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Dificuldades para ensinar arte contemporânea

Primeiramente antes de expor minhas argumentações sobre a imensa dificuldade em ministrar aulas sobre a arte contemporânea no ensino fundamental, discursarei sobre a função da Arte para o indivíduo e o funcionamento atual do mercado das Artes.


A disciplina de Arte tem como parte de suas funções inserir o indivíduo nas diferentes linguagens artísticas, no desenvolvimento da linguagem estética e aspectos cognitivos da criatividade, na ampliação da percepção do olhar, no desenvolvimento do pensamento crítico, no conhecimento de sua singularidade perante o mundo, do seu eu, do mundo e suas diferentes culturas.


Todo movimento ou escola artística possui artistas consagrados que representam com muita força e clareza sua trajetória. Para o Neoclássico temos, por exemplo, Jacques-Louis David, para Impressionismo, Monet, para o Expressionismo, Van Gogh, para o Cubismo, Picasso.


A arte contemporânea é consagrada por artistas como Damien Hirst, que delegou a execução de algumas de suas obras a assistentes, instruindo-os como proceder, iniciar e finalizar a obra; Jeff Koons, que foi processado por várias “apropriações” indevidas de obras alheias, entre outras coisas.  Autores de obras milionárias como os banais balões de animais feitos em aço, latinhas de fezes químicas idênticas a de seres humanos, tela contendo esterco de elefante em sua composição, larvas, etc. Quanto mais bizarro e quanto mais chamar a atenção da mídia, melhor, porque o mais importante não é a obra em si, mas o espaço que ela ocupará na mídia. Um marketing que transformará o artista em uma marca ou grife a ser vendida.

 

“Quando um artista se torna uma marca, o mercado tende a aceitar como legítima qualquer coisa que ele apresente”, conta Don Thompson, economista, colecionador e autor do livro O tubarão de 12 Milhões de Dólares (Revista Superinteressante, n. 315, p. 55, fev.2013).

 

Trata-se de obras vazias de conteúdo e que nada acrescentam, dependendo sempre de um texto para poder ter algum sentido, recebendo assim seu respaldo teórico. A obra passa de objeto artístico para produto de  marketing e o discurso passa a ser mais importante que a obra. "Um dos fenômenos mais sintomáticos da crise que atinge grande parte da arte contemporânea é a substituição do criador pelo teórico" (GULLAR, Ferreira. Argumentação contra a morte da arte. Rio de Janeiro: Revan, 1993. p.  79).


Affonso Romano de Sant’Anna em seu livro “Desconstruir Duchamp: a arte na hora da revisão” (Vieira & Lent, 2003, p. 24), menciona que a arte contemporânea se confunde com misticismo e religião: “na religião, há que ter fé, nas obras contemporâneas, há que acreditar nas intenções do artista. Quanto mais vazia a obra, mais cheias de significado a preencher”.


Em uma matéria na Revista Superinteressante (n. 315, fev. 2013), o autor explica como os artistas contemporâneos são construídos. Muitas vezes um colecionador de prestígio e renome investe em artistas iniciantes e desconhecidos no mercado e compram sua produção por valores baixos. Depois que o mercado espalha a notícia que o tal colecionador renomado e de prestígio comprou o acervo, que se interessou pelo trabalho de determinado artista, a obra ganha status e o seu preço se eleva consideravelmente. O que acontece é uma espécie de especulação das artes, sem levar em conta suas qualidades artísticas e estéticas. Outra estratégia é emprestar os quadros às Galerias e Museus, que raramente tem seus juízos questionados, impregnando a obra com “qualidade de Museu”. Luciano Trigo em seu livro “A grande feira: uma reação ao vale-tudo na arte contemporânea” (Civilização Brasileira, 2009, p. 36), elucida melhor e em detalhes este assunto:


"Como chegamos a este ponto? Tudo começou quando o sistema de arte deu a volta nos artistas modernos: suas experimentações foram esvaziadas de conteúdo social e político e inspiraram outras, puramente formalistas, realizadas por artistas loucos pela fama. A partir daí, o jovem artista não precisa ser capaz de desenhar uma bicicleta, muito menos ter qualquer conhecimento rudimentar de perspectiva: basta colocar uma tartaruga do lado de um aspirador de pó e de um rolo de papel higiênico, e está criada a instalação".

 

Como incentivar os alunos às práticas artísticas introduzindo-os  no mundo da arte contemporânea se ao estudar os grandes mestres ele constatará  que o artista muitas vezes não coloca se quer a mão na obra?

 

Com o ensino da Arte Contemporânea, no qual o fake, a repetição e as obras são, em geral, desprovidas de conteúdo, seria possível estimular a criatividade e o desenvolvimento do pensamento crítico?

 

Muitos professores não conseguem entender a arte contemporânea e assim encontram uma enorme dificuldade para elaborar planos de aula e bons projetos. É difícil esclarecer tais dúvidas em um tempo em que o parâmetro para saber o que é arte nada depende da análise da obra em si, mas sim do texto explicativo composto para ela e o nome do artista. Como explicar ao aluno que a torneira de ponta cabeça que viu em uma prateleira de sua casa não é arte,enquanto a torneira de ponta cabeça com um bom texto escrito por um curador e exposta em um museu é arte? E muitas vezes as aulas são elaboradas em “viagens” para que os alunos reflitam e sintam as sensações, por exemplo, colocando a mão em um vaso acrílico contendo terra ou na apreciação de um vídeo com guarda-chuvas sendo abertos em dois pontos diferentes do mundo no mesmo horário, que pode ser até interessante, mas de arte não há nada.

 

É claro que no meio de tanto joio há um pouco de trigo, mas infelizmente trata-se de minoria, geralmente não reconhecida.

 

A dificuldade que um professor de artes encontra na elaboração de uma boa aula de Arte Contemporânea seria semelhante à de um professor de literatura que fosse ensinar poesia a partir de uma música com algum hit da contemporaneidade como “Ah Lek lek lek (...)”.
 

Comentários Deixe o seu comentário

  • Eliane Maciel Moraes, 16:10 - 29/04/2013
    Esse texto reverbera em mim e em minha prática docente. Na verdade, ele explica toda a minha dificuldade com a Arte Contemporânea. Essa é a grande questão que me proponho: se os grandes musicistas e músicos ficam horrorizados em chamar os "lek-lek" da vida de música, por que eu, uma simples arte-educadora, devo apresentar essas "latinhas de fezes químicas idênticas a de seres humanos ou tela contendo esterco de elefante" como Arte? Simplesmente me recuso a fazê-lo.
  • elielton, 13:39 - 02/06/2014
    contribuiu bastante para minha pesquisa... valeu!
  • Patricia, 16:22 - 04/08/2015
    sou professora do Estado do Rio de Janeiro, aonde a proposta do currículo minimo, para o ensino médio, é sobre arte contemporânea. concordo plenamente com as questões abordadas em seu texto e ainda acrescento a dificuldade de abordar esse assuntos com alunos que chegam até nós com uma vivência ,muito restrita, no que diz respeito a arte, e que reagem muito quando colocados em contato com algo tão subjetivo com a arte contemporânea.

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