking não há cultura humana em qualquer momento da história que não tenha um contato privilegiado com a música. Dessa forma, eu completaria a contribuição do Moisés para dizer que a escola não é o único lugar onde a criança tem contato com a música, mas certamente é o lugar onde a criança pode conhecer músicas diferentes do que está habituada a ouvir no seu cotidiano (sem fazer comparativos entre gêneros e estilos).

Uma ótima maneira de conhecer com mais proximidade a musicalidade dos alunos é certamente saber o que eles ovem, conforme nos alerta o Paulo. Isso não significa ter a necessidade de trazer para a escola o que eles já ouvem em casa, ou em suas comunidades, mas permite entender as comparações e as relações que as crianças estabelecem com a música sempre que trouxermos alguma música para a sala de aula. Esse processo ficará cada vez mais rico, se estimularmos nos nossos alunos o gosto pela descoberta musical, ou seja, a vontade de querer ouvir coisas novas.

Aproveito também para lembrar que em qualquer área de ensino, o professor deve estar permanentemente alerta para sua capacitação, como destaca a Ana Cristina. Na área da música, isso certamente inclui a capacitação didático-pedagógica para ensinar música, mas também engloba hábitos 'deliciosos' como ouvir cada vez mais música e também praticar muita música.

Para finalizar, tomo a liberdade para fazer um comentário sobre o uso de aparelhos de som em sala de aula: Diante de uma turma de tamanho médio, entre 25 e 35 alunos, se forem utilizados aparelhos de som pequenos (os tradicionais 'tatuzinhos') será muito difícil seduzir os alunos com as gravações trazidas. Reconhecendo a realidade da maior parte das escolas, onde não há aparelhos de som com boa potência e fidelidade, eu utilizo uma caixa amplificada (daquelas comuns, onde normalmente ligamos um microfone) na qual conecto o aparelhinho de som, ligando a saída de fone de ouvido do som à caixa amplificada, por meio de um cabo 'P2-P10' que pode ser encontrado em qualquer casa de produtos de áudio. Colocando-se a caixa amplificada sobre uma mesa, ou cadeira, para que todos ouçam a música com qualidade, essa idéia simples certamente possibilitará seduzir musicalmente seus alunos com muito mais profundidade.

Um grande abraços a todos,

Guilherme Romanelli

Sandra Cardoso De Oliveira Souza

Olá!

Adorei o comentários de todos, na minha opinião a música  já está inerente no ser humano, uma vez que nascemos chorando e desenvolvendo ao longo do tempo diversos tipos de sons na qual nos expressamos, manifestamos...

A "música" na educação é  extremamente necessária, uma vez que ela por si só já é muito envolvente, ela nos inspira e nos facilita a própria comunicação, e acredito que ela interage com todos os nossos sentidos, trazendo um bom desenvolvimento intelectual, mental, social...

A Música é muito ampla, ela faz parte da nossa História, da nossa cultura, etnia e muito mais, ela completa o ser humano de uma maneira totalizadora.

Acredito que o ensino da música na educação é um grande avanço...

Precisamos de professores que acredita na Música e sejam preparados  e interessados em desenvolver um bom trabalho, para que este ensino musical não seje simplificado transformando as aulas de músicas em apresentações comemorativas, leituras de notas e claves... Inibindo os alunos na sua criatividade, impossibilitando-os em vivenciar este mundo maravilhoso que é a MÚSICA.

Abraços

Maria Luceilma De Freitas Mourão
Guilherme Romanelli escreveu:

Prezados professores,

É sempre um prazer discutir a relação entre a música e a escola. A partir da promulgação da Lei 11.769, grande parte da comunidade escolar está apreensiva em desvendar como a obrigatoriedade do ensino da música ocorrerá, o que gera muitas angústias e preocupações. Por outro lado, temos uma oportunidade única de acompanhar as primeiras discussões sobre essa nova fase do ensino de música , o que promete debates fervorosos que traduzirão a paixão que temos pelo tema.

Desejamos a todos uma ótima discussão,

Guilherme Romanelli

Olá! Moro em Feijó no Acre, meu nome é Maria Luceilma de Freitas Mourão e graças às novas tecnologias na educação, há dois anos estou cursando o curso de licenciatura em Artes visuais, pela Universidade de Brasília – UNB. Curso de graduação à distância – UAB.

E não tenho duvida que é, um prazer muito grande poder participar e me comunica com os demais colegas. Há quatro anos sou professora de Artes na Escola Estadual Nanzio Magalhães e confesso que durante esses quatro anos não trabalhei com musica na escola, mesmo sendo apaixonada, pois acredito que, mesmo gostando não estou preparada, preciso saber mais para poder desenvolver juntamente como meus alunos. Gostei muito do site e de todos os comentários sobre esse maravilhoso tema, o qual preciso sabe mais, isso sem fala na lei nº. 11.769, de 2008, pois  não conheço a mesma. Conto com o apoio de todos.        

 

  

Ronilson Lima De Oliveira E Silva

Olá colegas,

Gostaria de falar pouco a pouco sobre os primeiros dos vários aspectos que irão se desenrolar por todo esse fórum.

1. Concordo com o fato de que é IMPORTANTÍSSIMO, o professor de Arte (seja lá em que linguagem artística for) ter, de forma sistemática ou pelo menos esporádica, a vivência com a linguagem que ensina. No caso da música, acho fundamental sim, que o professor de Música tenha uma certa desenvoltura com algum instrumento musical e que algum instrumento musical seja objeto do ensino musical de uma escola, mesmo entendendo, como já foi dito, que o próprio corpo pode ser uma possibilidade instrumental perfeitamente possível além de criativa e inusitada. Mas não deixa de ser um instrumento musical;

2. Sobre o aspecto de se saber o que os alunos ouvem no seu cotidiano como se isso fosse crucial para o ensino de música na escola, é preciso ter muito cuidado, pois o que eles ouvem certamente é produto da indústria cultural que privilegia determinados artistas/estilos em detrimento de outros. Ou seja: grande parte das músicas que escutamos nas rádios são pagam (pelas gravadoras, obviamente) para estarem ali. Além ainda de serem músicas que, geralmente, são bastante efêmeras (vêm e vão de acordo a moda da época). Vários gêneros e estilos musicais são esquecidos porque simplesmente não são modismos atuais, causando assim uma enorme deficiência aos ouvintes (dos quais fazem parte nossos alunos) no que diz respeito ao conhecimento da (enorme) diversidade musical brasileira por aqueles que dependem das rádios para construirem seu gosto musical.

Acho, portanto, que a escola deve funcionar como uma grande rádio que divulgue os mais diferentes artistas, estilos e gêneros musicais dando aos alunos criticidade para escolherem aqueles que mais lhes convierem.

Por enquanto é só.

Um grande abraço a todos.

Ronilson Lima De Oliveira E Silva

Olá Ana Mercedes,

Sou Ronilson Lima, licenciado em Música pela UECE e professor de Arte do ensino público Estadual e Municipal de Fortaleza.

Vou sugerir alguns livros especialmente para a Ana (que pediu) e, claro,para quem mais se interessar. Espero que lhe sirva Ana.

Loureiro, Alícia Maria Almeida. O ensino de música na escola fundamental. Papirus, 2003. Esse eu acho simplesmente ESPETACULAR. A autora tem muitas abordagens bastante coerentes sobre o ensino da música.

Schafer, R. Murray. O ouvido pensante. Fundação Editora da UNESP, 1991. Esse lida mais com as experiências do autor (compositor) em aulas de música com instrumentistas além de outras abordagens, mas tem um capítulo EXCEPCIONAL que trata da EDUCAÇÃO MUSICAL sobre aspectos inclusive tratados nesse fórum como: POR QUE ENSINAR MÚSICA, O QUE DEVE SER ENSINADO, COMO A MÚSICA DEVERIA SER ENSINADA, QUEM DEVERIA ENSINAR MÚSICA.

Música, cotidiano e educação / Org Jusamara Sousa. Programa de Pós-Graduação em Música do Instituto de de Artes da UFRGS, 2000. Esse traz várias experiências e reflexões sobre o ensino da música.

Snyders, Georges. A escola pode ensinar as aleggrias da música?. São Paulo: Cortez, 1997.

Um grande abraço Ana, espero tê-la ajudado de alguma forma e SUCESSO na sua empreitada.

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