Sala de Leitura
Artigos

Os Artigos aqui apresentadas são de responsabilidade de seus respectivos autores. O Instituto Arte na Escola propõe sua leitura como fonte de pesquisa e estudo.

Lendo obra de arte com desenho

  Profª Dra. Maria Letícia Rauen Vianna
autora do livro: “Desenhando com todos os lados do cérebro-
possibilidades para transformação das imagens escolares” (2010)

 

Neste pequeno artigo, pretendo apresentar, unidas, duas das muitas vertentes do ensino de arte: o nosso ‘velho e conhecido’ desenho e a já ‘não mais tão nova’ leitura da obra de arte. Sabemos que, o desenho, em geral, representa uma grande dificuldade, especialmente, entre os adultos (Vianna, 2010) e, que a leitura de obras de arte é um desafio constante para os professores de arte (Barbosa, 1991; PCNs-Arte, 1997). 


O contexto: Unir essas ‘duas vertentes desafiadoras’ numa ‘mesma’ atividade para o desenvolvimento de ambas foi o que propus num workshop para professores, artistas e monitores de museu interessados nas questões da leitura de obras de arte, realizado em março de 2009.. 

Para tanto, foi escolhida, como obra desencadeadora, “Arca de Noé” (s.d.), um desenho a nanquim do mais conhecido artista paranaense, Poty Lazzarotto (1924-1998). 

Entre as várias obras do acervo permanente do Museu Oscar Niemeyer em Curitiba-PR - local onde se desenvolveu o workshop - esta foi a selecionada, entre outros critérios, por tratar de um tema instigante: a popular história do Velho Testamento (Gênesis, 6-9), de presença marcante no imaginário coletivo, com amplas possibilidades lúdico-expressivas. 

Iniciamos o workshop com uma visita à sala onde estava exposta a obra. Pedi aos participantes interessados em leitura de obra de arte que se detivessem diante dela e tentassem identificar todos os animais que havia na arca, listando-os por escrito. Essa foi uma forma de ‘obrigar’ os participantes a olharem, verdadeira e demoradamente, a obra em todos os seus detalhes, conforme o que recomenda Buoro (2002):

  (..) ver significativamente uma imagem de arte”, [evitando] “(..) um olhar rápido, descompromissado ou condicionado”, [exercitando] “(..) um olhar atento e indagador, olhar de quem quer aprender e compreender. (..) olhar de encontro, de descoberta, de percepção intuitiva e curiosa”, [para não ser apenas um olhar de] “(..) simplesmente constatar a existência do objeto. (BUORO, pp. 40-41, [com inserções de VIANNA, a autora deste artigo])

Como se pode observar, na “Arca de Noé” de Poty, os animais estão representados de maneira um tanto ‘amontoada’ e, por isso, evidentemente, uns acabam ‘encobrindo’ partes do corpo de outros. Isso ocorre porque o espaço na arca é exíguo para tantos animais diferentes e, porque alguns estão localizados mais à frente e, outros mais atrás, em diferentes planos.


Retirando do contexto: Para este exercício de leitura/desenho, os animais foram por mim ‘retirados’ da arca, que, logicamente, a partir de sua separação, ficaram ‘incompletos’. Tais ‘pedaços de animais’ foram ampliados no computador e impressos, cada um em uma folha de papel que, ficou assim com um ‘começo de desenho’ de algum dos animais de Poty, conforme exemplos abaixo:


Tais folhas foram distribuídas aos participantes do workshop e, pediu-se que os animais fossem completados, com lápis 6B, continuando os traços de Poty, desenhando as partes que estavam faltando em cada um deles.

O novo contexto: Depois, para ser fiel à história de Noé, segundo a qual os animais ‘foram abrigados aos pares/casais’ na arca, foi pedido que desenhassem o “par” do animal (macho ou fêmea) que ‘estaria faltando’.
Por fim, solicitei que criassem um contexto, um habitat onde estes animais estivessem, imaginando uma situação ‘pré-dilúvio’ ou ‘pós-dilúvio’.


Conclusão: Apresento, a seguir, alguns depoimentos dos participantes após a experiência que, ao falar de desenho e de leitura de obra, creio, resumem os objetivos e a pertinência da proposta:

*Ao identificar os animais presentes na “Arca de Poty”, pudemos analisar como o artista trabalhou o seu processo criativo, compreendendo a forma pela qual compôs a obra. R.

*Brincar com os traços do artista foi uma verdadeira intervenção na obra, uma maneira de aprofundar a percepção dela, visualizando os planos e a dimensionalidade. T.

*O desafio de ‘reconstituir os animais’ levou a melhor perceber
elementos e detalhes. ‘Quebraram-se’ as barreiras entre a obra e o observador. L.

*A ‘continuação dos animais’ foi um método muito didático de estimular o desenho, reflexões e questionamentos e, principalmente, obter muita percepção do observador, tornando-o participante ativo da obra. K.

*Ao continuarmos os animais de Poty, deixamos de ser apenas observadores e passamos a participar da obra, compreender melhor os traços do artista e, principalmente, a desenvolver nosso próprio traço. C.

*Reconstruir uma parte da obra, deu a possibilidade de ‘terminarmos o desenho que o artista começou’. A. 



Pelos desenhos apresentados acima e pelos depoimentos dos participantes do workshop, constata-se: o desafio de realizar a leitura de imagens aliada ao fazer artístico, colocado por Barbosa (1991) e pelos PCNs (1997) é possível e eficaz. 

Entretanto, qualquer exercício de leitura e a atividade prática que a concretiza, têm que partir da observação profunda que o professor/monitor faça, ele próprio, da obra que quer que o aluno (ou o público) ‘leia’ verdadeiramente. É a própria obra, com suas características peculiares (tema, técnica, material, etc.) que pode induzir a concepção de exercícios artísticos que favoreçam sua apreensão. Ou seja, exercícios realizados para uma obra ''nem sempre'' (talvez, ''quase nunca'') podem ser aproveitados para outra: cada obra pode desencadear seus próprios fazeres e originar exercícios para ''se dar a ler'' ou ''se fazer ler''. Ao educador (professor/monitor) cabe descobrir quais fazeres/exercícios pode ''depreender'' de uma obra para que ela possa ser lida em sua plenitude. Por outro lado, igualmente, cabe a ele aproveitar esta oportunidade (ler uma obra) para desenvolver em seus ''leitores'' alguma habilidade artística insuspeitada (que, neste caso, foi o desenho de animais). 


Referências: 

Barbosa, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. São Paulo: Perspectiva; Porto
Alegre: Fundação Iochpe, 1991.

Buoro, Anamélia Bueno. Olhos que pintam. São Paulo: 
Educ/FAPESP/Cortez, 2003.

Ministério da Educação. PCN-Arte. Brasília: 1997.

Vianna, Maria Letícia Rauen. Desenhando com todos os lados do cérebro-possibilidades para transformação das imagens escolares. Curitiba: IBPEX, 2010.

Comentários Deixe o seu comentário

  • Edna Maria Pereira Leonardo, 16:03 - 26/06/2014
    Mais uma vez tenho o prazer de encontrar uma querida professora. Este artigo, como tudo o que me transmitiu na graduação, me marcou para sempre e fez despertar em mim a defesa pela melhoria das aulas de arte. Bjs

Deixe o seu comentário

Os campos assinalados com (*) são de preenchimento obrigatório.




Envie seu artigo

Compartilhe o seu conhecimento adquirido durante sua pesquisa.

Faça o login para enviar seu artigo

Filtrar artigos

Ver todos os artigos