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Comunicação televisual na experiência estética das crianças

A criança é um ser estético por natureza, mas é através da ampliação da percepção visual que se possibilita a ela encontrar novas experiências de cunho estético. A percepção para a televisualidade prepara a criança para a interpretação de conteúdos não-verbais.

Quando falamos em televisão e criança, quase sempre nos vem a lembrança das horas demasiadas que a meninada passa em frente ao aparelho eletrônico. Muitas pessoas entendem que tal participação é negativa, mas há um número expressivo de outras que se referem a essa distração visual como algo positivo. Para assistir à televisão, é preciso a participação ativa da percepção e o esforço mental da criança, não sendo necessário que ela saiba ler e escrever. Assim, mesmo que não seja encarada como um recurso que possibilite a aprendizagem, a televisão participa do aperfeiçoamento da visão e possibilita a descoberta de modos de se relacionar com o mundo da imagem.

A imagem torna-se visível quando atende ao interesse da criança e ganha destaque à medida que envolve significados pertinentes à comunicação infantil, capazes de estruturar os sentidos e seduzir a criança, abrindo um sistema de mensagens sensoriais por meio do sistema corporal perceptual. Condutas e atitudes recebidas servem para dinamizar o encantamento da criança com a comunicação televisual. Logo, a atração pela visualidade da imagem na televisão consolida a unidade entre os sentidos fisiológicos e a imagem eletrônica. A informação e a imaginação infantil articulam-se na completude da experiência estética voltada para a leitura da imagem no mundo.

A comunicação televisual promove a experiência estética
A televisualidade, por ter caráter realista em sua representação, torna-se atraente à percepção infantil. Utilizando-a na aula de artes por meio da apresentação de um vídeo, podemos entender como acontece a experiência estética com as crianças. É isso que pretendo apresentar através do relato de uma experiência realizada com um grupo de crianças na faixa etária de 10 a 12 anos, que assistiram ao filme Carlos Vergara, uma pintura. Trata-se de um documentário artístico que registra a elaboração de uma pintura sendo feita pelo artista a partir de uma tela cuja superfície foi pintada com a cor preta. Além disso, mostra o desafio do artista diante das cores, na tentativa de decidir qual aplicará e a seguinte para fazê-la vibrar visualmente no espaço da tela, de dentro para fora. Conforme ele pinta e escolhe as cores, narra o seu processo de criação, estruturando o pensamento nas sucessivas fases da ação pictórica.

Para que o documentário fosse mais bem compreendido, foi dividido em oito partes e foram elaboradas fichas para o acompanhamento das etapas do enunciado visual. Isso facilitou o processo de observação, influindo no grau de apreensão das idéias postas na mensagem visual e interpretadas, posteriormente, pelas crianças. As partes abordavam os seguintes tópicos: o lugar onde se passa a história, o artista, a fala do artista, o som no vídeo, como o artista pinta, o problema do artista, o tempo e os materiais utilizados pelo artista. Assim, as crianças preenchiam as fichas ao longo da apresentação do vídeo.

A imagem televisual exibida envolveu as crianças e, através da curiosidade, proporcionou-lhes descobertas. Conforme estudo realizado por Michael Parsons (1992), no plano da experiência estética com imagens fixas (obras de arte), a noção e os princípios da atividade cognitiva que envolve a experiência estética infantil são pertinentes à reflexão e podem ser adequadamente adaptados para o contexto da imagem televisual. Portanto, quando Parsons diz que a criança trata o tema da obra de arte como um objeto físico, identificável, independentemente da forma, como se ele tivesse existência própria, afirma algo que diz respeito ao tema na televisão.

Destaco o resultado da ação perceptiva e estética de algumas crianças para tecer análises e comentários. Duas questões evidenciam-se para reflexão a partir dessa experiência:





Como as crianças relacionam-se perceptualmente com a imagem televisual e em que medida isso influi em sua expressão gráfica?

A estrutura que envolve o espaço pictórico de representação da criança, mediado pela percepção estética, demonstra singularidade na interpretação da imagem televisual?


Para melhor entendimento do fenômeno da televisualidade, é importante evidenciar a ação sensorial infantil como fator de interação no mundo sensível. Posso afirmar isso ao perceber como funciona o campo de forças visuais e como ele interage na percepção da criança quando ancorada na imagem da televisão. Por isso, pode-se dizer que o sujeito da percepção é o mesmo telespectador que interage sensorialmente com a imagem televisual.

A metodologia usada para a apreciação do filme fundamenta-se na teoria da Gestalt; por isso, o filme foi dividido em oito partes, a fim de que a percepção visual pudesse ser mais exigida e possibilitasse um aprofundamento sensorial, enriquecedor da experiência estética infantil, pois acredito que, pelas partes, podemos suscitar a ampliação do sentido da totalidade. Vejamos como as crianças resolveram a apreciação estético-visual com as imagens que lhes foram apresentadas.

Os esquemas gráficos apresentados são de Breno e Edson, respectivamente. Eles revelam o lugar onde se passa a história. O ateliê e a tela do artista são espaços coincidentes, apesar de um referir-se ao espaço sensorial e o outro ao pictórico. Para eles, o espaço televisual é uma totalidade preenchida pela perspectiva do olhar, que ora ascende, ora descende, enfatizando as partes, porém distanciando-se delas.

Assim, é possível compreender a percepção estética desses alunos através da experiência gráfica que eles expressam como uma forma de ver o mundo, a partir da estrutura da consciência perceptiva refletida nos desenhos. Enquanto Breno busca expressar o ateliê do artista em uma representação gráfica centralizada e contida em um eixo cartesiano, caracterizando uma configuração de "nivelamento", Edson expressa-se por "aguçamento". Na concepção de Rudolf Arnheim (1980), o nivelamento é uma tendência que reduz o número das características estruturais e simplifica o padrão visual, ao passo que o aguçamento ativa a estrutura, ampliando esse padrão. Dessa forma, a composição simétrica de Breno aumenta a simplicidade, capturando no olhar uma tensão reduzida, enquanto Edson diminui a simplicidade, mas enfatiza a tensão sobre o efeito da dinâmica na imagem.

Em outro momento, as crianças identificaram o artista com facilidade, já que o realismo fotográfico possibilita uma analogia entre a imagem do real com a imagem do vídeo. Elas perceberam que as roupas que o artista usava eram diferentes nas diversas ocasiões das cenas apreciadas. Tamara descreveu o artista como na Figura 3, indicando suas partes sucintamente (para ela, barba e bigode tinham o mesmo significado). É impossível fazer a separação visual do artista em relação ao contexto da totalidade, dado que ele é um agente orgânico que se revela nas partes, o que é característico de um esquema de fechamento e semelhança, de modo que a figura total e mais fechada tornou-se alvo da percepção das crianças. As atitudes do artista são invisíveis perante o olhar das crianças, já que o que está em jogo é a visualidade, a aparência do pintor, indicada por elas através das roupas que trajava nas cenas do filme. Arnheim (1980) chama a atenção para a aparência das coisas que se constrói por sua extensão visual, relacionada ao todo sob a influência das partes. Assim, a visão aproxima-se ou atinge a ausência da estrutura, como é o caso de Tamara, que abandona a estrutura composicional para se expressar em um esquema simples que também inclui a palavra escrita.

A ação pictórica do artista, ora no chão, ora na escada, representou uma experiência importante e marcante para as crianças, pois perceberam atitudes distintas: "Ele fica de joelhos e pisa na tela", "Usa a mão para espalhar a tinta, "Sobe na escada e usa o pincel", "Seca a tinta com o ventilador", entre outras observações.

O vídeo enfatiza a qualidade da experiência estética e artística quando a câmera enquadra cenas para ressaltar certos aspectos da produção do artista. Por exemplo, o close é usado para chamar a atenção e/ou salientar algum aspecto da experiência pictórica. Isso é determinante na percepção da criança, que se sente invadida por um tipo de informação tão diretamente colocada. Dewey (1972) diz que a satisfação do artista é estar ali, envolvido em uma busca contínua, "formando e reformando" a obra. Tal fato é evidenciado pela imagem do vídeo que chega aos olhares das crianças, influenciando-as ao ver o vigor com que trabalha o artista, dando-lhes ânimo e despertando-lhes o desejo de se expressarem com tinta, papel e pincel.

Segundo Pâmela, "O artista queria resolver um problema", ou seja, fazer uma pintura em um quadrado de tela preta, escolher a cor e fazer vibrar a pintura usando cores claras. Na opinião de Thomas, "Foi difícil para o artista fazer isso". Eles interpretaram o problema a partir da configuração geométrica e da luminosidade das cores. O problema é explicitado pelo próprio artista: "Como pintar um quadrado de 270 x 270 cm e fazê-lo vibrar de dentro para fora?". As crianças não só perceberam a proposição oral do problema, como também puderam ver o acontecimento pictórico tomar forma na prática. Ficaram fascinadas ao ver como o artista buscava as soluções para a questão, o que demonstra que a imagem televisual, no vídeo, medeia a experiência estética da criança. Assim, foi possível perceber que a solução do problema enunciado não se consolidava nem somente pela narrativa do artista, já que ele dialogava oralmente com o problema, nem somente pela via não-verbal, uma vez que demonstrava atitudes e gestos ao manipular os materiais, indicando o que pretendia fazer ou propor visualmente para a obra. Isso é evidente na imagem do vídeo, que vai mostrando o resultado da obra que se forma à medida que o artista executa a tarefa, vencendo etapas e indo das partes para a totalidade.

O tempo de execução da obra do artista, representado na televisualidade, é muito complexo. As crianças chegaram à conclusão de que a troca de roupas indicava diferentes momentos da imagem televisual, já que isso pode significar a marcação de tempo. O vídeo apresenta um tempo de exibição de oito minutos para dar coerência aos acontecimentos por meio da conexão evolutiva dos fatos. Também trabalha com a capacidade de coordenar o tempo, podendo revelar uma condição sempre presente da experiência do artista, o que, em tempo real, seria considerado passado imediato.

Os materiais usados pelo artista podem indicar qualidades definidas na obra. As crianças concluíram que, apesar de o artista trabalhar com materiais não-tradicionais para pintar, a obra resultou em uma "pintura boa". Ficaram impressionadas pelo modo como o artista utilizava-os, principalmente as luvas amarelas que serviam para espalhar a tinta na superfície da tela preta. O vídeo enfatiza a apropriação dos materiais pelo artista como parte extensiva de seu corpo. Dessa maneira, as crianças puderam penetrar no campo da imagem televisual e apropriar-se das idéias, da estrutura plástica, do sentido da construção pictórica do artista através das imagens e das informações visuais que somente a imagem poderia comunicar.

A televisualidade está interligada aos aspectos da comunicação visual, já que é através dela que a criança pode relacionar-se concretamente: a linguagem que criança domina é aquela que expressa cores, linhas e formas, e a sua proximidade com os elementos básicos da comunicação visual (cor, linha, dimensão, volume, ritmo, superfície, etc.) insere-se na experiência estética infantil.

Reflexões finais
A criança é um ser estético por natureza, mas é através da ampliação da percepção visual que se possibilita a ela encontrar outras experiências de cunho estético. Nesse caso, quando a imagem invade o olhar da criança, estabelece-se uma qualidade de experiência que influirá em seu relacionamento com a televisualidade. As propriedades estéticas abrem a percepção para a comunicação televisual. Assim, a percepção para a televisualidade destila o olhar e prepara a criança para a interpretação de conteúdos não-verbais. A Gestalt da imagem televisual envolve a criança por colocá-la diante de uma representação mais complexa e mais apurada, enquanto a experiência estética pode impulsioná-la para a interpretação de mensagens visuais. Em vista disso, a criança é capaz de significar a imagem televisual porque:


  • as imagens povoam o mundo e envolvem o ambiente infantil;

  • a imagem que está mais próxima da criança é a da televisualidade;

  • o vídeo é mediador da percepção estética, sendo capaz de proporcionar outras experiências estéticas.


    Como decorrência de tais fatores, a criança é capaz de tornar-se um leitor estético-visual porque:


  • a educação estética não se faz somente pelo amadurecimento da capacidade perceptual da criança, mas também pela ampliação do ambiente cultural, por meio da interação artística entre a gramática visual e televisual;

  • é possível formar o leitor estético-visual através do processo de alfabetização visual.


    Por fim, vale a pena lembrar que a formação do consumidor estético vence etapas distintas: primeiro, a imagem televisual é uma simples distração; depois, uma experimentação sensório-visual com a televisualidade, agregando-lhe significado; e, por último, uma construção relacional entre a televisualidade e a sintaxe visual. Isso resulta em um dinâmico exercício sensorial ativo da criança, diante do qual as expressões do artístico e do estético determinam-se pela formulação do conteúdo e da forma visual. O produto que nasce dessas possibilidades acaba sendo material para a leitura de mundo, já que ler imagem visual é abrir mundos, em um constante exercício da visão, encontrando a criança receptiva para as novidades sensórias contidas nas imagens que representam as coisas do mundo.

    Alexandre Silva dos Santos Filho é professor de arte na educação e de ludicidade e corporeidade na Universidade Federal do Pará.E-mail: assf@ufpa.br


    REFERÊNCIAS
    ARNHEIM, R. Arte e percepção visual: uma psicologia da visão criadora. São Paulo: Pioneira/USP, 1980.
    DEWEY, J. El arte como experiência. México, Buenos Aires: Fundo de Cultura Econômica, 1972.
    PARSONS, M.J. Compreender a arte: uma abordagem à experiência estética do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo. Lisboa: Proença, 1992.
    VÍDEO
    FRANÇA, B.; VERGARA, C.; MANCINI, P. Carlos Vergara, uma pintura. VHS, NTSC, COR, 8min. Documentário. Rio de Janeiro: Rioarte/ Studio Line. Acervo da Videoteca Arte na Escola, disponível nos Pólos Regionais Arte na Escola. Disponível no site

    Fonte: Artigo originalmente publicado na Revista Pátio Ano VIII - Nº 32 - Aprendizagem para Todos - Novembro de 2004 à Janeiro de 2005
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