Artista & Obra

Rosana Paulino (São Paulo/SP - 1967)

“Eu olhava para o ambiente da arte no Brasil e falava onde estão os negros? Onde estão as mulheres negras na sociedade brasileira? Onde estão as mulheres negras na cultura visual brasileira?”

Rosana Paulino trabalha em suas obras com o tecido da memória social e histórica brasileira. Suas peças e instalações extrapolam o limite do suporte físico, remetendo ao lugar simbólico ocupado pela mulher negra no Brasil.


Artista de múltiplas linguagens, Paulino combina o desenho, a gravura, a fotografia e o bordado em obras que dão voz a questionamentos que são ao mesmo tempo individuais e coletivos - pertencimento, identidade e resistência estão em constante diálogo em suas produções. Ao mesmo tempo em que expõe traumas causados pelo racismo, a obra de Paulino também fala de cura e de afeto, em uma costura que trabalha o presente e o passado simultaneamente, pois é a partir da corporeidade negra atual que a memória e ancestralidade afro-brasileiras são resgatadas.

Doutora em Artes Visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, e especialista em gravura pelo London Print Studio, a artista já teve seus trabalhos expostos em museus como a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o University of New Mexico Art Museum, nos Estados Unidos.

Parede da Memória

Pequenos retratos, impressos em tecido, formam o extenso painel que é Parede da Memória. A obra é uma das primeiras produções de Rosana Paulino e surge da reprodução de onze fotografias da família da artista, que combinadas se desdobram em mais de mil imagens.

Nosso olhar se encontra com os rostos, as feições, as expressões de cada retrato e, como em um jogo, as imagens se combinam criando padrões e contrastes. Memória familiar e ancestral se unem na expressão de corpos negros que se fazem presentes. Reivindicam existência, resistência e pertencimento. “Você pode nos ignorar, pode ignorar uma dessas pessoas na multidão. Mas você não ignora 1500 pares de olhos sobre você. Nós estamos aqui. Existimos.”

Na obra, a memória é fortaleza e é também proteção, que aparece nas grandes dimensões do trabalho e no formato em que cada indivíduo é apresentado. As fotografias estão impressas em Patuás - pequenos objetos de tecido que, nas religiões de matriz africana, escondem amuletos de proteção. “[Nos patuás] você tem alguma coisa dentro que protege o dono, (...) e aqui eu inverto a operação, porque na realidade a gente não sabe o que tem dentro de um patuá. E o que deveria estar oculto, é como se eu trouxesse para frente através da memória familiar.”

Ficha técnica:

Tecido, microfibra, xerox, linha de algodão e aquarela.
8,0 x 8,0 x 3,0 cm cada elemento
1994/2015

Imagem da obra