Relatos de Experiência

Os Relatos de Experiência são de responsabilidade de seus respectivos autores. O Instituto Arte na Escola propõe sua leitura como fonte de pesquisa para o professor.

Desvelando a cultura japonesa na Educação Infantil: Japáo-Brasil

A escola municipal de Educação Infantil Professora Rosangela Vieira Martins de Carvalho, localiza-se no bairro Jardim Marambá, na cidade de Bauru-SP, e foi inaugurada no dia 31 de agosto de 1995. Uma equipe de oito professoras efetivas, duas substitutas, duas serventes, uma merendeira e uma diretora atende, atualmente, a um total de 210 alunos, com idade de 2,6 meses a 6 anos, divididos em dois períodos: manhã e tarde.

Nossa clientela, em sua maioria, é constituída por alunos, cujos pais são profissionais liberais ou funcionários públicos que sobrevivem e sustentam suas famílias com uma renda média baixa.

Com a elaboração do Projeto Político-Pedagógico, a equipe da EMEI Profª. Rosangela ressignifica suas ações, a partir do texto elaborado pela Coordenadoria Estadual de Normas Pedagógicas de São Paulo (CENP): Proposta Educacional: currículo e avaliação (Série Argumentos), propondo o compromisso pedagógico a partir das diretrizes desse documento:

“A Escola contribuirá para que as relações sociais sejam de igualdade, estimulando o aprendizado do diálogo, do construir, do trabalhar, do entender-se.

Atenta ao processo de desenvolvimento físico, afetivo e emocional, próprio de cada um, a comunidade escolar deverá se mobilizar para reconhecer, respeitar e conviver com as diferenças individuais, etnias, credos, situação social etc. Isso requer novas posturas de todos os que participam do processo educativo, que se realiza dentro e fora da sala de aula.

Internamente, aulas participativas que valorizam a iniciativa, os avanços individuais e o crescimento coletivo são oportunidades inigualáveis de construção de novas formas de convivência. Externamente, em todas as situações de convívio, a permanente postura de respeito mútuo deve ser uma preocupação constante de todos. Desse modo, a escola concorrerá para a inserção crítica e criativa do homem no universo das relações simbólica, favorecendo a produção/utilização das múltiplas linguagens das expressões e dos conhecimentos históricos/social, cultural, científicos e tecnológicos”.

Ao rever o Projeto Político-Pedagógico da escola, que priorizava a construção do conhecimento por meio de projetos, elaborei como proposta unir os acontecimentos nacionais ao meu fazer pedagógico.

Era 2008 – ano do Centenário da Imigração japonesa no Brasil. No primeiro momento, minha preocupação, como professora, foi realizar a avaliação diagnóstica, observando o grupo: seus saberes, interesses, costumes e buscar construir vínculo com o grupo de alunos traçando, desse modo, um percurso, já que na prática pedagógica, penso ser de fundamental importância observar e ouvir as crianças, pois são elas que propiciam os indícios do caminho que o professor pode seguir.

A partir dessa avaliação diagnóstica, fundamentei-me nos postulados de Thiollent (1988, p. 14) sobre pesquisa-ação "é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. [...] é uma forma de engajamento sócio-político a serviço da causa das classes populares." Assim, elaborei o projeto de intervenção que foi se ampliando no desenrolar do processo de ensino-aprendizagem, como é natural, em virtude dos interesses das crianças.

Ressalto que esse tipo de trabalho permite o uso da interdisciplinaridade com outras áreas de conhecimento, o que enriquece, sobremaneira, o aprendizado planejado e desenvolvido de forma sistematizada.

Nessa perspectiva, abordamos, a seguir, o desenrolar da pesquisa-ação empreendida, que abrangeu inúmeras atividades, dentre elas, leitura de imagens, reescrita de conto pela professora, a partir de elaboração oral dos alunos, teatralização, aula-passeio, pintura, recorte e colagem, vivência da cultura japonesa em contato com alimentos, músicas, instrumentos, indumentária etc.

A partir da primeira observação do grupo de alunos, pude constatar expressivo número de descendentes de japoneses e, logo nos primeiros dias de aula, fui presenteada com um pássaro de papel “tsuru”: pássaro sagrado para o povo japonês que simboliza sorte, paz, felicidade e longevidade.

Buscando conhecer melhor as diferentes etnias, descobri uma aluna que nasceu no Japão, outro aluno cujo pai trabalhava no Japão, que uma aluna sabia escrever o nome em japonês. Enfim, essa riqueza cultural despertou o interesse do grupo de alunos e, com base nessa curiosidade, abri possibilidades, por meio da pesquisa, de conhecer e valorizar a riqueza de diversidade étnico-racial e cultural presente em nossa sala de aula.

Com o envolvimento das crianças, decidimos conhecer um pouco da cultura japonesa, partindo da valorização da riqueza cultural presente no contexto escolar, proporcionando conexões entre diferentes linguagens, bem como entre os elementos do ensino de Arte, visando à construção do conhecimento significativo com o projeto: Desvelando a cultura Japonesa na Educação Infantil: Japão-Brasil. Esse projeto possibilitou que professores, alunos, pais e comunidade conhecessem e vivenciassem um pouco da cultura japonesa.

Para orientar o trabalho pedagógico-didático, tracei os objetivos: conhecer a cultura japonesa; apropriar-se do saber elaborado a partir de pesquisa, observação e leituras; vivenciar situações de interação que possibilitem à criança expressar seu ambiente, suas emoções, tendo contato com várias situações, objetos e pessoas estabelecendo relações afetivas. Sem perder de vista a estrutura do Planejamento, em que há necessidade de trabalharmos conteúdos cognitivos, procedimentais e atitudinais, iniciei o trabalho com os conceitos de modo a propiciar o desenvolvimento de competências, habilidades, valores e atitudes durante o processo de ensino-aprendizagem, adaptando tudo à faixa etária dos alunos.

Busquei criar situações para que as crianças pudessem vivenciar a cultura japonesa e apropriar-se dela, enfatizando seus valores, relacionando e reconstruindo os conhecimentos prévios trazidos pelos alunos com a atual realidade e, ainda, procurando construir atitudes de interesse pela pesquisa e pelo conhecer, compartilhando saberes, respeitando as diversidades culturais, chamando a atenção para o cuidado com objetos e materiais trazidos como fontes de pesquisa, respeito a locais de pesquisa (visitação), assim como para expressarem suas ideias de maneira espontânea, livre e criativa.

O origami presenteado pela aluna, denominado “tsuru” pelos orientais, é o pássaro da sorte e, segundo ela, aquele que deseja boas vindas à professora. Essa novidade despertou o interesse dos alunos e, nesse momento, pensei em focar a questão da Arte em origami (dobradura em papel, de origem japonesa); não tive dúvidas em embarcar, desvelar e conhecer um pouco da cultura japonesa. Iniciamos com as dobraduras do barquinho, leque, gatinho, florzinha etc. Sentindo o interesse do grupo e a possibilidade de irmos mais além, elaboramos um bilhete aos familiares, explicando nosso objeto de estudo, envolvendo, assim, pais e familiares no processo de pesquisa, levando-os a participar do processo de aprendizagem dos filhos.

Esta parceria com pais e familiares me surpreendeu! Os alunos tiveram a oportunidade de socializar e compartilhar o material de pesquisa na “roda da novidade” que é uma atividade dinâmica onde colocamos na “roda da conversa” todas as novidades trazidas pelo grupo, tornando-se um momento para ampliação do repertório cultural. Foi muito intenso esse processo de pesquisa com a participação das famílias, em que a cultura japonesa foi encantando e surpreendendo: começamos a enxergar e conhecer uma cultura que faz parte do nosso dia a dia, mas da qual ainda pouco conhecíamos. Foi a forma encontrada para despertar o interesse e valorizar a cultura oriental, fazendo os alunos perceberem os costumes, crenças e valores de outros povos.

Dando continuidade ao trabalho, os alunos pesquisaram fotos, imagens, jogos e objetos como: amuletos, leque, quimono, boneca, livros de história japonesa, hashi (dois palitos utilizados para comer como se fossem garfo), livros com técnicas de dobraduras, moeda japonesa, pintura Sumiê, bonsai, ideogramas japoneses, mapa, comida,como por exemplo: arroz e sushi, enfim, ampliamos nossas referências sobre a cultura japonesa. A pesquisa levou os alunos a compreenderem que temos muito para conhecer e aprender sobre o que cada indivíduo traz consigo; uma cultura que deve ser respeitada e, com a globalização das culturas, carregamos um pouco dos costumes de diferentes povos que, muitas vezes, não conhecemos.

Como parte da pesquisa de material sobre a cultura japonesa, a professora Shirley, descendente de japonês, emprestou-me uma fita-cassete com contos japoneses que, até então, não faziam parte do meu repertório. Após conhecer as histórias, fiquei encantada com os efeitos sonoros que me fizeram viajar para o Japão. Então, utilizei a atividade da “hora do conto”, para que os alunos, ao ouvirem e imaginarem a história, pudessem vivenciar a cultura japonesa. Quando ouvíamos os contos em sala de aula, trabalhamos também a questão do fuso horário (dia e noite).

Durante o desenrolar do projeto, despertamos o interesse de outras professoras que se prontificaram a também trazer objetos para instigar o interesse dos alunos como: tamanco, hashi, leque e, ainda, uma aluna descendente de japoneses trouxe quimono e tamancos. Como professora envolvida com a pesquisa, participei de um curso sobre Bonsai: arte de cultivar árvores em bandeja. Existe a crença de que as montanhas com suas árvores, florestas e pedras estejam carregadas de poderes espirituais e, dessa forma, os japoneses miniaturizam a paisagem montanhosa, trazendo-a para dentro da casa, para a possuírem de forma concentrada cultuando-a como um santuário.

Dentre os materiais de pesquisa, encontrei um livro de história japonesa, todo escrito em japonês. Estávamos diante de uma problemática: como ler o livro sem dominar a código da língua japonesa? Estávamos diante de um texto verbal e não verbal e, como não tínhamos o conhecimento da decodificação dos ideogramas japoneses, partimos para a leitura do texto-imagem.

Iniciamos o processo de leitura do conto: O momotaro, tendo como referência a metodologia de Robert. Willian Ott. (apud MARTINS, PICOSQUE e GUERRA, 1998), que propõe cinco estágios para a leitura: descrever, analisar, interpretar, fundamentar e expressar. Todos esses estágios foram trabalhados de forma simplificada, tendo em vista a faixa etária das crianças. Os alunos observaram que a leitura do livro se iniciava da direita para a esquerda, uma forma própria de escrever dos orientais, que não segue nossa leitura verbal, e puderam constatar que a representação da escrita japonesa é bem diferente da escrita da língua portuguesa.

Foi assim, por meio da observação dos elementos plásticos da imagem, e contextualizando com o repertório dos alunos, que fomos construindo o texto verbal, onde os alunos participaram o tempo todo com suas sugestões, por meio do que estavam vendo: abordavam as sensações que o texto transmitia, favorecendo a exploração do sentido, buscando captar o que estava por trás do texto visual. Durante o percurso, percebemos que o conto tratava-se de uma história que já tinham ouvido em fita-cassete


Desse modo, percebemos que, antes dos códigos linguísticos, o Ensino da Arte possibilita a leitura do mundo. Os alunos, na área da Língua Portuguesa, compararam a escrita japonesa com a portuguesa, observando as diferentes representações da escrita, e arriscamos fazer a representação de alguns ideogramas. Na roda da leitura, os alunos tiveram contato com imagens e a escrita japonesa, ampliando-lhes a percepção sobre a cultura oriental. Conheceram, ainda, um pouco mais sobre a cultura japonesa com a visita da mãe da Mayumi, que preparou, com muito carinho, essa visita, compartilhando com o grupo muitas novidades e curiosidades sobre sua história de vida e a experiência de morar no Japão. Nesse sentido, os alunos não conheciam a escrita japonesa, mas foram capazes de construir o texto por meio de observação, interpretação, contextualização, repertório, vivências, troca de experiências, respeito e interesse em conhecer as diversidades culturais existente no contexto escolar. As trocas de experiências eram nítidas no processo de construção do conhecimento.

As crianças descendentes de japoneses sentiram-se valorizadas; partilharam com o grupo algumas palavras em japonês como: arigatô (obrigado), oraiô (bom dia), saionará (tchau), banzai (viva), contar em japonês etc., ampliando o repertório dos alunos na língua japonesa. Os alunos tiveram acesso a diversos textos verbais e não verbais, contextualizando o momento histórico com o momento atual e a diversidade cultural.

A partir da leitura do jornal Folha de São Paulo (jun. 2008), conversamos sobre os cem anos de imigração, a história da chegada dos japoneses ao Brasil em 18 de junho de 1908, no navio Kasato Maru, no Porto de Santos, em 1914, e que vieram de trem para Bauru. Esse navio saiu do porto de Kobe, no Japão, e trouxe os primeiros imigrantes, em busca de melhores condições de vida; vieram para trabalhar nas fazendas de café e algodão.

A seguir, passamos para a leitura dos diversos contos japoneses trazidos pelos alunos; esses contos foram trabalhados em diferentes linguagens: leitura verbal, leitura de imagem, trabalhamos a escrita, fizemos instalação e dramatização de um conto e pintura. O Momotaro narra a história de um menino que nasceu do pêssego. Um casal de velhos não tinha filhos, mas, um belo dia, quando a velha estava lavando roupa no rio, veio ao seu encontro um grande pêssego. Ao cortá-lo, encontrou um belo menino que trouxe muita felicidade para a família. No desenrolar do trabalho com essa história, tivemos oportunidade de abordar temas transversais como maternidade, paternidade e família, além de abordamos valores como: amor, amizade, solidariedade, união e partilha. Do mesmo modo, fomos trabalhando numa verdadeira teia de saberes.

Realizamos vários estudos, como por exemplo: através da observação do mapa-múndi e do globo terrestre, os alunos puderam localizar e perceber a distância entre Brasil e Japão. Ainda, observando e fazendo as leituras das bandeiras do Brasil e do Japão e seus significados, foi proposto aos alunos pensarem de forma criativa para construir bandeiras, valendo-se de diversas formas geométricas e cores. Os alunos também tiveram acesso a diferentes portadores e gêneros de textos, tais como: jornalísticos, narrativos, mangás, imagens, monumentos, templos etc. O espaço mágico para contar as histórias também foi preparado.

Como narradora, preparei-me com quimono, emprestado por uma mãe, e com outros adereços remetendo- me à cultura japonesa. O objetivo foi fazer com que a criança vivenciasse e se apropriasse da cultura de uma maneira lúdica. Fizemos, também, a reescrita do conto Momotaro, em que os alunos foram verbalizando o texto e eu o escrevendo na lousa, focando a função social da escrita como registro, e refletindo com os alunos sobre o processo de construção da escrita. Em grupos, fizemos três livros sobre o reconto do conto Momotaro; um para ficar na biblioteca da escola para todos os alunos terem acesso, um para circular entre os alunos do grupo e socializar com familiares e o terceiro foi presente para a professora.

Representamos o conto por meio da instalação, focando forma, volume, proporção, espaço e quantidade, utilizando os seguintes materiais: caixa de papelão grande como suporte para representar o rio, garrafas pet de diferentes tamanhos, jornal para papietagem, bexiga, papéis diversos coloridos, tinta e cola de farinha. As crianças prepararam a dramatização do conto O Momotaro; o figurino: quimono e máscaras feitas com embalagens e sacos de papel para pizza. Por meio da técnica da pintura, recorte, colagem e desenho, os alunos caracterizaram os personagens do conto: faisão, macaco, cachorro e onis.

Através da oralidade e da gesticulação representaram o conto. A narradora e a família do Momotaro foram caracterizadas com roupas japonesas. A dramatização foi socializada para todas as turmas do período. Ainda, ampliando esses estudos, os alunos conheceram o templo japonês Tenrikyo, sua arquitetura, jardim japonês, nos espaços urbanos da cidade de Bauru. Com as observações de imagens do jardim japonês, visitação e assistindo ao vídeo de Amélia Toledo, da DVTeca Arte na Escola, fizeram observação da natureza do espaço escolar.

Pudemos colecionar pedras, alguns pais enviaram pedras e, focando o jardim de pedras japonesas, observando formas, tamanhos, brincando com as pedras, os alunos criaram desenhos e esculturas em grupos. Escolhemos, então, um espaço da escola para o transformamos no cantinho do jardim japonês. Também, em comemoração aos 100 anos da imigração japonesa, os alunos participaram da mostra de Artes das escolas Municipais de Educação Infantil e Ensino Fundamental, realizada no Poupatempo de Bauru, dos dias 19 a 28 de agosto, na qual apresentamos nosso Pôster do trabalho realizado com os alunos e a instalação do conto japonês Momotaro, que foi prestigiado pela comunidade bauruense. Os alunos visitaram a exposição e puderam ampliar seus conhecimentos sobre a cultura japonesa, participando de oficinas de origami, apresentação de dança japonesa à hora do conto com a japonesa made in Brasil “Ana Kati”.

Oportunizamos aos alunos a apreciação da técnica de pintura da ilustradora e escritora Lúcia Hiratsuka (1988), que consiste na pintura do preto no branco, com pincel de ponta fina, tinta preta, água e leveza dos traços com suas curvas e retas construindo diferentes formas. Os alunos representaram a arte Sumiê, expressando a leveza e o contraste do preto no branco, com uma pintura bem aguada dosando a intensidade da cor, representando, por meio da pintura, todo o repertório construído durante o percurso do nosso projeto; essa pintura foi feita em tela.

Ainda, fizemos no espaço da escola uma exposição desses trabalhos realizados para apreciação de todos. Finalizando o projeto, preparamos para a formatura dos alunos uma dança japonesa com a música Kutsu ga naru, homenageando os 100 anos de Imigração Japonesa. Pais, familiares, convidados e comunidade tiveram a oportunidade de vivenciar e prestigiar a cultura japonesa através da dança. Não posso deixar de agradecer ao grupo da terceira idade da Associação Cultural Okinawa que, atenciosamente, indicou-me a música e orientou na coreografia, como também agradecer à colaboração da escola municipal Jaty C. Gorreta pelo empréstimo dos quimonos. Fazendo uma análise retrospectiva do desenvolvimento desse projeto, ressalto que, no primeiro momento, pensei que nosso trabalho abrangeria apenas as atividades com dobraduras, uma técnica presente na sala de aula e que havia sido o elemento motivador do projeto.

A partir do momento que envolvemos a família no processo da pesquisa, focando o momento histórico dos 100 anos de imigração, o projeto atingiu uma magnitude que me surpreendeu; aprendemos juntos e construímos um rico repertório sobre a cultura japonesa envolvendo todas as áreas do conhecimento. No desenrolar das atividades com as dobraduras, a partir da curiosidade das crianças sobre hábitos, crenças e valores japoneses, surgiu-me a inquietação: como trabalhar essa cultura tão rica da qual sabia tão pouco?!

Como professora foi um desafio muito grande! O desejo do querer construir o conhecimento falou mais alto; afinal, foram os próprios alunos que manifestaram esse desejo de conhecer a cultura japonesa. Os alunos sempre alimentaram o projeto com suas pesquisas e curiosidades, prazer e entusiasmo no processo, que eram contagiantes. Naturalmente, as crianças foram-se apropriando da cultura japonesa e era comum vê-las cumprimentando uma às outras na língua japonesa, contando, dançando e gesticulando. Toda essa vivência e crescimento dos alunos resultaram como avaliação desse trabalho, destacando-se que, realmente, o que foi focado foi bastante significativo para eles. Até mesmo o ensaio da dança japonesa chamou a atenção de um morador do bairro que fez questão de elogiar a riqueza cultural que as crianças estavam vivenciando, valorizando esse trabalho realizado.

Fica a lição pedagógica de que, quando temos amor por aquilo que estamos fazendo, as coisas vão fluindo, e seguimos uma busca constante para atingir os objetivos. Sendo a linguagem da Arte algo que encanta as crianças, o caminho que escolhemos para conhecer nossa história e construir nossa identidade foi por meio das sensações. Trouxemos o Japão para dentro de nós, por meio das observações de imagens, fotos, objetos, observação da natureza, enfim, influências da cultura japonesa que estão presentes em nosso contexto social e que, pela falta de conhecimento, não paramos para pensar no multiculturalismo existente. No entanto, a partir do momento que começamos a abrir nossos sentidos para perceber e sentir o mundo que nos rodeia, fomos conhecendo nossa história com as influências da imigração japonesa no Brasil, estabelecendo relações com nosso contexto atual, desvelando nossa existência e respeitando a singularidade das coisas.

O ano de 2008 foi um ano de novas conquistas, recomeçando meu trabalho pedagógico em uma nova unidade escolar na qual fui muito bem acolhida. Quando apresentei o projeto à direção, recebi total apoio e, estando ela sempre presente no processo, pude contar com algumas sugestões para enriquecer ainda mais nosso trabalho; uma delas foi a aula-passeio ao Templo japonês da cidade, na qual a direção contratou a condução para levar as crianças que tiveram um momento muito rico, podendo vivenciar, de perto, a cultura japonesa. A equipe de professoras, no momento das apresentações do grupo estava sempre presente na colaboração e organização do cenário e registro fotográfico.

Pude, com isso, constatar que a maneira com que venho abordando o ensino da Arte com os alunos, influenciou a prática pedagógica dessas professoras que estão buscando compartilhar um novo olhar para esse ensino. Ainda, essa experiência de trabalho foi valorizada pelos pais que puderam perceber, no cotidiano, a interação dos alunos no processo de ensino-aprendizagem.

Também, a comunidade bauruense, professores, diretoras de outras unidades escolares, supervisores puderam prestigiar a exposição dos trabalhos desenvolvidos com os alunos em homenagem aos 100 anos de imigração japonesa: – Equilíbrio e Diversidade – 100 Anos de História: MOSTRA DE ARTES DA SECRETARIA MUNICIPAL DA EDUCAÇÃO – POUPATEMPO DE 19 A 28 DE AGOSTO DE 2008. Apresentação do pôster do projeto: Desvelando a cultura japonesa na Educação Infantil: Japão-Brasil e a instalação do conto Momotaro. Para culminar, esse trabalho foi apresentado no VI Encontro de Arte e cultura: Pesquisa em Artes e do III ENCONTRO DOS PÓLOS PAULISTA “ARTE NA Escola”, realizado pelo Departamento de Artes e Representação Gráfica da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da UNESP, Campus de Bauru, no período de 3 a 7 de novembro de 2008.

Os registros foram feitos de relatos escritos, fotos e filmagens das atividades contendo um registro sistematizado do trabalho realizado com os alunos e as ações pedagógicas foram relatadas no caderno de registro e reflexões. Referências BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto.


Referencias curriculares nacionais para Educação Infantil.

Conhecimento de Mundo. Brasília: MEC/SEF, 1998. v. 3.

FOLHA DE S. PAULO. 100 anos de Imigração Japonesa: retratos dos “nossos japoneses” 18 de jun. 2008. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/especial/2008/imigracaojaponesa/>. Acesso em: 19 jun. 2008.

HERNÁNDEZ, Fernando. Cultura visual: mudanças educativas e projeto de trabalho. Porto Alegre: Artmed, 2000.

HIRATSUKA, Lúcia. Projeto de leitura Urashima Taro. Disponível em:. Acesso em: 23 jul. 2008.

JORNAL DA CIDADE – Bauru. A trajetória dos japoneses no município: onde encontrar o Japão em Bauru. Disponível em: < http://www.nippobrasil.com.br/2.circuito/2008_04.shtml>. Acesso em: 27 abr. 2008.

KUTSU GA NARU. Música folclórica japonesa. Disponível em: < http://www.youtube.com/watch?v=BxgjdqKmQ0s>. Acesso em: 12 abr. 2008.

MARTINS, Mirian Celeste; PICOSQUE, Gisa; GUERRA, M. Terezinha Teles. Didática do ensino de arte: a língua do mundo: poetizar, fruir e conhecer arte. São Paulo: FTD, 1998.

MIRANDA, Ana; OHTAKE, Tomie. Cerejeiras na noite. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2006.

SAKADE, Florence; KURASAKI, Yoshisuke. Histórias preferidas das crianças japonesas. São Paulo: JBC, 2001.

THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-ação. 4. ed. São Paulo: Cortez, 1988.

TOLEDO, Amélia. Razão e intuição. DVDteca Arte na Escola Disponível em: < http://www.artenaescola.org.br/dvdteca/pdf/arq_pdf_69.pdf>. Acesso em: 13 abr. 2008.

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