Artista & Obra

Eldorado

As ideias vêm de uma camada fininha e transparente que paira por sobre as cabeças, não só dos artistas, cientistas e filósofos, como também de todas as pessoas do planeta. Esta diminuta espessura, invisível, é formada por uma combinação de senso comum com inconsciente coletivo, subjetividades e sonhos, mas é sobretudo composta por desejos. O desejo está na base da criação. (Leda Catunda. De onde vêm as ideias. 2018.)

O desejo de encontrar El Dorado, uma mítica cidade de ouro perdida na selva sul-americana, levou muitos conquistadores a se aventurarem, inutilmente, por florestas e montanhas.
Mas o mito original do povo Muísca, que habita a região central da Colômbia desde 800 DC, conta outra história. Para eles, El Dorado não era um lugar, mas um líder que se cobria de ouro em pó, da cabeça aos pés, para então se banhar em um lago sagrado e oferecer aos deuses objetos preciosos.

Ao longo do tempo, a história de El Dorado foi sendo transformada pelos conquistadores europeus, para dar origem ao mito de uma cidade cheia de tesouros materiais. Mas o poder do ouro na lenda muísca era, enfim, espiritual. O ouro conectava o homem com o divino, trazia equilíbrio e harmonia ao mundo.

A obra Eldorado, de Leda Catunda, nasce deste mito, do desejo de abundância para todos, das utopias materiais e sagradas, do romance que criamos com a vida quando idealizamos uma realidade paralela. A obra vai de encontro ao momento de forte instabilidade política e social que vivemos hoje, em que nos pegamos sempre desejando algo melhor.

Ficha técnica

Acrílica sobre tela, voile e plástico
287 x 472 cm
2018

Leda Catunda (São Paulo/SP - 1961)

Pintora e gravadora, Leda Catunda começou a carreira ainda durante a faculdade – na Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP) – ganhando visibilidade nacional após sua participação na mostra Geração 80, como vai você?

Entre as centenas de mostras nacionais e internacionais que pontuaram sua trajetória, Leda marcou presença em quatro edições da Bienal de Artes de São Paulo – 1983, 1985, 1994 e mais recentemente em 2018, expondo seus trabalhos da série Eldorado.

Espessura é um conceito que interessa à artista. Em seus trabalhos, as informações que vêm da textura apelam para uma memória tátil. Leda provoca o olhar do observador e desperta a curiosidade de tocar nas obras para sentir as várias combinações de materiais.

Pinturas, na tradição, são bidimensionais, têm altura e largura. Mas Leda insere volume. Entre os limites da pintura e do objeto, do bi e do tridimensional, está uma materialidade familiar e forte.