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Descobrir-se criativo: criando e recriando imagens

Este texto apresenta reflexões sobre o desenvolvimento de propostas pedagógicas ligadas à área da arte-educação através do relato do projeto “Descobrir-se Criativo: criando e recriando imagens”, que ocorreu no primeiro trimestre de 2006, com alunos da Educação Infantil, 2ª e 3ª séries do Ensino Fundamental, de uma escola localizada na zona norte do Porto Alegre.

Com isto, os objetivos, as justificativas e o relato das atividades propostas compõem a base norteadora para as indagações acerca do trabalho com as artes visuais na escola. O referencial teórico contará com as contribuições de Analice Dutra Pillar, Susana Rangel Vieira da Cunha e Regina Leite Garcia.

Considero importante ressaltar que o projeto “Descobrir-se criativo: criando e recriando imagens” teve a finalidade de proporcionar a construção de conhecimentos significativos para a vida de cada aluno. Aprendizagens que ampliem o leque de saberes e a constituição não somente de habilidades cognitivas, mas também de aprendizagens afetivas e sociais.

Temática proposta para o desenvolvimento do projeto

Este projeto pressupôs o desenvolvimento de atividades ligadas à área das expressões artísticas (artes visuais) e a concomitante articulação com outras áreas do conhecimento (Português, Matemática, Ciências, História e Geografia).

Para tal, foram desenvolvidas atividades relacionadas ao estudo da vida e da obra da renomada artista plástica Tarsila do Amaral, tendo nesta a inspiração para criações plásticas. Entre as atividades destacaram-se: pesquisas, produções textuais, leitura de imagens, reprodução de obras, pintura, desenho, criação de telas, hora do conto, auto-retrato e organização de uma exposição de arte.

As justificativas para a realização deste projeto surgiram a partir de três perspectivas: a primeira se refere à relevância de discussões sobre a prática educativa desenvolvida nas escolas na área das expressões artísticas, considerando que esta pode contribuir significativamente para a formação de sujeitos criativos. A segunda se refere à constatação que a vida social está se transformando radicalmente, através das novas tecnologias e das novas maneiras de se ver e de se perceber o mundo. As imagens dominam o cenário social. Na atualidade a leitura de imagem apresenta tanto valor quanto a leitura das palavras. Uma imagem tem muito a relatar e a ser interpretada, pois carrega consigo inúmeras mensagens. Desta forma, a instituição escolar também deve ser reconfigurada para atender às novas necessidades apresentadas pelo contexto social.

O terceiro ponto que justificou o desenvolvimento de um projeto ligado à área da arte visual, com especial enfoque na artista Tarsila do Amaral, está no estilo de suas obras que procuram mostrar o corpo humano de maneiras diferenciadas do que vemos no dia-a-dia. Isto se tornou importante para o trabalho com os alunos, pois contribuiu para que eles refletissem sobre os padrões de beleza estéticos de nossa época. E ainda, Tarsila do Amaral provoca quem observa, fazendo surgir questionamentos e curiosidades. As cores vibrantes e suas combinações atendem ao imaginário infantil de um mundo que não precisa ser necessariamente o que vemos. Ela é uma artista provocante, que apresenta uma história de vida singular e com inúmeros aspectos interessantes a serem verificados. O trabalho com o corpo humano e suas reflexões sobre os padrões de beleza contemporâneos se articularam com perfeição à vida e à obra de Tarsila do Amaral.

Os seguintes objetivos foram traçados para o desenvolvimento do projeto: apreensão de que existem inúmeras formas de expressão que também estão repletas de significados, pensamentos e sentimentos; desenvolvimento da sensibilidade na busca de novos olhares sociais; reconhecimento da imensa diversidade na qual se está inserido; promoção da liberdade de imaginação, incentivando o poder de criação e de recriação; expressão de pensamentos e sentimentos muitas vezes ocultados; desmistificação de que a arte representa somente um dom e que pode ser praticada apenas por uma minoria de nossa sociedade; interação dessas temáticas aos conteúdos instituídos pelo plano de estudos da escola; valorização pessoal e das características corporais de cada aluno; conhecimento da história de vida e das principais obras da artista Tarsila do Amaral e promoção de interpretações criativas e da criatividade.

Os caminhos percorridos e as reflexões traçadas

Durante o desenvolvimento das atividades do projeto “Descobrir-se criativo: criando e recriando imagens” algumas obras de autores ligados à área da arte-educação foram lidas e discutidas pelas professoras, a fim de qualificar a argumentação da relevância de trabalhos que evidenciem o desenvolvimento da criatividade e da imaginação. As principais autoras escolhidas para nortear o projeto foram: Analice Dutra Pillar, Susana Rangel Vieira da Cunha e Regina Leite Garcia.

Estas autoras, em conjunto com as discussões traçadas no decorrer do projeto, possibilitaram um novo olhar sobre o ensino das artes na escola. Um destes aspectos se refere à reflexão de que arte não é simplesmente um espaço, entre as demais áreas do conhecimento, para se “relaxar” ou para “distrair” os alunos quando estes concluem as tarefas. O momento de se fazer arte na escola é único para a formação dos alunos e acaba por envolver o desenvolvimento de diversas habilidades cognitivas, afetivas e sociais.

Foi necessário pensar a área das artes como expressão da competência humana em fazer-se criativo, em aprimorar sistemas de linguagens como a comunicação. Mason (1999, p. 9) traz importante contribuição dizendo que “arte envolve todas as coisas feitas pelo ser humano, motivados pela tentativa de enriquecer a mensagem”.

O trabalho com a criatividade e com a imaginação dos alunos (e também das professoras) tornou-se essencial para a busca de diferentes linguagens na sala de aula. Os envolvidos no processo acabaram por perceber que podemos nos expressar de várias formas. Garcia (2000, p.12) cita Einstein para argumentar sobre a relevância no trabalho com a criatividade pela escola: “...a imaginação é mais importante que o conhecimento, pois o conhecimento é limitado, enquanto a imaginação pode abranger tudo o que existe no mundo, incentiva o progresso, é fonte de evolução e, no sentido estrito, é fator real de investigação científica.”

O trabalho com a arte visual provocou questionamentos nos educadores envolvidos sobre as estruturas que baseiam a educação formal. Com isto, eles se perguntavam constantemente sobre as estruturas espaciais em sala de aula (como organizar as crianças nas classes para compartilharem tintas, pincéis e panos e qual o melhor local para este tipo de trabalho), sobre o tempo destinado a estas tarefas (cada criança apresenta um tempo diferenciado para conclusão de sua obra), sobre as motivações dos alunos para produzir e sobre o processo de avaliação (como avaliar as produções artísticas e quais os principais critérios para tal). Isto aconteceu porque o trabalho com artes rompe com o que é pré-estabelecido, buscando sempre novas formas de ação. Devem ser questionados os horários, ambientes, metodologias e as formas como as crianças constroem conhecimentos e como elas aprendem a serem criativas, como cita Cunha (2002, p. 25) “expressar não é responder a uma solicitação de alguém, mas mobilizar os sentidos em torno de algo significativo, dando uma outra forma ao que é percebido e ao que é vivido”.

Richter (2002, p. 40) é uma autora que defende que as diversas linguagens artísticas devem estar presentes no trabalho pedagógico desde os primeiros anos de escolarização para que a criatividade seja desenvolvida e que desta maneira possa contemplar a formação dos alunos em seus diversos âmbitos (social, afetivo e cognitivo): “A imaginação é a poderosa ferramenta que ao sustentar o sentir, sustenta o raciocínio e, por ambos, cria o sonho. Além de permitir a construção de um imaginário social, constituído em sua cultura e tempo histórico”.

Acredito que os projetos propostos em sala de aula devem despertar nos alunos e nos professores a curiosidade, a constante inquietação em aprender mais sobre o assunto e o entusiasmo em seu relato. O entusiasmo pelo assunto possibilita argumentações precisas, intensidade no trabalho e acuidade para transpor possíveis barreiras ou dificuldades no percurso. Oliveira (2000, p. 127) faz-se presente nesta discussão dizendo:

Sentir-se envolvido, provocado e apaixonado pela temática cultural é fundamental, não somente para aqueles aos quais o planejamento é destinado, como é vital para o professor. Nesse caso o professor aprendiz, estando envolvido com seu tema cultural, não se sentirá tentado a abandoná-lo na primeira dificuldade.

A escolha pelo trabalho específico nas artes visuais diz respeito a necessidade de apresentar uma nova forma de expressão para os alunos. Uma forma de expressão que possa ser facilmente percebida tanto pelos alunos quanto por todos os demais que estão envolvidos, como familiares e professores. Yolanda (2000, p. 77) diz que “o trabalho de artes visuais está presente como necessidade natural de expressão, resultado sempre de uma percepção do ambiente”.

A leitura de imagem foi a principal fonte de atividades neste projeto. Foram mostradas aos alunos, em forma de lâminas, as obras Abaporu, A Negra, Antropofalgia e Os operários para que pudéssemos conversar sobre elas. Os alunos relataram suas impressões e hipóteses através das seguintes perguntas instigadoras: por que Tarsila pintou desta forma o corpo humano? Por que ela usou estas cores? Quem já viu algo parecido? Posteriormente os alunos realizaram um esboço para realizar uma pintura em tela. Este esboço não foi uma cópia das obras de Tarsila, pois deveria representar o processo de criação dos alunos inspirados nas obras da artista. As crianças produziram suas obras na tela com tintas específicas para tal. E ainda, uma exposição de arte culminou o projeto.

Com estas atividades, discutiu-se que ler uma imagem para que a partir dela possam ser elaboradas novas criações tornou-se importante para o desenvolvimento da capacidade criativa. Pillar (2001, p. 15) contribui ao dizer que:

Ler uma obra seria, então, perceber, compreender, interpretar a trama de cores, texturas, volumes, formas, linhas que constituem uma imagem. Perceber objetivamente os elementos presentes na imagem, sua temática, sua estrutura. No entanto, tal imagem foi produzida por um sujeito em determinado contexto, numa determinada época, segundo sua visão de mundo. E esta leitura, esta percepção, esta compreensão, esta atribuição de significados vai ser feita por um sujeito que tem uma história de vida, em que objetividade e subjetividade organizam sua forma de apreensão e apropriação do mundo.

A leitura de imagens proporcionou a diversidade de interpretações, o respeito a diferentes olhares sobre uma mesma imagem e a oportunidade de criações baseadas ou inspiradas em artistas. Junto a esta atividade outras propostas foram realizadas. Tais como: pesquisa sobre Tarsila do Amaral (nesta atividade os alunos realizaram uma pesquisa sobre a artista Tarsila do Amaral em conjunto com suas famílias); hora do conto (o livro Tarsila do Amaral da Editora Moderna foi utilizado para uma hora do conto interativa, onde os alunos acompanharam a história, relacionando-a com suas pesquisas); obras em argila. (as crianças, inspiradas em Tarsila do Amaral e em suas obras, produziram uma escultura em argila, onde a proposta era que a escultura deveria retratar algo de estranho ou de diferente no corpo humano); auto-retrato (inspirados na obra Manteau Rouge os alunos utilizaram espelhos para produzir um auto-retrato com lápis grafite); e produção textual (os alunos realizaram uma produção textual com relatos sobre nossas aprendizagens sobre Tarsila do Amaral).

A estratégia da cópia também foi utilizada para que os alunos comparassem o que é cópia e o que é criação, apesar de isto não ter sido o foco da aprendizagem. Pillar (2001, p.18) fala sobre a diferença entre cópia e releitura de imagens:

Há uma grande distância entre releitura e cópia. A cópia diz respeito ao aprimoramento técnico, sem transformação, sem interpretação, sem criação. Já na releitura há transformação, interpretação, criação com base num referencial, num texto visual que pose estar explícito ou implícito na obra final.

O projeto encerrou com a reflexão sobre o processo avaliativo. Este sendo considerado como ponto importante, pois buscou constatar as aprendizagens e as necessidades apresentadas pelos alunos. Registros escritos, observações diárias, trabalhos individuais e em grupos representam os instrumentos avaliativos utilizados pelas professoras no decorrer do projeto.

Por fim, as discussões traçadas proporcionaram a compreensão de que, na atualidade, a arte é expressão das diferentes linguagens existentes em nosso contexto e que a pluralidade cultural pode ser amplamente abarcada por projetos artísticos.

Palavras finais

Durante o desenvolvimento deste projeto constatei aprendizagens significativas nos alunos através de suas falas, escritas e gestos. Seus olhares e suas percepções sobre as artes visuais puderam ser ressignificadas através da compreensão de que existem diversas formas de expressão. Trabalhar com a imaginação proporcionou escritas diferenciadas e o prazer pela busca de novas aprendizagens. Os alunos perceberam-se criativos e suas potencialidades artísticas se ampliaram. As professoras puderam questionar seus trabalhos com as artes visuais na escola e suas reflexões ampliaram-se para melhor atender ao que as crianças da contemporaneidade necessitam.

Referencial teórico

BRAGA, Ângela; REGO, Lígia. Tarsila do Amaral. São Paulo: Editora Moderna, 1998. (Coleção Mestres das Artes no Brasil).

CUNHA, Susana Rangel Vieira. Cor, som e movimento: a expressão plástica, musical e dramática no cotidiano da criança. Porto Alegre: Mediação, 2002.

GARCIA, Regina Leite. Múltiplas linguagens na vida - porque não múltiplas linguagens na escola? In: Garcia, Regina Leite (org). Múltiplas linguagens na escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.

MASON. Rachel. Arte educação multicultural e reforma global. In: Pro-posições: Revista Quadrimestral. Faculdade de Educação Unicamp. Vol.10, nº3, novembro/1999.

OLIVEIRA, Helenara. Planejamento: uma prática articulada com o tema cultural. In: Estudos sociais: outros saberes e outros sabores. Porto Alegre: Mediação, 2000.

PILLAR, Analice Dutra. A Educação do Olhar no Ensino das Artes. Porto Alegre: Mediação, 2001.

RICHTER, Sandra. Manchando e narrando: o prazer visual de jogar com as cores. In: Cunha, Susana Rangel Vieira (Org.). Cor, som e movimento: a expressão plástica, musical e dramática no cotidiano da criança. Porto Alegre: Mediação, 2002.

YOLANDA, Regina. Artes Visuais na escola. In: Garcia, Regina Leite (org). Múltiplas linguagens na escola. Rio de Janeiro: DP&A, 2000.


*Mestranda em Educação – PUCRS; Especialista em Planejamento e Gestão Escolar – PUCRS; Graduada em Pedagogia – UFRGS; Professora de Séries Iniciais da Escola São Francisco.

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