Relatos de Experiência

Os Relatos de Experiência são de responsabilidade de seus respectivos autores. O Instituto Arte na Escola propõe sua leitura como fonte de pesquisa para o professor.

A LEITURA DE IMAGEM COMO SUPORTE PARA ALFABETIZAÇÃO: Análise Do Projeto Grandes Centros Urbanos - UFMA

1 PROJETO GRANDES CENTROS URBANOS: uma metodologia de alfabetização através da imagem:

A Alfabetização Solidária – ALFASOL firmou uma parceria com a Universidade Federal do Maranhão no ano de 1998 na tentativa de diminuir a alta taxa de analfabetismo no Estado, atuando no município de São Luís e em cidades que possuíam um número de analfabetos superior a 40% da população, com idade acima de 15 anos.

Desde o ano de 2006 a empresa privada Companhia Vale (antes Companhia Vale do Rio Doce) fez parceria com ALFASOL e UFMA, assim passando a integrar o Projeto Grandes Centros Urbanos (PGCU), que atua nas áreas de impacto da Vale.

O diferencial do PGCU é iniciar o alfabetizando na leitura formal e crítica da imagem, para isso é utilizado o Kit Arte BR que é uma coletânea com reproduções de obras de artistas brasileiros, formulado pelo Instituto Arte na Escola. Portanto sua metodologia utiliza como ferramenta a leitura de imagem auxiliando no processo de alfabetização.

Busca-se com esta proposta valorizar “o universo vocabular dos grupos populares, expressando a sua real linguagem, os seus anseios, as suas inquietações, as suas reivindicações, os seus sonhos” (FREIRE, 2003, pág., 19-20), portanto, o repertório individual (conhecimento empírico do mundo), fazendo com que o indivíduo se torne parte integrante do processo de construção do conhecimento, para que a alfabetização seja carregada de significados e experiências valiosas em sala de aula.

Na alfabetização faz-se necessário que o aluno, construa um conhecimento significativo partindo das experiências que ele adquiriu no decorrer de sua vida, pois, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra” (FREIRE, 1989, pág.9). Quando vamos tomando consciência de que estamos no mundo (quando somos criança), percebemos e entramos em contato com este novo ambiente, por meio das relações que mantemos com ele no decorrer do nosso desenvolvimento cognitivo, assim, construímos um conhecimento de mundo que é subjetivo e baseado em imagens, pois, o mundo é formado por imagens.

Quando não dominamos ainda as palavras a única referência é a imagem/mundo à nossa volta. Por isso a contextualização é um dos grandes desafios da leitura de imagem, pois, além de situar a obra em seu momento histórico-social, diminui a distância da obra com o público e seu tempo, buscando uma proximidade com o momento histórico atual.
Portanto trata-se de uma contextualização com a realidade e o momento histórico do indivíduo, também.

Ao fazer a leitura de uma imagem busca-se como referência conhecimentos previamente adquiridos para favorecer a construção de um conceito sobre a imagem, pois em geral a imagem tem uma temática que está relacionada à vida social, e desse modo, estão mais próximas da realidade das classes populares, como é o caso do Kit Arte BR. Relacionando estes conceitos ao de alfabetização e letramento, têm-se uma educação que constrói indivíduos críticos e reflexivos.

2 ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO:

Segundo Magda Soares (2004, pág., 7), a alfabetização caracterizou-se por muito tempo como apenas o “ato de saber ler e escrever o próprio nome, ou escrever bilhetes simples”. Portanto este conceito está relacionado à aquisição da língua escrita, ou seja, aquisição do código lingüístico formal. No entanto não se pode considerá-lo como fato isolado, pois ele depende do letramento para que haja uma reinvenção da educação, ou seja, uma melhoria significativa nos resultados na busca da construção de sentidos.

Todavia, letramento não consiste apenas no domínio do código lingüístico, mas nas “competências de leitura e de escrita necessárias para a participação em práticas sociais letradas” (SOARES, 2004, p. 7), ou seja, trata-se da capacidade do indivíduo de atribuir significado àquilo que se lê e se escreve, portanto, não é apenas ser alfabetizado, dominar o alfabeto, mas estar apto a extrair um sentido daquilo que lemos.

Alguns programas de alfabetização de jovens e adultos oferecem um período extremamente curto para a realização de suas atividades. Por isso, toda preocupação que tange esta temática, está na conseqüência de resultados apenas quantitativos e não qualitativos, visto que o tempo é pequeno para desenvolver atividades significativas em sala de aula. O que ocorre é uma maquiagem dos reais números, pois ainda há 14 milhões de analfabetos (segundo dados do IBGE) e dentre as pessoas já alfabetizadas a metade são analfabetos funcionais, que não foram estimulados a ler o que escrevem e entender o que leem. E isso ocorre porque ainda não foi entendida ou não se quis entender a diferença entre dominar o código linguístico e ó exercício desse domínio para a produção de sentidos e as reais consequências desse exercício para a sociedade.

O PGCU aparece aqui como um programa que está nas condições dos outros, no que tange ao período de realização, contudo trata-se da tentativa de propor uma solução para que neste pequeno intervalo de tempo possa ser exercitada a reflexão e o pensamento crítico, no intuito de produzir sentido, e isto acontece através da leitura de imagem, que estimula o aluno a expor e resgatar seu conhecimento de mundo.

3 ALFABETISMO VISUAL:

Através da imagem o homem da Pré-escrita apreendeu sua realidade. E a partir da reprodução ou da representação dessas imagens que se desenvolveram os sistemas linguísticos, peculiares a cada sociedade, ou seja, os sistemas de códigos linguísticos são projeções das imagens e objetos da realidade para dentro de convenções simbólicas abstratas. Pois se analisarmos as pinturas rupestres desde o Paleolítico até o Neolítico perceberemos uma tendência à abstração, as reproduções não tendem mais ao naturalismo, ou seja, às representações comprometidas com a reprodução do real. Esta tendência à abstração é que estabelece o momento em que o homem cria e estabelece as convenções de seus códigos linguísticos.

A linguagem foi uma forma de conceituar, representar e evocar imagens e objetos da vida cotidiana não presentes, e, de organização do pensamento, do raciocínio lógico. Na alfabetização verbal nos apropriamos, primeiramente, de códigos abstratos (letras, pontuações e acentuações), que tem uma representação sonora específica (envolvendo todo campo de estudo da fonética). Estas representações abstratas, construídas por imagens ou desenhos, as letras, organizadas dentro de padrões de construção (sintaxe) são apresentações visuais de um conceito, de uma ideia como já foi dito.
Compomos sílabas, união de duas ou mais letras, e palavras, união das sílabas e organizamos todo esse sistema lingüístico através da sintaxe, de convenções linguísticas, para, enfim, chegarmos à construção de um sentido. Dessa forma a alfabetização verbal constitui-se da aquisição de técnicas e convenções bem estruturadas e organizadas, baseadas em imagens.

O mundo é composto por imagens, portanto a alfabetização visual se dá através do aprimoramento da análise e reflexão dessas imagens que correspondem às experiências de cada indivíduo em suas relações com o mundo. Esse aprimoramento ocorrerá com o contato direto, um meio favorável e dedicação dos indivíduos em apreender e estabelecer críticas ao mundo das imagens que os cercam, no qual atribuímos o termo de contextualização.

De certo é muito importante que se aprenda os elementos básicos da comunicação visual, pois também são parte ou eles originam o signo linguístico por meio do ponto, da linha e da forma e contribuem através da leitura formal da imagem para essa alfabetização visual, contudo, mesmo que o indivíduo não domine os elementos da linguagem visual, este é capaz de construir sentidos a partir da imagem. O conceito de alfabetismo visual traz em si a mesma lógica da alfabetização verbal, por isso da importância de se trabalhar com a arte e de se aprimorar o domínio da imagem, através da análise e do estudo de seus elementos.

Por meio de processo histórico a educação visual foi deixada de lado e não se desenvolveu ou não amadureceu. Mas de certo o alfabetismo visual está relacionado mais diretamente ao letramento, pois é estimulado o senso crítico e uma fluidez rápida na atribuição de significações aos elementos ou ao conjunto apresentado e uma gama maior de interpretações levantadas sobre um mesmo referente.

É nessa visão que o PGCU busca fazer a diferença dentro dos programas governamentais realizados no país, mas sabemos que é um longo caminho para se chegar a um bom e reconhecido resultado. Mas sendo um projeto piloto dentro da Alfabetização Solidária é interessante que sua proposta metodológica tente dinamizar o processo de alfabetização experimentando uma metodologia e dando visibilidade e importância também ao profissional que trabalha os conteúdos artísticos.

5 CONCLUSÃO:

A alfabetização visual e alfabetização verbal caminham na mesma lógica de construção, pois ambas tomam a apropriação simbólica como meio para se alcançar a alfabetização, contudo ambas não se restringem à apenas adquirir símbolos, mas exercitar a consciência crítica. As alfabetizações tanto visuais quanto verbal caminham lentamente no Brasil, por mais que haja pessoas que dominam ou conhecem o alfabeto, muitos não compreendem o que leem, assim é com a imagem (obra de arte), não se busca uma avaliação crítica, mas apenas juízos de valores do senso comum como: gostei ou não gostei, esta realidade necessita de mudança, e a mudança é exercitar o olhar para as imagens do mundo e isso cabe ao educador instigar. As imagens do cotidiano funcionam de forma utilitária, para os indivíduos, como por exemplo, para se chegar a algum lugar busca-se uma imagem como referência: um prédio alto e amarelo, mas não se entente ainda a importância que a imagem tem e teve para o desenvolvimento cognitivo do ser humano.

Referências bibliográficas

REFERÊNCIAS

BARBOSA, Ana Mae. A imagem no ensino da arte. 6 ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.
SOARES, Magda. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, Jan-Abr, número 025: Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, São Paulo, 2004, pp. 5-17.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 23 ed. São Paulo: Editora Cortez, 1989.
FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 43 ed. São Paulo: Editora Cortez, 2003.
Disponível em: http: //WWW.ibge.gov.br/home/presidência/noticia/noticia_visualia.php?id_noticia=123&id_pagina=1// acessado em: 16/12/2009

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