Relatos de Experiência

Os Relatos de Experiência são de responsabilidade de seus respectivos autores. O Instituto Arte na Escola propõe sua leitura como fonte de pesquisa para o professor.

Experimento duplo-cego

Vocês sabem o que é audiodescrição? Foi com essa pergunta que comecei uma das minhas aulas com os alunos do 8º ano do Ensino Fundamental do Colégio Helyos, em Feira de Santana (BA). A grande maioria desconhecia este recurso que permite o acesso de pessoas com deficiência visual (baixa visão e cegueira total) a filmes, espetáculos de dança e teatro, entre outras manifestações visuais, e que norteou o projeto “Experimento Duplo-Cego”.

Para sensibilizar os alunos para a relação entre a arte e a acessibilidade, exibi trechos de filmes e curtas-metragens audiodescritos, como "Querido John", as animações “A Casa é sua” e “Retorno de saturno”. Assistimos duas vezes, inicialmente com os olhos fechados e depois abertos, e a maioria dos alunos afirmou que o entendimento do que viu era diferente do que havia imaginado a partir da narração. Conversando sobre a experiência, concluímos que ao ter contato com a audiodescrição, de certa forma, re-criamos o que está sendo descrito, e que a própria pessoa que descreve coloca na narrativa as suas impressões, por mais imparcial que pretenda ser.

Discutimos a questão da acessibilidade na cidade, praticamente inexistente, e assistimos ao documentário “Janela da Alma”, onde dentre uma série de reflexões sobre a questão do olhar, o depoimento do fotógrafo romeno cego Evgen Bavcar chamou bastante atenção. Quando exibi uma reportagem sobre o curso de fotografia oferecido pelo Museu de Arte Moderna (SP) para deficientes visuais, “Imagem e percepção”, a surpresa foi maior ainda.

Entre sensibilizações, provocações e discussões, surgiu a ideia dos alunos descreverem algumas obras que haviam analisado em uma proposta didática anterior, como "As meninas” (Diego Velásquez), "O casal Arnolfini" (Jan van Eyck) e a escultura grega de “Laocoonte e seus filhos”, entre outras. Como apresentá-las para deficientes visuais? Deu muito trabalho! Em grupos, os estudantes “revistaram” 17 obras, escreveram e reescreveram textos descritivos. Gravamos os áudios utilizando um microfone direcional e um gravador mp3 simples, etapa que exigiu enorme concentração, pois eles tinham que falar pausadamente, de maneira clara, sem dar a impressão de estarem lendo.

Escutamos, então, estas gravações editadas no escuro – eles se divertiram identificando sua própria voz e dos colegas. Repetimos esta experiência buscando agregar uma experiência visual ao som, iluminando papéis em branco com luz negra, mas ela clareava outras partes do ambiente também. Encontramos, então, uma alternativa: por meio de uma parceria com o Núcleo de Apoio ao Aluno com Necessidades Especiais da UFBA (NAPE), imprimimos em braile e num papel especial o título das obras que eles descreveram, e posteriormente aplicamos uma tinta que brilha no escuro. Os alunos ficaram extasiados, pois ela destacava o relevo que podia ser tocado, ou seja, o papel virou uma espécie de suporte. Sugeri, então, que eliminássemos os títulos das obras da audiodescrição – eles só seriam “acessados” por meio do tato ou visão.

Realizamos, por fim, o experimento. O público, formado por pessoas com e sem deficiência visual, entrava em uma sala escura, escutava a audiodescrição e acessava os títulos das obras em braile por meio do tato. Desta forma, buscamos instigar a imaginação dos visitantes, inclusive daqueles com visão normal que não teriam o referencial imagético dessas obras. Nossa intenção foi provocar inquietações, já que em sala de aula havíamos discutido que atualmente, diante de inúmeras imagens, vemos demais e enxergamos de menos.

Em setembro o “Experimento Duplo-Cego” participou da Virada Cultural no Centro Universitário de Cultura e Arte de Feira de Santana (BA). Em uma sala ampla e escura, os visitantes ouviram, durante 25 minutos, a descrição em áudio das obras, enquanto duas luzes negras iluminavam as três páginas fixadas na parede com os títulos em braile. Além de vivenciarem o processo da produção como autores, os alunos foram, neste dia, espectadores, acompanhando a reação do público.

A proposta de audiodescrição sofreu transformações ao longo do processo até ser traduzida numa experiência artística que contemplou questões que vão além da acessibilidade, como a reflexão sobre a visão e a imaginação.

Todos os procedimentos metodológicos das aulas nos levaram – e aí me incluo, além dos alunos – a diferentes experimentações. Neste percurso o resultado foi além do que eu previa, pois a nossa imaginação nos conduziu a outros lugares.
Ao longo do processo, vivenciei uma experiência bem horizontal, onde a investigação sensível dos materiais, procedimentos e questões envolvidas transformou o processo de ensino-aprendizagem em co-criação professor-aluno. Os estudantes aprenderam sobre a audiodescrição e a forma como esta técnica pode tornar acessíveis obras de arte das mais diferentes linguagens para pessoas com deficiência visual.

Registros da minha vivência

Referências bibliográficas

GOMBRICH, E. H. A história da arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1999.
MANGUEL, Alberto. Lendo imagens. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
MORIN, Edgar; CIURANA, Emilio-Roger; MOTTA, Raúl Domingo. Educar na era planetária. São Paulo: Cortez, 2003.
STANGOS, Nikos (Org). Conceitos da arte moderna. Rio de Janeiro: J-Z-E, 1991.
SÁNCHEZ VÁZQUEZ, Adolfo. Convite à estética. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999.



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  • Ágda Barros, 19:25 - 24/10/2014
    Parabenizo a todos os envolvidos nesse belíssimo trabalho: o professor e os alunos do 8º ano do Colégio Helyos.
  • ivone rizzo bins, 16:40 - 04/02/2015
    Muito belo este projeto e acredito que tenha sido riquíssima a experiência, não só para os alunos e participantes, mas também para o professor. Gostei muito de ler este relato publicado! Parabéns a todos!
  • Maria Jose, 17:50 - 20/09/2015
    Trabalho belíssimo, parabéns ao professor e a todos envolvidos no projeto!

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