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Saber ouvir o filme: o som como elemento compositivo Claudemir Ferreira
Desde sua origem, o cinema é uma linguagem audiovisual. A música, muito antes dos outros elementos sonoros como diálogos e ruídos, quase sempre acompanhou as projeções de imagens em movimento, executadas ao vivo, por um pianista ou orquestra, ou através de gravações fonográficas.
Muitos esforços foram realizados e muitas tentativas foram feitas desde a invenção do cinema na procura da integração dos elementos sonoros às imagens. Entre avanços e frustrações, somente no final dos anos vinte a sonorização, integrada à película fílmica, obteve êxito.
A gravação realizada diretamente sobre a película surgiu no filme O Cantor de Jazz (1927, Alan Crosland), gerando grandes modificações, incluindo a supressão dos acompanhamentos e o estabelecimento efetivo do cinema como uma linguagem audiovisual.
O cinema falado, sincronismo entre imagem e som, foi bem recebido pelo público, porém, os produtores e diretores de cinema ainda tiveram que lidar com alguns problemas: o barulho dos equipamentos de projeções, a inadequação dos atores e atrizes com suas vozes carregadas de sotaque nunca antes ouvidas. A adaptação dos estúdios e os investimentos em novos equipamentos foram algumas das desvantagens iniciais para sua consolidação.
Assim como outros diretores famosos, Charles Chaplin, se recusou inicialmente a aderir à novidade. Seu primeiro filme sonorizado diretamente sobre a película, Tempos Modernos (1936), a princípio era cantado. Apenas com sua obra O Grande Ditador (1940), o público teve a oportunidade de ouvir o belo discurso de seu mais famoso personagem – Carlitos.
Embora os filmes produzidos até o início da década 30 fossem mudos, muitas obras dessa primeira fase do cinema podem ser consideradas relevantes para a sua história: O Encouraçado Poteikin (1925, Sergei Eisenstein), O Garoto (1929, Charles Chaplin), O Gabinete do Dr. Caligari (1919, Robert Wine), Metrópoles (1927, Fritz Lang) e Limite (1930, Mario Peixoto), último filme mudo brasileiro, entre outros, são alguns títulos significativos de uma longa lista.
No Brasil, o filme Enquanto São Paulo Dorme (1929, Francisco Madrigano) foi o primeiro longa metragem com cenas sonorizadas e o filme Acabaram-se os Otários (1929, Luis de Barros) o primeiro inteiramente sonorizado.
O Cantor de Jazz foi o percursor da manipulação variada de combinações entre imagens e sons que deixou para trás as imagens silenciosas projetadas na tela. Os problemas técnicos foram sendo solucionados e aos poucos a forma de contar histórias com a integração de um novo elemento narrativo foi sendo aprimorada.
Sobre os componentes sonoros
Os elementos sonoros de um filme contribuem significativamente com a expressão fílmica, complementando as imagens e integrando-se à narrativa, podem ser organizados da seguinte forma: música; diálogos e ruídos.
Nos primeiros anos de sua integração com a imagem. a música se converteu num elemento expressivo responsável pela condução emocional do filme. Sua altura, duração, intensidade, timbre, melodia, harmonia e fluidez contribuem dramaticamente com a narrativa imagética, mesmo quando sua presença é mínima.
Os diálogos audíveis surgiram com a possibilidade de gravação do som diretamente sobre a película fílmica, já que os filmes mudos geralmente utilizavam letreiros indicativos como frases e passagens narrativas, as cenas eram intercaladas com intertítulos que sugeriam a continuidade narrativa e fechavam as elipses entre uma seqüência e outra. Os diálogos são responsáveis pela verbalização entre os personagens e pela condução narrativa da história. Geralmente, integrados às imagens em pós-produção, permitem que os atores recuperem suas performances em estúdios e possibilitam a utilização de vozes mais adequadas aos personagens.
Os ruídos são componentes sonoros que simulam no cinema uma realidade acústica, podendo assumir a forma de paisagem sonora, configuram com certa naturalidade o material sonoro referente a qualquer porção do ambiente acústico ou todo som que nos rodeia, incluindo, também, o silêncio, tais como: passos de um personagem, o ranger de uma porta, o barulho de motor de um carro, máquinas, o disparo de um revolver, apitos, diálogos, musicas internas, entre tantos outros; ou efeitos sonoros, que não são equivalentes aos sons encontrados no ambiente acústico, englobando sonoridades não existentes na realidade, são produzidos ou desenhados para pontuar um aspecto visual específico.
Os componentes sonoros podem ser diegético ou não diegético. O primeiro refere-se ao universo sonoro objetivo que é perceptível aos personagens e concomitantemente aos espectadores, sua função é descrever a paisagem sonora. O som não diegético pode ser percebido apenas pelos espectadores e sua principal função é ampliar determinadas emoções e sugerir ritmo à narrativa.
Podemos perceber também componentes sonoros internos ao campo da imagem, quando a fonte sonora é visível no contexto da cena, ou fora do espaço fílmico, quando a fonte não esta presente no campo visual.
Em casos mais complexos, pode haver passsagens ou integração entre sons diegeticos e não diegéticos, dentro ou fora do espaço fílmico.
O cinema é uma linguagem potencialmente visual, mas os elementos sonoros não são subordinados a imagem, pois interagem mutuamente. Mesmo com suas particularidades de expressão um componente não exclui o outro.
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