Como escrever um bom relato

por Guilherme Nakashato*

 

O que é fundamental destacar em um relato de prática de arte/educação?

Penso que o relato deve ser objetivo e claro para que outros educadores possam compreender todo o processo de trabalho. Também deve ser reflexivo, pois também pode ser uma oportunidade para o educador avaliar a própria prática. Sugiro que o educador comece explicando o contexto geral que antecede o projeto desenvolvido (a escola; os alunos; os colaboradores – que podem ser outros professores, coordenadores, diretores, alunos, pais, a comunidade, etc.; a prática geral do educador; os pressupostos do educador; etc.). Depois, entrar no relato em si. No fim, uma breve reflexão sobre o processo, como esta prática contribui para o desenvolvimento dos alunos além do próprio trabalho de educação. Parece muito para 6 mil caracteres, mas deve ser objetivo – não é impossível.

Que tipo de linguagem utilizar?

Creio que deva ser formal, sem necessidade do extremo rigor acadêmico. Formal, pois o texto deve ser claro para qualquer professor de diferentes regiões e contextos ter acesso, mas sem cair na informalidade descabida, no coloquialismo da linguagem oral, que pode dificultar também a leitura. Sugiro, ainda, evitar linguagem hermética ou pressupondo que determinados conceitos específicos sejam familiares a todos. Neste caso, pode ser um texto simples (mas completo) em primeira pessoa e permeável a formas apaixonadas de escrita, pois trabalho bem feito em educação nos encanta e seduz. Daí a importância de uma reflexão pausada no final para não ficar apenas na empolgação do bom trabalho.

Você recomenda algum tipo de estrutura?

Se eu fosse escrever um relato, começaria explicando ao leitor de onde estou partindo (qual a situação de minhas turmas, qual minha ação geral na escola, quem me ajuda no quê e no que eu acredito). Depois descreveria o trabalho (como começou; quais minhas intenções/objetivos, como desenvolvi – etapas, metodologia e recursos e onde cheguei com os alunos; avaliação de aprendizagem). Terminaria com quais conclusões posso ter chegado como educador – uma breve avaliação do projeto.

Existe alguma dica especial para que o projeto se destaque?

Destacar a essência. Por que o projeto escolhido a ser relatado é especial? Que transformações foram impulsionadas por ele? Todo projeto é baseado em valores que ultrapassam a ação básica da escola – se está apenas cumprindo uma necessidade específica da escola, pode ser que seja um projeto regular, no sentido que cumpre apenas o trivial. Um projeto de destaque cumpre isso e vai além: proporciona uma transformação efetiva nas pessoas e, quem sabe, em todo contexto ao redor. Na verdade, acho que todo projeto em educação deveria ser assim. Então o que chamei a pouco de "projeto regular" não deveria nem existir.

*Doutorando em Artes Visuais pela ECA/USP. Professor no curso de Artes Visuais do Centro Universitário Estácio-Uniradial e analista de projetos socioculturais no SESI/SP, desenvolve pesquisas, propostas de mediação e oficinas de arte/educação para instituições culturais.

 

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