Relatos de Experiência

Os Relatos de Experiência são de responsabilidade de seus respectivos autores. O Instituto Arte na Escola propõe sua leitura como fonte de pesquisa para o professor.

Estudo sobre casas: formas de habitar a arte

O projeto “Estudo sobre casas: formas de habitar a arte” nasceu em 2010 na Escola Estadual Profa. Diva Gomes do Santos, em Mauá, periferia de São Paulo, como uma tentativa de encontrar caminhos mais significativos de ensinar e aprender arte.
Algumas questões vinham à tona, por exemplo, sobre como fazer com que os alunos tivessem experiências mais profundas em arte respeitando suas culturas, o lugar onde vivem, o que vêem, o que ouvem, o que pensam, suas maneiras peculiares de se relacionar com o mundo, sua curiosidade natural para a vida, seu contato com a natureza...

O primeiro passo foi abrir canais de escuta por meio de rodas de conversa, observação, minha presença e participação nos intervalos, nas conversas informais, na recepção das cartinhas que recebia com mensagens ou desenhos, reconhecendo interesses e descobrindo pistas que eles deixavam e que poderiam nos levar para lugares inesperados de aprendizagem, lugares que estavam ao nosso redor e cujos potenciais eram adormecidos por um planejamento verticalizado, fechado e linear.

Tudo começou em uma aula de desenho no segundo ano, quando notamos uma pequena movimentação diferente no teto. Era um marimbondo solitário que construía uma “casinha” na lâmpada de nossa sala de aula. Curiosas, as crianças não conseguiam se concentrar nos desenhos que estavam fazendo, até que um aluno perguntou:

- Professor, o que aquele bicho está fazendo ali?
Respondi que era um marimbondo e que estava construindo sua casa. E veio outra pergunta:
- Como ele a constrói? Ele faz arte?

Disse que ele construía sobrepondo uma forma chamada hexágono, mas ele (o marimbondo) não sabia disso. O que não previa é que estas perguntas seriam disparadoras de um grande projeto de estudos sobre artes, que abarcou múltiplas informações e envolveu outras disciplinas, como Biologia, Ciências, História, Matemática.

O projeto aconteceu no decorrer de um ano, e partiu do estudo das pequenas casas de insetos e animais presentes no ambiente escolar – vespas (marimbondo e outras), aranha, caracol, caramujo e ninho de passarinho. Para cada casa encontrada, desenvolvíamos uma série de atividades e pesquisas abordando diversos elementos:

• O estudo das formas, incluindo as produções de alguns artistas;
• As materialidades: do que era feita a casa e como os seres humanos se apropriam desse material para produzir arte;
• O processo de criação nos aspectos construtivos: como as casas eram construídas, traçando sempre um paralelo com a construção das obras de arte e seus elementos visuais.

Elaborei alguns planos de aula para começar a explorar a casa do marimbondo. Primeiramente, desenhei um hexágono na lousa demonstrando qual era a forma utilizada pelo inseto e como ele a agrupava pra criar sua construção. Esclareci, também, a sintaxe da palavra hexágono, sua origem grega e a paixão desta civilização pela matemática. A partir daí, fomos fazendo uma série de exercícios de desenhos e pinturas explorando essa forma, tendo como objetivo principal o desenvolvimento da percepção do equilíbrio das formas no espaço compositivo, de maneira que as crianças percebessem que não podiam desenhar as formas todas de um lado só do papel, e sim aprender a ocupar o espaço. Pesquisamos com o intuito de no cotidiano descobrir lugares e objetos com forma hexagonal: calçadas, bola de futebol, propagandas, carapaça da tartaruga e obras de arte.

No decorrer das atividades aprendemos que o material utilizado pelo marimbondo para construir sua casa era uma espécie de papel, feita a partir da mastigação de madeira velha – as crianças se surpreenderam ao saber que o papel também vem da madeira. Além das pinturas e desenhos, construímos dois trabalhos tridimensionais: uma colméia de rolinhos de papel higiênico, no interior dos quais as crianças desenharam o que tinham de mais precioso em suas vidas, fazendo referência ao mel. Suas preciosidades eram os amigos, a família, o animal de estimação.

Posteriormente, estudamos uma casinha de vespa, feita de barro, encontrada nas madeiras que compõem a estrutura do telhado do pátio. A pesquisa dessa casa se tornou muito interessante porque realizamos um trabalho com o contraste das formas refletindo sobre o material e a maneira de construir em comparação à casa do marimbondo. Aprendemos as diferenças entre as formas orgânicas e geométricas, comparando as casinhas e analisando uma série de imagens de obras de arte. Estudamos sobre o barro e como o ser humano faz uso dele para construir casas, utensílios, obras de arte etc. Ainda nesse estudo, vimos que o barro serviu como suporte para a escrita e brincamos de fazer plaquinhas de argila para escrevermos códigos inventados por nós numa tentativa de nos comunicarmos, fazendo com que as crianças compreendessem a função social da escrita.

Vale ressaltar que todo este processo aconteceu nas aulas de Arte, que potencializam certa liberdade na construção de trabalhos mais específicos de acordo com a realidade da comunidade escolar.

A casa da aranha rendeu um grande estudo sobre as linhas e suas diferentes formas: verticais, horizontais, diagonais, onduladas, fortes, fracas; e as sensações visuais que oferecem: estática, de movimento, continuidade etc.
Trabalhos das artistas visuais Edith Derdyk (São Paulo, 1955) e Louise Bougeois (França, 1911-2010) nos ajudaram a comparar desenho e escultura. A primeira artista cria grandes instalações com linhas, o que inspirou nossa própria instalação, amarrando as árvores do jardim da escola. A segunda tem uma escultura de uma aranha gigante representando simbolicamente a própria mãe. Além disso, na escola havia um menino do terceiro ano, Felipe, fascinado por aranhas, que nos deu uma aula sobre a maternidade aracnídea. Na sequência, começamos a explorar a forma de espiral para desenhar as teias de aranhas, pois um dos alunos nos trouxe um DVD da série Charlie e Lola que demonstrava como uma aranha construía sua teia. Daí para a casa do caracol foi um passo.
A forma espiralada nos inspirou a uma ideia visual de continuidade, de ciclo, de movimento. Conhecemos os objetos óticos do artista francês Marcel Duchamp (França, 1882-1968) e as gravuras da artista brasileira Anna Letycia (Rio de Janeiro, 1929). Realizamos trabalhos em pequenos e grandes formatos, com destaque para uma pintura coletiva que se caracterizou como uma intervenção no pátio da escola. Além da produção visual, vivenciamos muitas experiências corporais por meio de jogos e brincadeiras associadas às formas ou aos temas que estávamos estudando. Brincamos de amarelinha no formato de caracol, interpretamos aranhas e marimbondos em jogos teatrais e musicais, numa tentativa de trazer o corpo inteiro para o aprendizado.
Depois de explorarmos todas essas pequenas casas, era importante revermos nossos percursos de aprendizagem, ou seja, retomar todo o conhecimento que havíamos aprendido até o momento. Para isso, muitas ações foram realizadas, como a criação de uma música coletiva sobre o material e a forma como cada criatura constrói sua casa, do marimbondo ao ser humano.
Outra ação de retomada do conhecimento foi a criação de uma composição visual juntando todas a formas, nascendo uma espécie de casa nova, uma casa de imaginação, uma casa da abstração. Estes desenhos serviram como base para uma pintura com guache e culminou na exposição “Arrumadas e misturadas: formas”, com textos, curadoria e conceitos construídos com as crianças. A apreciação das obras da artista Beatriz Milhazes (Rio de Janeiro, 1960) contribuiu muito para o desenvolvimento dessas pinturas e possibilitou discussões sobre os conceitos de arte abstrata e figurativa. Da junção das formas nasceu também um personagem: “Marivesaracolujo”.

Ao perguntar para o grupo quem era o morador daquela casa tão diferente, a professora polivalente Gláucia Faria sugeriu que mesclássemos as palavras marimbondo, vespa, aranha, caracol e caramujo. Marivesaracolujo foi se caracterizando como uma espécie de super-herói defensor da natureza com atributos relacionados diretamente à arte, como uma visão cubista e uma imaginação impressionista, que serviram como disparadores para o ensino sobre esses movimentos artísticos.

A partir dos ninhos de passarinhos, a tridimensionalidade e, consequentemente, a escultura passou a ser o nosso foco. Primeiramente fizemos desenhos de observação de ninhos projetados em uma TV. Abordei a forma circular como sinal de proteção, vimos alguns logotipos que possuem essa forma, como os de empresas de segurança, de maternidades, de maneira que percebessem como a forma circular se faz presente no conceito das empresas. Recolhemos folhas secas do pinheiro do jardim da escola, as mesmas utilizadas pelos passarinhos, para construirmos pequenos “ninhos-esculturas”. Refletimos sobre o cuidado que estas aves têm com os filhotes e, para complementar os nossos “ninhos-esculturas”, criamos pequenos ovos de isopor nos quais as crianças desenharam o que gostariam de acolher e cuidar, como suas famílias, pai, mãe, parentes e bens materiais, como videogames, carros, casas, etc.
Diversos artistas estimularam a criação de esculturas: Franz Krajcberg (Polônia/Brasil, 1921), Franz Weissman (Brasil, 1911-2005), Luiz Sacilloto (Brasil, 1924-2003) e Sandra Barreiro (Brasil, 1961).

Concluímos essa primeira parte do estudo com a montagem de um livro coletivo chamado “Estudo sobre as casas – Desenhos”, composto por uma série de desenhos de todas as casas estudadas, escaneados dos cadernos dos alunos de três salas dos segundos anos e por um CD com três músicas compostas coletivamente ao longo do projeto: “Rap do Marimbondo”, “As casas” e “Marivesaracolujo”(trava-línguas). Como foi possível fazer apenas um exemplar, o livro fica disponível na biblioteca da escola para empréstimo aos alunos.

Parafraseando Jonh Dewey, “uma experiência estética só é estética quando une cognição, afeto e vida”. Foi este entrelaçamento que me propus a construir neste projeto, desenvolvido durante um ano letivo, na tentativa de tornar o contato com a arte mais significativo para estas crianças. Ter como ponto de partida o olhar e a curiosidade dos alunos em relação aos elementos da natureza presentes no ambiente escolar, adentrando a partir daí nos mais vastos conhecimentos, é uma maneira de compreender que as coisas têm uma interligação e que é necessário explorá-la para criar um trabalho mais integrador e, ao mesmo tempo, abarcar a complexidade da relação com o conhecimento no mundo contemporâneo, que é volátil, imprevisível e desafiador. Ficamos mais próximos da arte e dos artistas, não apenas como meros expectadores, mas como aqueles que produzem arte no sentido de tentar observar, interagir e compreender o mundo que nos cerca.

Acho que o quintal onde a gente brincou é maior do que a cidade. A gente só descobre isso depois de grande. A gente descobre que o tamanho das coisas há de ser medido pela intimidade que temos com as coisas. (Manoel de Barros)

Registros da minha vivência

Referências bibliográficas

Transgressão e mudança na educação: os projetos de trabalho
Fernando Hernández
Editora Artmed, 1998, Porto Alegre

Casa Redonda: Uma Experiência em Educação
Maria Amélia Pinho Pereira (Peo)

Projeto Água: uma proposta interdisciplinar
Ivone Mendes Richter
Publicado na Revista “Gearte” (UFRGS) - Volume 1, Número 2, Agosto/2014
Acesso: http://seer.ufrgs.br/gearte

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  • A.Henrique SR, 10:56 - 22/09/2015
    Projeto maravilhoso, imensamente criativo! Parabéns a você e seus alunos!
  • Leno Ricardo V. De Freitas, 22:25 - 20/11/2016
    Inspirador sempre! Um dia terei a oportunidade de conhecer esse educador pessoalmente. E que percurso fascinante que nasce a partir de um pequenino inseto dentro da sala de aula e proporciona repensar todas as construções de casas da natureza e humana. Fechar com Manoel de Barros esse texto é costurar a alma de todo o percurso artístico e criador dos sonhos que este projeto representou. Parabéns Paulo Lorenzeti, por nos fazer sonhar.

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