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Monografias e Teses

As Monografias e teses aqui apresentadas são de responsabilidade de seus respectivos autores. O Instituto Arte na Escola propõe sua leitura como fonte de pesquisa e estudo.

Arte pública- um olhar investigativo à educação patrimonial

Nível: Mestrado, 2007
Universidade: IA-UNESP
Introdução As intervenções artísticas operadas nas cidades brasileiras vêm sendo estudadas, há pouco mais de duas décadas, como instrumento para analisar as aglomerações espaciais ur-banas. Um ponto marcante nesses estudos é a abordagem desse espaço urbano como um sis-tema construtivo e dinâmico e não como uma estrutura construída, estática. A cidade é plane-jada e analisada como um conjunto significativo de relações qualificadas e permeada por uma malha que integra ações sociais, políticas, econômicas, culturais, históricas, estéticas entre outras cujos sentidos ultrapassam sua composição e seus processos formadores. Mesmo assim, sob esses aspectos a cidade perde aos poucos seu caráter de espaço neutro. Inúmeras manifestações como comícios, protestos, reivindicações políticas e festas populares acontecem na cidade e muitos artistas contemporâneos passam a repensar esse espaço sob o ponto de vista coletivo, constituindo e intervindo no contexto histórico, cultural e artístico, por meio das obras de artes. Normalmente essas intervenções ocorrem com o intuito de tra-zer para os cidadãos um contato real, mais próximo da arte nos meios urbanos, desmistifi-cando a idéia de que obras de arte devem ser vistas apenas em museus, centros culturais, galerias, locais que parecem distantes para a grande massa urbana, que se utiliza a cidade. Arte pública - arte urbana. A cidade sempre exerceu desafio criador para pintores, arquitetos, fotógrafos, artistas. A arte pública ou arte urbana, (como alguns artistas preferem classificar) propicia uma certa infor-mação visual que possibilita ao público da rua, da vida cotidiana, estar em contato com ma-nifestações que desafiam as normas sociais questionando, muitas vezes, a noção de espaço público e contribuindo para eliminar as possíveis barreiras que resistem em separam a arte da vida. Nas palavras de Brenson (1998, p.19) a arte pública é ainda uma prática social que se apropria do espaço urbano promovendo mudanças, interligando e modelando a construção afetiva/coletiva de uma cidade. Para Lemoine, (1998, p.213) “quando um artista tem de realizar um projeto de arte pública ele precisa responder determinações de escala, situação, localização, urbanismo, arquitetura e além disso, determinações técnicas e ater-se a um orçamento” . Os parâmetros e os meios de representação do espaço urbano vindo das experiências clássica e moderna já não são mais suficientes. A cidade contemporânea deixa de ser representada pelo uso do espaço urbano por meio de uma democracia compreendida e os parâmetros da arquitetura moderna já não respondem mais a esses desafios. Novas formulações de ocupa-ção equivocam-se por não manterem uma relação crítica com seu entorno.A arquitetura veio sendo diligentemente relacionada ao desenho urbano de modo que a criar o espaço urbano como elemento ordenador e a cidade como rede espacial. Jorge Mario Jáuregui (2002,p.154) menciona que um novo paradigma para o que poderia conformar o relacionamento entre natureza e arquitetura, espaço público e privado, indivíduo e sociedade, arte e fruição, sem subordinação mas articulando demandas sociais e o potenci-al tecnológico atual, se faz necessário, constituindo o legado que a modernidade estendeu. Se por um lado melhorias da qualidade de vida e a revitalização do espaço público estão na ordem do dia materializando a imagem de resgate do espaço coletivo, artistas têm buscado compor suas intervenções a partir de uma análise simbólica desse urbano, em que a arte par-ticipa como constituinte e não como constituída, criando um campo processual entre o urba-no, a cidadania e o artístico. A arte pública em suas diversas configurações apresenta-se como essa possibilidade, criando e ampliando esse horizonte promovendo e auxiliando a demanda que museus, galerias e centros culturais ainda não conseguem suprir. E dentro dessa perspectiva, qual o acesso dos cidadãos comuns à obra de arte? Como locali-zar diante dessa produção aspectos educacionais que valorizem e ampliem experiências em contato com a arte? E o mais enfático nessa discussão: será a cidade apenas mais uma alter-nativa ao sistema expositivo da arte em questão?. A proposta não é responder a todas as argumentações mas, indicar exemplos, entre as relações da arte produzida no espaço da cidade (por meio da arte urbana, arte pública) e a falta de projetos que estimulem à uma futu-ra educação patrimonial. Alguns museus de arte no país, como é o caso do Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP) têm incentivado à produção de arte pública e à recuperação da experiência pro-cessada pelas intervenções artísticas através de mídias (fotografia, vídeo, literatura específi-ca, jogos interativos, palestras, oficinas, etc.) – além de possuir em seu entorno um espaço reservado denominado jardim de esculturas, incentivando também à exibição da obra de arte em parques, jardim, praças. Outro exemplo dessa iniciativa é o Museu de Arte Moderna (MAM), localizado no Parque Ibirapuera desde 1969, e que inaugurou o seu o Jardim das Esculturas em 1993. Seu objetivo era o de estender a exposição de seu acervo para além do espaço físico interno, possibilitando a integração das obras de arte à paisagem do parque e que passam a ser acessíveis ao todo e aos visitantes que usufruem, pois o jardim das escultu-ras e o museu transformaram-se, com suas obras de arte e paredes de vidro, numa grande vitrine artística.Com isso a arte pública situa-se na interface entre o espaço institucionalizado e o espaço urbano, incluindo a reflexão sobre a cidade e suas configurações na esfera da me-mória coletiva, mas que ainda é dominada pelas instituições. Um olhar investigativo sobre a educação patrimonial A educação patrimonial está prevista nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN- 1997 e 1998) dentro da ementa para o ensino de história. Atualmente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - Lei n° 9.394/96 - enfatiza, no seu artigo 26, que a parte diversificada dos currículos do ensino fundamental e médio deve observar as características regionais e locais da sociedade e da cultura, o que abre espaço para a construção de uma proposta de ensino voltada para a divulgação do acervo cultural dos estados e municípios. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o ensino fundamental, elaborados pelo Ministério da Educação (MEC), trazem uma inovação, ao permitir a necessária interdiscipli-naridade na educação básica, mediante a introdução dos chamados "temas transversais'' que deverão integrar as diferentes disciplinas escolares. Dois desses temas transversais possibili-tam à escola o estudo do patrimônio histórico e a conseqüente adoção de projetos de educa-ção patrimonial. A educação patrimonial nada mais é do que uma proposta interdisciplinar de ensino voltada para questões pertinentes ao patrimônio cultural. Compreende desde a inclusão, nos currícu-los escolares de todos os níveis de ensino, de temáticas ou de conteúdos programáticos que versem sobre o conhecimento e a conservação do patrimônio histórico, até a realização de cursos de aperfeiçoamento e extensão para educadores e a comunidade em geral, a fim de propiciar informações do acervo cultural, despertando, nos educandos e na sociedade, o sen-so de preservação da memória histórica e o conseqüente interesse pelo tema. A necessidade da educação patrimonial ou da utilização do acervo cultural brasileiro como objeto de estudo nos currículos e programas escolares já se constituía uma preocupação dos ideólogos do pa-trimônio cultural. Outros historiadores e profissionais que lidam com a dimensão da memória vêm propondo no âmbito de suas instituições culturais, sobretudo em museus, a elaboração de programas de educação patrimonial. Conforme a museóloga Maria de Lourdes Horta, (2000) “a educação patrimonial como um instrumento de alfabetização cultural, possibilita ao indivíduo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sociocultural e da trajetória histórica-temporal em que está inserido''. Segundo a museóloga, a educação patrimonial possibilita o reforço da auto-estima dos indivíduos e das comunidades e a valorização da cultura brasileira em sua rica diversidade.A partir da experiência e do contato direto com manifestações da cultura, em todos os seus múltiplos aspectos, sentidos e significados, o trabalho da educação patrimonial busca levar à sociedade um conhecimento ativo, capacitando-os para um melhor usufruto des-tes bens, e propiciando a geração futuras a produção de novos conhecimentos. A observação direta e a análise desse patrimônio cultural (aquilo que está à vista de nossos olhos) permitem vivenciar a experiência. O uso de métodos investigatórios é uma das primeiras capacitações que se pode estimular por meio de um processo educacional., desenvolvendo habilidades de observação e análise crítica, comparação e dedução, formulação de hipóteses e solução de problemas colocados pelos fatos e fenômenos observados. A educação patrimonial possibilita iluminar as relações sociais e econômicas que deram ori-gem a lugares, praças, referenciais históricos e ao mesmo tempo, o conceito de patrimônio deve ir além dos monumentos arquitetônicos, trazendo à tona também as histórias de vida nesses locais. Segundo Josso (2004, p.72) “a reflexão sobre a vida é centrada nas experiên-cias que consideramos significativas, para compreendermos o que nos tornamos hoje, e de que forma chegamos a pensar o que pensamos de nós mesmos, dos outros e do nosso meio humano e natural.” O diálogo com o patrimônio tem que ser feito a partir do momento presente e trazer contri-buições para nossa vida de hoje, além de ser capaz de ampliar nossas concepções de vida. A cidade ainda tem espaços onde a população marginal não adentra, como se houvesse muros invisíveis. É interessante questionar o caráter público que se imprimi às relações sociais, aos monumentos, as obras de arte expostas ao ar livre na cidade, criando uma imagem de cunho público, mas que muitas vezes é privado. Para Amaral (1997, p.193) “o olhar cotidiano, fragmentado,superficial descontinuo caracte-rístico da contemporaneidade, prioriza a velocidade, a mobilidade, é seletivo mas não refle-xivo. A experiência provoca a percepção, ver em profundidade, estimula um olhar cuidadoso apreciativo, crítico e criador.” Cabe ressaltar que projetos pedagógicos que visem o incentivo de aluno-cidadãos dentro do espaço urbano da cidade contribuem e estimulam para um maior conhecimento crítico e a apropriação consciente por parte das comunidades e indiví-duos do seu “patrimônio” são fatores indispensáveis no processo de preservação sustentável desses bens, assim como no fortalecimento dos sentimentos de identidade e cidadania. Conclusões O conhecimento dos elementos que compõem essa riqueza e diversidade e o diálogo perma-nente que está implícito neste processo educacional estimulam e facilitam a comunicação e a interação entre as comunidades e os agentes responsáveis pela preservação possibilitando a troca de conhecimentos e a formação de parcerias para a proteção e valorização desses bens. Portanto nessa teia de relacionamentos, tanto museus,galerias, monumentos históricos e a própria cidade podem e devem sediar e abraçar a arte pública-urbana. Daí a importância da reapropriação espaço-temporal construtiva, comunitária, que as manifestações urbanas pode, mesmo nos dias de hoje, alcançar. As relações propiciatórias dos espaços coletivos, compartilhados com a coletividade, sinali-zam vertentes produtivas de uma cultura multifacetada e dinâmica que incluem e requerem do artista e do futuro usufruidor um debate contextualizador no âmbito político, social e eco-nômico de uma determinada comunidade. É neste sentido que a ação de projetos educacionais, pedagógicos, em parcerias com iniciati-vas privadas, Estado e representante da comunidade, devem caminhar, pois a educação patri-monial busca a capacitação dos indivíduos para a leitura e a compreensão desses processos culturais, mais do que dos produtos deles resultantes e constituem a evidência cultural que procuramos elucidar e ressaltar nos cidadãos. Deste modo ao reconhecer a representação dos anseios e aspirações sociais, as reinvenções de acontecimentos do passado e a memória coletiva do lugar, a obra de arte pública-urbana re-força a cidadania e redireciona simbolicamente a arte e a própria cidade.

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