Relatos de Experiência

Os Relatos de Experiência são de responsabilidade de seus respectivos autores. O Instituto Arte na Escola propõe sua leitura como fonte de pesquisa para o professor.

Anchieta Fotografando Chiapeta

A Escola Estadual de Ensino Médio Anchieta situa-se na cidade de Chiapetta (RS), acolhendo 502 alunos de características semelhantes, a maioria proveniente de vilas próximas à escola,outros advindos de comunidades de zona rural do município. A escola atende do primeiro ano do ensino fundamental e ao terceiro ano do ensino médio regular e na modalidade EJA Educação de Jovens e Adultos.

O presente projeto foi desencadeado a partir de encontros de formação continuada que acontecem no município de Chiapetta (RS), coordenados pela 36ª Coordenadoria Regional de Educação (Ijuí, RS) que, desde 2007, oferece formação aos professores de arte da rede municipal e estadual de ensino deste município, através do Setor Pedagógico desta Coordenadoria.

Estes encontros de formação docente convidam-nos a refletir sobre as inquietudes e a complexidade do que é ser professor no mundo de hoje. Nestes encontros, também, somos desafiados, especialmente a construir propostas educativas a partir da arte contemporânea, e sobre este foco realizarmos estudos.

O Projeto Anchieta Fotografando Chiapetta, foi desenvolvido com alunos da Escola Estadual de Ensino Médio Anchieta, de Chiapetta/RS, com turmas de primeiros anos do Ensino Médio, turmas de 5ª e 7ª séries do Ensino Fundamental, e na modalidade EJA e com alunos da Escola Municipal professora Lorete Fanck, nos anos finais do Ensino Fundamental.

A turma do 1º ano do Ensino Médio, formada por 27 alunos, oriundos do interior do município e da cidade, possuem idade entre 13 a 16 anos e possuem uma pequena caminhada no ensino da arte, mas pode-se dizer que nem todos dão conta deste aprendizado.

Este projeto tem, entre seus objetivos, apresentar a nova visão do ensino da arte, utilizando a fotografia como instrumento pedagógico. A arte contemporânea, através da fotografia, foi o fio condutor para desenvolver o trabalho, dando ênfase na obra do fotógrafo Sebastião Salgado. Escolhemos a obra de Sebastião Salgado por dois motivos: sua arte discute o ambiente, tema que foi escolhido pelo grupo de professores desta escola para ser abordado junto aos alunos, no 3º trimestre e pelo fato de se ter a mostra itinerante Êxodos disponível, de acervo da 36ª CRE, o que geraria a possibilidade de vivência direta à exposição tanto por alunos como pela comunidade, experiência ainda não realizada em nosso município.

Neste contexto a formação docente veio a contribuir e esclarecer dúvidas em relação à arte de nossos dias, que abrange questões complexas sobre a contemporaneidade e evoca um diálogo permanente com vários campos do saber, apontando as relações entre as transformações da sociedade contemporânea e as mudanças de ordem social, que se abrem em novos compromissos éticos e pedagógicos a serem assumidos pelos sujeitos que pensam e atuam na escola.

Nesse cenário buscou-se a colaboração de professores de História e Biologia pelos mesmos interesses. E, pela inquietação que arte gera, a interdisciplinaridade uniu os componentes da Arte e História, levando a maiores conhecimentos, o qual seria difícil sem essa integração. Após o levantamento de informações iniciais, tornou-se pertinente, de acordo com o assunto da pesquisa de Sebastião Salgado, a troca de experiências entre esses componentes curriculares, o que possibilitou verificar a complementaridade entre o estudo da fotografia de Sebastião Salgado relacionando mais especificamente com o contexto do educando e com o contexto maior.

Um dos desafios foi desmistificar o que por muito tempo entendemos sobre a arte, como aquela que buscava a perfeição, o belo enquanto agradável ou a expressão de nossos sentimentos; para então, compreender que a arte contemporânea, entre outras questões, tenta aprender o cotidiano e suas problemáticas, lançando mão dos mais diversos materiais e suportes, o que para o aluno e mesmo para a comunidade, ainda era estranho.Levou-se em conta o papel da arte na escola. Propiciar essas experiências, ler e produzir a arte destes novos tempos requer um exercício maior de percepção e criticidade.

As fotografias de Sebastião Salgado foram abordadas para que os alunos, sensibilizados pelos fatos, pudessem refletir sobre o seu ambiente, sobre sua própria vida, gerando novas atitudes e atuação local; suas imagens em preto e branco que correm o mundo, que despertam emoção sacudindo as indiferenças, constituem-se em um interessante objeto para discussões e debates a respeito da melhoria da vida humana no planeta, além da preservação do meio ambiente. A sua abordagem fotográfica é intuitiva e de forte cunho emocional, expressa calor pessoal, respeito pela dignidade humana, da sombra para a luz, da miséria para a solidariedade. Sebastião Salgado combina rara sensibilidade com consciência social.

. As fotografias revelam uma situação humana e, embora mostrem o sofrimento das pessoas, trazem à tona uma beleza escondida na miséria e no desespero, destas pessoas à margem da sociedade. Ela provoca o espectador através de um diálogo em tons de preto, branco e cinza, estabelecendo um jogo entre ausências e presenças. São pés, são chinelos, são tijolos, são metáforas, é o instante na eternidade. Estes pés são linguagens e expressões. Sob esse olhar, também objetivou provocar nos alunos a capacidade de relacionar as temáticas abordadas nas fotografias de Sebastião Salgado com a nossa realidade e servir de inspiração para os alunos ampliarem o repertório visual e artístico e sua leitura de mundo, o que possibilitou que questões fossem levantadas. As diversas formas de aproximação para compreendê-las, percorreram uma trajetória que vai desde a descrição (o que se vê), passando à interpretação (as idéias, os significados), até a produção do aluno.

Após estabelecidas as relações de respeito pelo trabalho de Sebastião e ter compreendido este trabalho enquanto arte, foi também necessário esclarecer que nem todas as fotografias que são tiradas atingem o status de obra de arte.

Em seguida, os alunos foram desafiados a projetar a sua experiência artística a partir dos estudos feitos até então, refletindo e dialogando durante as aulas sobre a atuação do Projeto. Os alunos reuniram-se em grupos e cada grupo planejou ações em torno disso. O interesse maior dos alunos foi para sair a campo fotografar. Decidiram então de “dar uma de Sebastião Salgado”, indo ao encontro da natureza que rodeia o cotidiano desses alunos, com máquinas digitais. Captaram imagens coloridas na comunidade a partir de temas que cada grupo definiu anteriormente, identificando e escolhendo locais significativos para o trabalho. Passeamos por locais na comunidade em que pessoas jogam lixo, cemitérios, matas, locais desmatados, vila carente da cidade de Chiapetta, entre outros.

Impressas as imagens em preto e branco, papel sulfite A4, analisamos as diversas fotografias capturadas pelos alunos. Nesta impressão, os alunos foram desafiados novamente a expressar-se artisticamente sobre elas, podendo usar os mais diferentes materiais e recursos possíveis e disponíveis, como: lápis aquareláveis, lápis de cor, imagens de revistas, jornais, tinta, explorando os limites e aprendendo então que na arte de hoje é possível mesclar materiais e linguagens. Misturou-se neste processo criativo elementos da linguagem fotográfica e plástica.

Assim, a intencionalidade do aluno ganhou um novo aprofundamento, surgiram dificuldades de criação e de resolução de problemas, pela pouca familiaridade com estas linguagens, porém houve bons resultados, associados às diversas temáticas. Ao interagir com a linguagem fotográfica, os alunos criaram, realizaram desejos, tiveram a oportunidade de ampliar seus olhares em relação ao contexto que vivem e ao mundo, se expressaram e ampliaram conceitos em torno da arte contemporânea.

. O encontro dos alunos com a arte contemporânea, não aconteceu de forma tão receptiva. O artista Sebastião Salgado e as imagens trabalhadas causaram boa impressão para alguns da turma, por se tratar de um trabalho que compõe um quadro crítico que procura provocar o público, dar-lhe a essência para pensar e repensar questões sociais, e entenderam que para Sebastião a arte tem pode levar a engajamentos e lutas. Outros ficaram incomodados, não conseguiram entender o que a arte questiona ou o porquê do artista retratar o sofrimento das pessoas, mostrar situações de exclusão, ou fazer esse tipo de arte. Houve a necessidade de trabalhar aos poucos, dando a abertura que os alunos refletissem sobre as margens e conceitos propostos pela obra, assim como também tive que preparar-me e procurar significados para o que estava propondo aos alunos.

Como se previa, não seria de um momento para o outro que os alunos compreenderiam as linguagens e propostas contemporâneas, foi necessário incitá-los para que estivessem sempre colocando suas dúvidas em pauta em sala de aula. No decorrer do tempo, compreenderam que a arte necessita de estudo, reflexão, pensamento,que não está sustentada apenas por critérios de gosto pessoal ou por ser uma obra bela ou feia. Com o passar das aulas e das discussões, dos textos lidos, das margens vistas e refletidas, os trabalhos práticos e teóricos possibilitaram que tivessem uma visão um pouco mais aguçada sobre seu cotidiano, percebendo inclusive, o que não costumam observar. Através das intervenções e trabalhos vistos, puderam perceber o quanto a arte pode nos transformar e o quanto ela é importante na escola.

A linguagem fotográfica foi utilizada pelos alunos de maneira natural, pois cada um possui uma máquina digital ou mesmo um celular com câmara. Partindo desta linguagem, os alunos perceberam a complexidade de um click fotográfico, as questões técnicas, manuseio, ângulos, luminosidade, e das escolhas que devem ser feitas ao fotografar. Estudamos também sobre a origem da fotografia e as mudanças decorridas a partir desta invenção.

Estabelecendo relações com o trabalho do fotógrafo Sebastião Salgado, iniciou a produção artística através da interferência em imagens pré-existentes, a intencionalidade em cada uma, mesclando vários tipos de materiais, explorando os conteúdos e as potencialidades dessas imagens, enfim, aspectos que envolvem a linguagem fotografia em seu processo de criação.

As práticas vivenciadas no decorrer do projeto foram discutidas visando ações educativas e possíveis aprendizados em torno da arte contemporânea.

Ao término desta experiência, nas avaliações que fizemos no grande grupo, os alunos discorrem com facilidade em alguns conceitos da arte contemporânea e da linguagem fotográfica , concluindo ter sido esta uma experiência inovadora e significativa.

O projeto culminou com a 1ª Exposição de Artes Visuais de Chiapetta, composta pelas obras de Sebastião Salgado, Mostra Itinerante Êxodos. Também, junto a esta, organizamos a 1ª exposição de trabalhos de arte produzidas pelos alunos de Chiapetta, que incluem alunos da rede municipal e estadual, nas quais também atuo como professora de arte. A exposição foi aberta também à comunidade e contamos com uma participação significativa. Esta exposição gerou a possibilidade de participação direta das pessoas de Chiapetta a uma mostra de arte, possibilitou a socialização das experiências dos alunos e provocou uma maior valorização e conhecimento da arte para toda a comunidade escolar e comunidade em geral e, pela avaliação dos envolvidos.

Vale ressaltar que tivemos a participação e apoio das equipes diretivas das escolas, além da parceria com o professor responsável pelo componente curricular de História, que contextualizou questões geográficas e sociais em suas aulas a partir das fotografias de Sebastião. Também tivemos a parceria do professor estagiário de Biologia que construiu com seus alunos, uma performance/dança sobre as temáticas efetuadas.


Referências Bibliográficas

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GULLAR, Ferreira. Argumentação Contra a Morte da Arte. Rio de Janeiro: Revan, 7ª ed.

MARTINS, Miriam celeste Ferreira Dias. Didática do Ensino da Arte: a língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer a arte. Miriam Celeste Martins, Gisa Picosque, M. Terezinha Telles Guerra. São Paulo;FTD, 1998.

NAVES, Rodrigo. A Forma Difícil: ensaios sobre arte brasileira. São Paulo: Ed. Ática, 2ª ed. 1997.

PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais – Arte – 1997;

PILLAR, Analice Dutra (org). A Educação do Olhar no Ensino das Artes. Porto Alegre: ed. Mediação, 1999.

Power Point – Sebastião Salgado


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