Galeria dos Professores-Artista

Bacias

Professor: Mariana Guimaraes

Escola: PUC-RJ

Formação: Mestrado em Artes e Design

Rio de Janeiro, RJ

Sobre o processo de criação


Bacias



Do latim vulgar bacinnu. Do latim : baccia: vaso para água.



Vulgar mesmo são as bacias das mulheres, esse espaço fértil, fecundo, flexível  e largo. Espaço que contém que acolhe que requebra e dá prazer.



Aloja ovário, útero. Sacro, ílio, ísquio e púbis.



Aloja a vulva e guarda o filho.



A partir de bacias, exploro as possibilidades de interferência na matéria através do bordado.  Exploro a matéria, o corpo  e o cotidiano de mulheres. Exploro  os objetos desprovidos de importância e de uma importância ímpar no dia a dia da mulher.



Meço  forças com a matéria, com a forma que é  desconfigurada de sua função. Bordo com verrume, furo plástico, espeto o dedo. Ouço o som da agulha roçando no plástico.



Transfiguro o cotidiano dos artefatos.



Debruço-me sobre uma estética da vida cotidiana, no encantamento de bacias coloridas, esse utensílio besta que espera.



Bacias coloridas, empilhadas, empoeiradas em lojas de 1,99. A espera.



A espera de um pano de prato para  clarear, a espera de um lagarto redondo para apurar de um dia para outro o tempero. Espera do legume picado que espera para ser cozido.



Essa cavidade tão cheia de si e cheia do outro. Guarda o filho e espera pelo filho por nove meses. Guarda a regra, guarda a vida.



É flexível, desdobrável, maleável. 



Essa flexibilidade e  encantamento que se faz na brecha do dia, no espaço entre.



Bordado é feito nas brechas. 



É espaço entre.



É feito mulher, feito de mulher, cheira mulher.



Entre a louça lavada secando no sol, roupa de molho na bacia  e criança dormindo, mulher borda, coze, costura meia.



Sente e ressente a falta da fala, do falo que não tem.



Nas brechas do dia, a mulher trapaceia o tempo.



E borda a borda e pelas bordas reinventa-se.



Transforma-se, configura-se na brecha.



Na brecha registra o tempo e deseja permanecer.



Mas só permanece na brecha, e deixa o desejo de permanecer no risco do bordado.



No avesso do pano.



Porque se permanece, feijão queima, roupa mancha,  filho chora, marido reclama.



Bordado tem hora. 



E depois ainda dizem que esse tal de bordado é delicado.



Delicado que nada, é agressivo mesmo.



Trapaceia o tempo, o espaço, os objetos e a condição feminina, inventada pelos homens.



Mulher é mesmo instintiva, flexível, primitiva e orgástica, tipo bacia.



Eu sou, e no bordado me reinvento ( antes que feijão queime).





 


Comentários Deixe o seu comentário

  • cedma, 20:57 - 26/03/2015
    Colega que trabalho interessante que nos remete e instiga para o nosso cotidiano. Parabéns. Gostei muito das falas poéticas.
  • Aparecida Donizete, 15:13 - 14/04/2015
    Muito criativo.Como fez a exposição deste trabalho?

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