Relatos de Experiência

Os Relatos de Experiência são de responsabilidade de seus respectivos autores. O Instituto Arte na Escola propõe sua leitura como fonte de pesquisa para o professor.

O projeto Cadernos de Artista e os registros em sala de aula

A questão da homogeneização do conhecimento na vida escolar sempre me incomodou. Será que todos precisam ter o mesmo tipo de comportamento, terminar as tarefas ao mesmo tempo, dar as mesmas respostas? Muitas das situações que vivemos no ambiente escolar — por vezes violentas — são fruto da impossibilidade do sujeito de exercitar seus desejos, necessidades e ideias.

A criação do projeto Cadernos de Artista, desenvolvido com os alunos do 7º ano da EMEF Carlos de Andrade Rizzini, em São Paulo (SP), foi uma resposta à questão do uso nas aulas de artes, tanto pelos professores quanto pelos alunos, de materiais prontos, como livros, apostilas e exercícios, oferecendo pouco espaço para a autoria das crianças.

Os cadernos de artista fazem parte da história da arte, sendo um objeto autobiográfico, um documento histórico-cultural de grande valor para avaliações e pesquisas posteriores. Sempre admirei o potencial dessa ferramenta de trabalho e, desde que ingressei na graduação em Arte na universidade, produzo os meus. Isso me motivou a transformar os cadernos em elemento de pesquisa no dia a dia da escola e em tema para a minha dissertação de mestrado. O uso desse instrumento na sala de aula possibilita ao arte-educador uma reconciliação com a práxis criadora e uma reflexão preciosa sobre a aula e as dificuldades cotidianas.

O trabalho com as crianças era uma oportunidade única de trazer minha experiência pessoal como artista para as atividades de sala de aula. Desde o início do projeto, meu objetivo foi criar um ambiente favorável para que os alunos se sentissem autores da própria obra, tivessem autonomia no processo de criação e desenvolvessem o olhar estético e crítico, além de acompanhar e analisar a evolução das próprias criações. Como todo caderno de artista, também seria um lugar para guardar não somente os trabalhos relativos à escola, mas igualmente as produções pessoais, ou seja, tudo o que a criança considera mais precioso, estabelecendo uma relação de intimidade e cumplicidade com o caderno.

A construção do caderno

Para guiar o desenvolvimento dos trabalhos e entender como os alunos se apropriariam dessa ferramenta durante o processo de aprendizagem, fiz uma lista de questionamentos para serem respondidos ao longo do projeto: o que eles desenham? O que eles escrevem? Qual a função do caderno na aula de arte? Ele contribui para a construção da aula e para a construção do conhecimento em arte? Como pode interferir na formação estética dessas crianças? Com muitas perguntas em mente, apresentei a atividade para os alunos, dando a opção de produzirem o próprio caderno artesanalmente ou de o comprarem pronto. Para
minha surpresa, a classe preferiu confeccioná-lo, o que foi perfeito para estabelecer um vínculo emocional e afetivo com o caderno desde o início.

Precisei dar algumas diretrizes para a produção do caderno, mas sempre oferecendo um leque de opções, como sugestões de formato, tipos de papéis, cores, texturas, tecidos das capas, com o intuito de incentivar os alunos a fazerem as próprias escolhas. A confecção do caderno durou exatamente cinco aulas. Em uma turma de 29 alunos, oito terminaram na terceira aula, outros levaram mais tempo e alguns nem sequer finalizaram, ou porque perderam o miolo, ou porque faltaram às aulas. Nesses casos, acabaram comprando um caderno pronto.

Quem terminava primeiro ajudava os colegas a concluir, o que contribuiu para intensificar a relação de coletividade e solidariedade do grupo. Também ficou evidente o tempo de aprender e ensinar de cada aluno. Enquanto alguns escutavam minhas orientações e já as colocavam em prática, outros precisavam de mais atenção, que eu me sentasse ao lado para mostrar como pegar na agulha, por exemplo, incentivando-os a seguir com a atividade. Nesse momento, percebi o quanto o olhar atento do professor humaniza as relações de aprendizagem.

Referência artística

Antes de iniciar o trabalho com os cadernos, apresentei os registros de alguns artistas: O Diário de Frida Kahlo: uma produção íntima, Noa Noa, de Paul Gauguin, e o Diário Gráfico, diário virtual do artista e educador português Eduardo Salavisa. Também mostrei os meus próprios cadernos e, mesmo considerando a indiscutível qualidade estética do material de artistas renomados, minha produção pessoal despertou a curiosidade dos alunos. Foi um momento significativo da relação aluno-professor, pois foi a primeira vez, mesmo tendo sido professora deles em anos anteriores, que tiveram contato com a minha produção artística. Mostrar esse lado humano, diferente da faceta de professora, fortaleceu os nossos laços afetivos e foi essencial para o desenvolvimento da atividade proposta.

Na aula seguinte, apresentei referências de registro verbal e não verbal, trabalhando com livros-imagem. Fizemos a leitura da trilogia Espelho, Onda e Sombra, de Suzy Lee, e durante o semestre continuamos a trabalhar com outros livros-imagem, lidos ora por mim, ora pelos alunos. A partir desse momento, deixei livre a utilização do caderno, reforçando que eles podiam usar o espaço para criação e reflexão. Combinamos algumas datas para socializarem os registros.

Desde então, segui com o planejamento normal das aulas. Em determinado momento, vi que a produção das crianças no caderno não estava evoluindo como eu havia imaginado, sendo preciso incentivar o uso dessa ferramenta. Alguns alunos faziam registros poéticos sobre a reflexão da aula de arte com frequência, outros esporadicamente e alguns nunca faziam. O curioso foi constatar que quem primeiro abandonou a produção foram os alunos que compraram os seus cadernos.

Conforme cresceu o envolvimento, por conta das minhas intervenções com a apresentação de novas referências artísticas, outros estudantes foram progressivamente aderindo ao registro no caderno e passaram a mostrá-lo para os colegas. Percebi o quanto alguns se orgulhavam de sua produção. A qualidade das produções também variava bastante, o que serviu para reforçar a questão da poética pessoal. Algumas produções destacavam-se técnica ou expressivamente, mas sempre valorizei a todos, justamente para problematizar o mito de que só existe uma única maneira de se expressar, inspirada pelo preciosismo técnico, discurso muitas vezes reproduzido pelos adultos.

Execução e resultados práticos

Ao iniciar os cadernos, já havia uma expectativa em relação aos resultados do projeto, embora tenham surgido várias questões que eu não havia imaginado. A primeira foi a contribuição dos registros para eu refletir sobre a minha própria aula. Por meio do caderno, via quais atividades surtiam mais efeito e quais precisavam ser reforçadas. O projeto também serviu para que eu encontrasse temáticas para trabalhar em sala de aula. Por exemplo, a grande quantidade de desenhos do Pikachu revelou o interesse da turma por anime. A maciça reprodução de logomarcas de grifes abriu espaço para falar sobre a sociedade de consumo. Também tinham presença constante os logos de bandas de pop rock e de seriados da Disney.

Outro dado importante foi a postura de pesquisador assumida por alguns alunos, buscando por conta própria referências relacionadas aos assuntos abordados em sala. Logo após o estudo do Cubismo, apareceram retratadas obras que eu não tinha apresentado a eles. Conforme o interesse pelo caderno foi aumentando, percebi o estabelecimento de uma relação cognitiva e afetiva dos alunos com o projeto e com as próprias obras. No começo, muitos deles copiavam o trabalho dos colegas, e havia comentários sobre quem era melhor. Com o tempo isso acabou, pois todas as produções tinham espaço para se materializar e eram respeitadas.

A reprodução de poemas e trechos de músicas marcou presença, agregando outras formas artísticas. Alguns alunos passaram a utilizar o espaço como diário, descrevendo desde situações de conflito vivenciadas em casa até passeios e festas que frequentavam. Cabe ainda registrar o caso de um aluno que nunca falava em sala de aula e passou a usar o caderno para se comunicar comigo. Quase todo trabalho tinha uma mensagem endereçada a mim, contando o que ele sentiu ao fazer cada atividade, o que me mostrou que o caderno também pode funcionar como um espaço de diálogo.

Os alunos ficaram impressionados com a própria evolução ao comparar os primeiros registros com os do final do caderno. Considero esse um dos grandes potenciais dessa ferramenta, pois é possível observar o desenvolvimento da produção artística. Diferentemente de um portfólio, em que se escolhe o que entra e o que sai e se valoriza apenas o produto final, o caderno de artista enaltece o processo, já que o desenho, a citação ou a colagem feita em cada página não podem mais ser retirados, facilitando a percepção individual de onde se saiu e até onde se chegou.

Avaliação

Como fechamento do projeto, escrevi uma mensagem no caderno de artista de cada um dos alunos. A avaliação foi baseada no processo de criação individual, e não no produto final. A atividade acabou envolvendo as famílias, ainda que não fosse essa a intenção inicial: alguns pais passaram a fazer seus próprios registros, outros ganharam de presente cadernos criados pelos alunos.

Já tive a oportunidade de aplicar o mesmo projeto no ensino médio, na educação de jovens e adultos (EJA) e inclusive na formação de professores, sempre com excelentes resultados, bastando apenas adaptar a abordagem para cada público. Os adolescentes, por exemplo, têm um envolvimento emocional maior com o caderno, usado para registrar suas preferências pessoais. Na EJA, a produção é uma descoberta de conhecimentos e valorização das experiências de vida. Para os docentes, o grande atrativo é voltar a produzir arte, visto que nas escolas o número de professores dessa área de conhecimento é pequeno e não há muito espaço para o diálogo com seus pares.

Como aprendizado pessoal, além do enriquecimento que o projeto trouxe para o meu trabalho em sala de aula, pude verificar que esse tipo de caderno não é importante apenas para o artista, mas para a formação de qualquer pessoa. Também constatei que a atividade atende perfeitamente o que definem os Parâmetros Curriculares Nacionais sobre o processo de aprendizagem em arte no ensino fundamental: “construir uma relação de autoconfiança com a produção artística pessoal e conhecimento estético, respeitando a própria produção e a dos colegas, sabendo receber e elaborar críticas”. Essas competências de sensibilidade e cognição, esperadas nessa fase escolar, foram perfeitamente desenvolvidas pelo grupo.


Clarissa Suzuki é mestre em Artes Visuais, pesquisadora do Grupo Multidisciplinar de Estudos e Pesquisa em Arte e Educação (ECA/USP) e coordenadora de projetos do Instituto Arte na Escola.


Fotos: Clarissa Suzuki

Relato publicado originalmente na Revista Pátio (Fundamental), edição 75/2015.

Referências bibliográficas

Referências bibliográficas
BARBOSA, Ana Mae. Tópicos utópicos. Belo Horizonte: C/Arte, 1998.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais : Arte / Secretaria de Educação Fundamental. – Brasília : MEC /SEF, 1998. 116 p.
COSTA, Fabíola C. B. O olho que se faz olhar: espaço estético no contexto escolar. Florianópolis: UFSC - Centro de Ciências da Educação - Núcleo de Publicações, 2013. DERDYK, Edith (Org.). Disegno. Desenho. Desígno. São Paulo: Editora Senac, 2007. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. 30. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
SÃO PAULO (Município). Secretaria Municipal de Educação. Diretoria de Orientação Técnica. Orientações curriculares e proposição de expectativas de aprendizagem para o Ensino Fundamental: ciclo II-Artes. São Paulo, 2007.
SUZUKI, C L. Cadernos de artista: páginas que revelam olhares da arte e da educação. 2014. p. 254. Tese (Mestrado) - Escola de Comunicação e Artes, Universidade de São Paulo, 2014.
VYGOTSKY, Lev S. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1987.

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  • marcia de jesus carvalho, 08:17 - 03/10/2015
    vi em um relato de uma professora de arte com uma atividade em que o aluno completa o desenho de rosto através de uma foto.Gostaria de achar essa atividade.Tem 3 anos que vi aqui no relato artebr

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