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O uso de tecnologias é indispensável à aprendizagem?

A resposta a esta aparente simples pergunta pode ser também aparentemente simples. E isto não significa dizer que ser simples é concordar ou discordar tão e puramente com a questão da presença obrigatória das tecnologias nos processos de aprendizagem. E, nem tão pouco, que se faz isso, concordar ou discordar, sem estar baseado em pesquisas, em teóricos, em posicionamentos políticos até.

Por trás desta questão, sobre o uso indispensável da tecnologia para a aprendizagem, podemos encontrar encruados em seus discursos subliminares, inúmeras situações implicitamente posicionadas a favor ou contra esta afirmação. E os pertencentes a cada uma destas duas posições radicais, sim ou não, recorrem a vários argumentos para sustentar sua opinião.

Bem, de qualquer forma, podemos voltar à pergunta proposta no título, e perguntar a ela mesma: de que tecnologias e de que aprendizagens estamos a falar? Isto faz toda diferença para pensarmos a respeito. Mas, antes disso, se o cerne da questão é a aprendizagem, então vamos a ela.

Se se pensa que tal aprendizagem é um fenômeno que ocorre no contexto escolar, apenas, temos um grande problema de início, pois é mais do que urgente superar esta visão tão cartesiana, limitada, sobre aprendizagem. Na verdade, seria a respeito do que é o humano! Pois se sabe que o Homem se diferencia dos demais animais pela sua capacidade de aprender. E de aprender de inúmeras formas, sobre infinidade de coisas, e em todas as situações de sua vida. E que, sabemos, o Homem, assim como tem a capacidade de aprender, tem a capacidade de ensinar. E, hoje, quando se fala em aprendizagem de imediato pensamos apenas na escola.

Embora saibamos que a instituição escola é algo recente na história da humanidade, ainda mais, no caso do Brasil, mesmo já sendo ela quase universal mas ainda precária na qualidade de seus serviços, pretende-se que a escola dê conta de uma realidade com a qual ela, a escola, pouco ou nada tem de similaridade, de intercâmbio, de diálogo. E aí está o nó por trás da pergunta original.

Por quê? Porque, talvez, de início, possamos deduzir que a aprendizagem de um sujeito se dá de forma global, contínua, e em interação com seu ambiente social, não é mesmo? E esta compreensão sobre aprendizagem é reforçada como essencial para o trabalho de “ensinar” da escola por meio de várias linhas teóricas e suas pesquisas acadêmicas, ou seja, que a escola deve partir da realidade do aluno, do contexto no qual ele vive, para organizar e aplicar atividades em razão dos conteúdos curriculares, de forma inter e transdisciplinar.
Pois bem, então vamos olhar para esta realidade do nosso alunado?

Podemos começar pela sociedade em que vivemos, onde a tecnologia digital e, em particular, cada vez mais, a tecnologia digital e em rede (internet), está muito fortemente presente. E, não só porque se tem mais famílias brasileiras com computador e internet em casa, como mostram os mais recentes dados coletados pelo Conselho Gestor da Internet no Brasil (CGI), através da pesquisa TIC-Domicílio 2011, onde se constata um contínuo crescimento no número de domicílios com computador (de 18% em 2008 para 38% em 2011), bem como no número absoluto de usuários (de 34% em 2008 para 45% em 2011). É também porque, no que diz respeito às crianças e jovens usuárias da internet, nesta mesma pesquisa constatou-se que 52% das crianças de 10 anos são usuárias, e que este percentual aumenta conforme aumenta a idade da criança. Aos 12 anos de idade, 63% são usuárias da internet, e 77% dos que têm 14 anos são usuárias.

Portanto, se pensarmos que estes alunos que a escola atende são usuários da internet, como demonstram esta e várias outras pesquisas, já teríamos um bom e importante motivo para a resposta ser SIM para a pergunta geradora deste texto. Entretanto, podemos reforçar ainda mais este sim, porque, se somos educadores, e se estamos preocupados em contribuir para nossas crianças e jovens ampliarem suas habilidades, tirarem o melhor proveito dos estudos, e, com isso, que consigam ótimas oportunidades na vida, sabemos o quanto é um dever proporcionar a todos cidadãos o acesso às tecnologias presentes no seu cotidiano, para com elas promover processos de aprendizagens sobre a vida, inclusive sobre elas mesmas, as tecnologias. E, lógico, não só as tecnologias em si, mas toda cultura decorrente de seu uso.

Estamos a falar sobre cultura digital, e o quanto ela está presente no nosso cotidiano, e é a realidade com a qual nós e, sobretudo nossos jovens, estamos a interagir, e muito! Então, não tem como não deixar de usar as novas tecnologias e problematizar os usos e as informações disponíveis aos cidadãos, presentes nesta cultura digital e constituidoras dela. E, isto, inclusive, para que a escola promova aprendizagens no tocante ao uso seguro e crítico destas tecnologias presentes no cotidiano de todos, e de como lidar com as informações e todo contexto desta cultura digital, a cibercultura.

No entanto, e ainda voltando à pergunta original, se a presença da tecnologia digital no cotidiano já a faz parte dos processos de aprendizagem inerentes ao desenvolvimento do homem contemporâneo, a escola é que deve ser a responsável em ensinar como usar esta tecnologia? Sim, na opinião dos pais participantes de outra pesquisa realizada pelo CGI, intitulada TIC KIDS 2012, que entrevistou em todo Brasil 1580 pais/responsáveis e 1580 filhos sobre usos da internet. Esta pesquisa, recentemente divulgada e disponível na internet , mostra que 61% dos pais atribuem à escola a função de ensinar a seus filhos como usarem bem a internet.

E, é justamente neste aspecto que podemos observar, de forma genérica, a prevalência de um tipo de escola, um modelo institucional de educação, em que ainda se pergunta se é indispensável usar a tecnologia na aprendizagem. Claro que sim, mas nem sempre! E, aí, começa-se a perceber que saber quando usar, se usar, e como usar as tecnologias no processo educativo formal exige uma capacidade da escola (de seus dirigentes, seus coordenadores, seus professores, seus funcionários) de, no mínimo, estar aberto a incorporar as novidades e práticas presentes no cotidiano social, para lidar com elas em seu cotidiano educativo.

Por quê? Justamente porque haver intencionalidade pedagógica para o uso das tecnologias atuais disponíveis é o que faz a diferença. Então, a mediação especializada do educador, e da instituição que o sedia, quanto ao uso das tecnologias, novas ou não, em suas práticas educativas é que demonstra ser a verdadeira questão problema, porque este tipo de atuação exige habilidades e capacidades do educador raras de serem encontradas. Por exemplo, isto exige não só planejamento do professor para aulas com o uso de tipos específicos de tecnologias, mas em razão de aprendizagens e objetivos claros e que deverão ser objeto de avaliação inclusive, de avaliação do processo, se os objetivos foram alcançados, etc. Quer se dizer com isso que o fato de haver necessariamente uma intencionalidade pedagógica no uso das tecnologias disponíveis, já se justifica o seu uso na aprendizagem, e que disso, necessariamente, decorrerão o uso de novos instrumentos e práticas pedagógicas por parte do professor para aplicação e monitoramento das ações com uso das tecnologias, certamente, (pedagogia da comunicação).

Exige, ainda mais, que o professor consiga vislumbrar atividades curriculares através de suas práticas pedagógicas e conteúdos trabalhados de forma articulada ao uso das tecnologias e suas funcionalidades, linguagens e códigos (mediação tecnológica nos processos educativos) que, muitas vezes, nem ele mesmo conhece. E, pior, sabe-se que muitos professores ainda sequer procuram aprender a usar as novas tecnologias, não estão abertos a conhecer estas tecnologias e explorá-las com o olhar de educador, com a intenção de educador para dela tirar proveito para o processo educativo, e possibilitar a seus alunos aprendizagens qualificadas, significativas, justamente por serem coerentes com o mundo em que se vive.

A este conjunto de conhecimentos, habilidades e capacidades do educador para utilizar coerente e eficientemente as tecnologias em suas práticas pedagógicas, e a da escola se ampliarmos nossa visão, resulta da articulação deste conjunto a propósito de três áreas do saber: o do saber de área (ciências sociais ou alfabetização, por exemplo), com o saber tecnológico (conhecer ou permitir explorar o uso de recursos tecnológicos disponíveis para o desenvolvimento das sequências didáticas planejadas anteriormente), com o saber pedagógico, ou seja, fundamentar-se em conceitos e metodologias sobre a aprendizagem e o ensino que, não só considerem a presença das novas tecnologias, como também saiba explorar as novas práticas e artefatos culturais para tratar dos valores humanísticos e universais, junto aos contemporâneos e circunstanciais. A este conjunto articulado dos três saberes, o de área específica, o tecnológico e o pedagógico é identificado como TPACK- Conhecimento Tecnológico Pedagógico de Conteúdo (sigla em inglês para Technological Pedagogical Content Knowledge)

Enquanto os profissionais e demais comprometidos com a educação pública neste país estão se debatendo quanto ao uso das tecnologias nos processos educativos formais, nossas crianças e jovens estão navegando muito na internet, e livremente; estão explorando este novo mundo em que se dão novas formas de aprendizagens, inclusive. E este é outro real e forte motivo para a resposta ser afirmativa à pergunta disparadora deste texto.

Podemos voltar à recente pesquisa já citada acima, TIC KIDS 2012, para retratar um pouco esta constatação diária. Na amostra de sujeitos de 9 a 16 anos, em 111 cidades de todas as regiões do Brasil, nota-se que 51% acessa a internet de forma individual, isolada, sendo significativa a presença do celular como meio de acesso. Isto reforça a potencialidade, para o bem e para os riscos, que a criança vivencia como usuária desta tecnologia, já que não há um tipo de mediação imediata de um adulto, ainda mais quando observamos o crescente número de celulares ativos no país com acesso à internet.
Por outro lado, ainda conforme esta pesquisa, o acesso à internet, na maioria das vezes, continua sendo na escola, seguido pela casa e pela lanhouse. É interessante também destacar a presença do acesso na casa de amigos e parentes. Um dado preocupante apresentado pela pesquisa é fato de que 47% dos que acessam a internet dizem fazê-lo diariamente.

E sabem o que as crianças e jovens mais fazem na internet? Primeiro, dizem que é para estudar (82%), mas em seguida, demonstram que é mesmo para acessar redes sociais (68%) ou brincar com games (54%). Outro dado interessante é o de que 40% dos que acessam a internet o fizeram para publicar algo, como foto, mensagem, vídeo, etc, o que demonstra uma atitude mais pró-ativa do usuário juvenil.
Enquanto isso, de outro lado, a da família, nesta mesma pesquisa constata-se pais que, na maioria, não usam a internet (53%) e acham (60%) improvável ou pouco provável que o filho possa passar por um incômodo ou constrangimento na internet. E mais, 71% do total dos pais entrevistados acham que o filho sabe usar a internet com segurança, enquanto 60% acham que os filhos sabem lidar com situação de incômodo ou constrangimento , ou de forma ampla ou suficiente.

Portanto, percebem-se pais mal informados, desconhecedores do que é o mundo na web, que supõem serem seus filhos capazes de lidar com os perigos deste ambiente virtual, e dele tirar proveito para sua educação. E, ainda, que cabe à escola preparar seus filhos para o uso seguro e proveitoso da internet.

Neste cenário tão contraditório entre escola e a realidade cotidiana de seus alunos, vemos que usar as tecnologias na aprendizagem é apenas a ponta do iceberg do problema em que vive a educação institucionalizada em nosso país. Neste imbróglio todo, não há somente culpados ou prejudicados! Há tempos e modelos diferentes de educação em convívio, às vezes intrincados, às vezes distanciados um do outro, com os quais os atores deles participantes, o aluno e o professor no microcosmo, e a sociedade e seus organismos no macrocosmo, constroem, como sujeitos que são, a sua história contemporânea.

Claudemir Edson Viana - Bacharel e Licenciado em História (USP). Mestre e Doutor em Comunicação (ECA/USP), com pesquisas sobre Educomunicação, Mídia e Criança, O Lúdico e a Aprendizagem na Cibercultura, Jogos digitais e Internet no cotidiano infantil. Atuou por 10 anos como Educador em escolas públicas e privadas, atuou por 11 anos como Diretor Acadêmico no Ensino Superior Particular, e como pesquisador por 16 anos no LAPIC – Laboratório de Pesquisas sobre Infância, Imaginário e Comunicação (ECA/USP) e como colaborador nos projetos de educomunicação do NCE/USP (Núcleo de Comunicação e Educação). Atua desde 2003 no CENPEC como gestor de redes sociais educativas (Minha Terra 2007-2011) e Acessa Legal (2012), onde também é co-autor da Coleção Ensinar e Aprender no Mundo Digital, em Creative Commons, disponível no portal da instituição. É professor convidado nos cursos de Educomonicação da ECA/USP. Contatos: cviana@uol.com.br / facebook: claudemirviana

Comentários Deixe o seu comentário

  • Maribel Gadens, 10:41 - 02/05/2014
    É necessário, como apresenta o autor, uma utilização de tecnologias no processo educativo, onde a reflexão sobre quando e como usar, esteja presente.
  • GLÁUCIA MARIA RODRIGUES, 18:26 - 02/03/2016
    O uso da tecnologia é indispensável, ´por isso é necessário que os educadores saibam utiliza-las podendo assim preparar aulas divertidas ,podendo enriquecer os seus alunos que muitas vezes não tem acesso ao mundo digital.

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